Bob Wolfenson
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Em sua estreia como contista, Chico Buarque provoca espanto e candura

Para usarmos uma metáfora futebolística, tão ao gosto do autor, podemos dizer que ele joga como um meia-armador clássico: cabeça erguida, passes precisos, sem firulas ou carrinhos desnecessários

Marcelo Moutinho, Especial para o Estadão

16 de outubro de 2021 | 05h00

Ao analisar o legado literário de Marques Rebelo, o crítico Alfredo Bosi se refere à simplicidade como uma “arte difícil”. A expressão reverbera à medida que avançamos pelas 168 páginas de Anos de Chumbo e Outros Contos, primeira incursão de Chico Buarque pelo universo da narrativa curta. Para usarmos uma metáfora futebolística, tão ao gosto do autor, podemos dizer que ele joga como um meia-armador clássico: cabeça erguida, passes precisos, sem firulas ou carrinhos desnecessários.

Dos oito contos do livro, seis se passam no Rio de Janeiro. São histórias concisas, quase todas ambientadas nas franjas da zona sul ou da Barra da Tijuca – a zona de elite da cidade. Mas o Rio que sobressai na obra não é aquele que enfeita os cartões-postais ou sites de viagem. Se a paisagem muitas vezes coincide com essa imagem idílica, no fundo dela a luz é dura, a chapa é quente. 

Protagonista do conto homônimo, Cida vive no rico Leblon. Sua casa, contudo, é a Praça Antonio Callado, onde dorme sobre um banco de cimento e se alimenta com as sobras das refeições da vizinhança. Nas noites de chuva, abriga-se numa guarita abandonada. O banheiro é o canal de águas sujas que deságua na praia. Ali se banha, lava as roupas e faz as “necessidades”. A escassez da personagem, e mesmo seu desvario, contrasta com o entorno glamouroso; ela é uma verruga na pele sedosa do Leblon. 

No delirante Copacabana, o adolescente narrador mora de frente para o mar, mas confessa às vezes se sentir contaminado “pelo lado sombrio do bairro”. Sua figura dá contornos físicos a essa dualidade tensa que Chico ressalta ao retratar a cidade. O rapaz tinha “belas cores, o rosto bronzeado e uns olhos claros de fulminar as garotas”. As costas, no entanto, “eram de pobre”: apinhadas de cravos, espinhas e furúnculos.

“O Rio de Janeiro é uma cidade com muitas cidades dentro.” Voltamos a Marques Rebelo. Ao formular a frase, numa conversa com Clarice Lispector que data de 1968, o cronista aludia à singular personalidade de cada bairro. Em Anos de Chumbo e Outros Contos, ela ganha outro sentido. Passadas mais de cinco décadas, há um Rio que se move, sem alarde, no interior do cenário de exuberância. Nos contos de Chico, os intestinos estão à mostra. Milicianos circulam em carros de luxo, distribuem dinheiro vivo, ignoram as placas de proibido estacionar. A polícia aplica tapas e pescoções, agride com barras de ferro. Se quer matar, mata.

O autor trata esses assuntos com mordacidade. A opção por narrar sob olhos infantis, que se dá em boa parte das histórias, permite que haja um misto de espanto e candura na condução das tramas. Bom exemplo é o conto Os Primos de Campos. O protagonista tenta montar um enredo plausível para o passado familiar a partir da observação dos acontecimentos que envolvem o pai desaparecido e os parentes que volta e meia vêm passar as férias em sua casa, no Leme. A busca é por juntar as peças, cotejando informações quase sempre esparsas, “dessas que as crianças captam no ar e misteriosamente guardam para si como coisa roubada”.

A história é elaborada com base em largos saltos no tempo. Ao mencionar a namorada que pretende estudar Letras e Jornalismo, o narrador nos conta: “(Ela) aprecia meus textos, me corrige, me ensina expressões como ‘dar a ler’, mas tem restrições à forma elíptica como trato certos temas”. E assim, com engenho e perspicácia, Chico inclui a figura de linguagem na própria trama. Um drible curto, de quem conhece o jogo. 

Esse tom levemente irônico se faz presente em outros textos, como O Passaporte e Para Clarice Lispector, com Candura. No primeiro, o personagem denominado “grande artista” é obrigado a enfrentar um desafeto após esquecer os documentos no banheiro do aeroporto. Entre pequenas vinganças e planos cheios de malícia, Chico constrói uma divertida comédia de erros. 

No segundo conto, a investigação sobre a relação entre ídolo e fã abre espaço para passagens hilárias, como aquela em que o narrador comenta a revisão da obra Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice: “Houve ainda um quiproquó, pois a editora deu por falta da primeira parte do material enviado, sem atinar que o romance principiava de fato com uma vírgula: mais tarde telefonaram para cobrar a última página, porque o romance terminava com dois-pontos”. Ao fim, o desprezado admirador transforma sua obsessão em textos que escreve e publica na internet, como se fossem da autora. Se homenagem ou revanche, o leitor decide.

Há humor também, mas com um travo amargo, em O Sítio, cuja composição ecoa a progressiva instabilidade vivida por seu protagonista. Exilado na casa de campo ao lado da namorada durante a pandemia, ele se enreda numa espiral de melancolia e ciúme. “Há sempre o dedo do diabo num corpo em desequilíbrio”, anota ao flagrar a mulher oscilando diante do despenhadeiro. A vulnerabilidade que a cena sugere, no entanto, é um reflexo. Sem se dar conta, é ele quem oscila, quem braceja, quem está a ponto de cair. 

Ao discorrer sobre o gênero, o argentino Ricardo Piglia afirmava que o conto sempre traz uma história visível e outra oculta. Essa premissa atravessa praticamente todo o livro. A exceção, talvez, seja o texto de abertura. Meu Tio nos apresenta um desprezível tipo endinheirado que se julga acima das leis e até dos interditos sociais. Ele se diverte ao derrubar um pedestre com seu SUV Pajero 4x4, paga à própria irmã para fazer sexo com a sobrinha. À primeira leitura, o personagem soa caricatural. Então lembramos que as caricaturas chegaram ao poder, e a impressão se desfaz. 

Não é casual que Meu Tio inicie o livro. Tampouco que Chico tenha escolhido Anos de Chumbo para encerrá-lo. Dos membros da milícia aos torturadores da ditadura civil-militar, há similitudes de prática e lógica. Uma linha invisível une, dentro da obra, essas duas pontas, que se espelham. Como dizia Millôr Fernandes, “o Brasil tem um imenso passado pela frente”. 

*É ESCRITOR E JORNALISTA. AUTOR DE ‘A LUA NA CAIXA D’ÁGUA’, ‘RUA DE DENTRO’ E ‘FERRUGEM’

Escritor perdeu seu passaporte

A realidade sempre foi uma interessante fonte de inspiração para os escritos de Chico Buarque, seja na prosa ou na poesia de suas canções. É o caso, por exemplo, de O Irmão Alemão, lançado em 2014 e que se caracteriza como uma ficção com forte componente autobiográfico – Chico se baseou na história real de seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, que, no período em que morou em Berlim, entre 1929 e 1930, manteve uma aventura amorosa com uma alemã chamada Anne Ernst. 

Dessa relação, nasceu um filho, Sergio Ernst. O historiador brasileiro nunca conheceu o rapaz e, apesar de não ser segredo, o assunto não era abertamente tratado na família criada depois por Sérgio Buarque.

Já nos contos de Anos de Chumbo, a principal referência está na presença de Clarice Lispector em uma das histórias – a escritora, que morreu em 1977, chegou a receber a visita de um jovem Chico Buarque. Apenas o final da história, em que fã publica textos na internet como se fossem dela, não é verdadeiro.

Também o divertido O Passaporte parte de uma premissa verdadeira: Chico realmente perdeu o passaporte quando se preparava para embarcar para uma viagem a Paris e encontrou o documento no lixo de um banheiro. Já a vingança que marca o final do conto é ficcional.

E Cida, que acompanha uma mulher miserável que vive da bondade de estranhos (muitas vezes, de uma forma cruel) e tem momentos delirantes, que foi inspirada em uma história real. E, novamente, Chico disfarça a realidade com sua envolvente ficção. / UBIRATAN BRASIL

Leia um trecho de 'Meu Tio'

“Meu tio veio me buscar em casa com seu carro novo. Ele não costumava subir, mas dessa vez trazia uma encomenda para a minha mãe. Como sempre acontece nessas situações, papai fingiu que estava dormindo no quarto. Mamãe recebeu meu tio com dois beijinhos, ofereceu café, água, pão de queijo, mas lá em casa ele ficava irrequieto, não se instalava. Os beijinhos da chegada já valeram como despedida, e mal tive tempo de catar a bolsa.”

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