Damon Winter/ The New York Times
Damon Winter/ The New York Times

Em 'The Voyeur’s Motel', Gay Talese relata a história de um voyeurista

Novo livro do escritor e jornalista norte-americano foi objeto de controvérsia nos EUA por seu conteúdo e pela ética do trabalho

Dwight Garner, The New York Times

08 Julho 2016 | 10h49

Em 1998, escrevendo na The New Yorker, Bill Buford afirmou que 5.000 telescópios eram vendidos anualmente em Nova York. Isto em um lugar, acrescentou, onde “muitas pessoas não veem uma estrela desde o grande blecaute de 1977”.

Com ou sem telescópio, as pessoas gostam de espiar outras pessoas. Buford chamou atenção para sua própria mania de olhar da janela do seu apartamento seus vizinhos distantes. “É uma experiência muito excitante”, escreveu. “Um exemplo da desumanidade da cidade? Possivelmente. Mas também pode ser a expressão de uma humanidade insaciável, sempre querendo saber mais e mais sobre a espécie humana, o equivalente visual da fofoca”.

O título do artigo de Buford era Thy Neighbor’s Life (A vida do teu vizinho), alusão ao clássico do jornalismo participativo sócio-sexual de Gay Talese, Thy Neighbor’s Wife (A mulher do próximo) de 1981. Talese, como muitos jornalistas, suponho, sempre gostou de observar o outro. Ler Thy Neighbor’s Wife nos leva ao desejo de fazer um comentário sobre o próprio Talese, similar ao feito por Laura Dern no tocante a Kyle MacLachlan em Veludo Azul: “Não sei se você é um detetive ou um pervertido”.

O novo e controvertido livro de Gay Talese mais uma vez tem a ver com espionar o outro. E novamente o renomado jornalista se move nas fronteiras entre o trabalho de detetive, a transgressão e o desejo.

O livro narra a história de Gerald Foos, que possuía um motel com 21 quartos numa área sórdida na periferia de Denver.

Na década de 60, Foos relata, ele instalou aberturas de ventilação especiais sobre as camas dos quartos do seu hotel que lhe permitiam ver sem ser visto. Durante décadas ele espionou, praticamente todas as noites, a partir do que chama de seu “deque de observação”. E se deleitou, ad nauseam. Foos reuniu centenas de páginas com anotações detalhadas sobre a natureza humana, sexual e outras coisas mais. Não se considerava um ser rastejante e nem uma espécie de James Stewart em Janela Indiscreta, mas um pesquisador pioneiro, um companheiro de Masters e Johnson.

Talese baseou-se em grande parte nos diários de Foos. Às vezes Foos está meramente excitado ou exasperado. (“Deus, nunca vou ter outra oportunidade de observar esses seios magníficos). Outras vezes, ao observar a natureza humana naquilo que ela tem de pior - brigas, roubos, furtos, crueldade, desprezo - parece mais uma versão do colunista de Nathanael West em Miss Lonelyhearts (1933). Acha que carrega o peso do mundo sobre seus ombros. “As pessoas são basicamente desonestas e sujas”, escreve Foos. E se torna cada vez mais estranho e depressivo.

O livro é repugnante em vários níveis. Talese teve conhecimento das atividades de Foos em 1980, quando o dono do motel lhe escreveu uma carta. Talese visitou o local e chegou a participou de algumas sessões de voyeurismo. Certa vez sua gravata de seda escorregou pela na grade de ventilação e ficou pendurada em cima de um casal em pleno ato sexual; por pouco os dois observadores não foram pegos. “O que estou fazendo aqui? Tornei-me cúmplice neste estranho e repugnante projeto?”

Na época Talese decidiu não escrever sobre Foos, especialmente porque este queria se manter anônimo. Mas o escritor não o descartou por causa do seu comportamento imoral e ilegal, mesmo depois de Foos confessar ter presenciado um assassinato. Os dois mantiveram contato até 2003, quando então Foos o autorizou a usar não só os seus diários, mas também seu nome. Ele estava próximo dos 80 anos e achava que a idade o protegeria contra algum processo judicial.

O livro foi muito criticado, do ponto de vista ético, desde que um trecho foi publicado na The New Yorker. Críticas também foram feitas ao fato de o autor não ter checado os fatos. Segundo informou o The Washington Post na semana passada, Foos, entre outras coisas, não era proprietário do hotel nos oito anos (1980-1988) em que, segundo ele, teria espionado seus clientes. Ao saber do fato, Talese de início renegou seu livro, mas depois voltou atrás.

Ele tem razão em defender sua obra. Talese deixou totalmente claro em Voyeur’s Motel que Foos não era um narrador totalmente confiável. Muita coisa por ele relatada ocorreu antes de 1980. Na verdade, Talese admite suas próprias inconsistências na sua história. “Não posso garantir que todos os detalhes que ele relata em seu manuscrito são verdadeiros”, escreve. O leitor tem isto em mente quando lê o livro, ao mesmo tempo tem poucas dúvidas de que tudo o que é relatado de fato aconteceu. Edições futuras do livro podem corrigir alguns erros e omissões.

Não tenho muita certeza de que consigo fazer uma defesa ética irrefutável do jornalismo de Talese em The Voyeur’s Motel, pelo menos não no espaço que resta desta coluna, mas consigo fazer uma defesa literária. Este livro mudou completamente minha postura de leitor. É um livro estranho, melancólico, moralmente complexo, rude, com frequência terrível e às vezes sombriamente divertido, um livro que contém uma espécie de feitiço, não diferente de The Journalist and the Murderer de Janet Malcom (1990), sobre a incômoda confusão que escritores de não ficção e seus personagens costumam armar.

Gay Talese não é o intelectual provocador como Janet Malcom, nem procura ser. Mas uma razão pela qual seu livro é fascinante é que ele não fica ruminando seu material. Ele expõe o que sabe e não sabe em sentenças claras e definidas como um nó Windsor de gravata. Expressa suas dúvidas, mas tem confiança que o leitor tirará suas próprias conclusões.

E não demoniza Foos. É claro que se trata de um homem doente. Ele segue alguns sujeitos que espionou até suas casas para saber como é sua vida fora dali. Mas também é uma figura sensível e trágica. Ele se ressente da Guerra do Vietnã ao ver veteranos inválidos tentando, e às vezes não conseguindo, fazer sexo com suas mulheres. Seus diários bem escritos estão repletos de admiração por lésbicas, que afirma serem os “únicos casais que parecem desfrutar mutuamente do prazer na cama”.

Foos defende seu voyeurismo, dizendo que ninguém foi afetado ou exposto.

Muitas vezes você vai se sentir esgotado à medida que lê The Voyeur’s Motel. O objetivo é este. É um livro intenso que nos lembra que o problema de estar vivo é ver coisas que odiamos, mas que nos atraem de qualquer modo. É possível admirá-lo e ao mesmo tempo querer desviar dele o nosso olhar indiscreto. / Tradução de Terezinha Martino

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