Rafael Arbex / ESTADAO
Rafael Arbex / ESTADAO

Em seu primeiro romance, Giovana Madalosso experimenta o valor das coisas em São Paulo

Com 'Tudo Pode Ser Roubado', escritora finalista do Prêmio Biblioteca Nacional em 2017 cria uma personagem incomum e interessante na literatura brasileira contemporânea

Entrevista com

Giovana Madalosso

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

16 Fevereiro 2018 | 06h00
Atualizado 16 Fevereiro 2018 | 09h20

A personagem principal do primeiro romance de Giovana Madalosso é uma garçonete sem pretensões artísticas e sem interesses acadêmicos. Em Tudo Pode Ser Roubado (editora Todavia), sua atividade paralela, roubar objetos da casa de pessoas com quem se envolve na noite de São Paulo, porém, chama a atenção de Biel, um trambiqueiro de chapéu que lhe dá uma missão: encontrar, na casa de um jovem professor da Faap, uma primeira edição de O Guarani.

A partir do ponto de vista da personagem, o romance passeia pelas ruas do centro expandido da metrópole, “uma São Paulo depois do expediente”, como diz a narradora. “O que sobra é pouco, um emocional talhado pelos excessos, um terreno propício para as patologias se instalarem”, continua.

O livro será lançado em São Paulo na quinta-feira, 22 de fevereiro, na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915), às 19h30, com sessão de autógrafos.

Depois das narrativas autoficcionais de A Teta Racional (Grua, 2016), Madalosso (de 42 anos, nascida em Curitiba, mas habitante de São Paulo há 18) escolheu outro universo narrativo. “Achei interessante tirar a mulher do lugar de coadjuvante do submundo, promovê-la de mulher de malandro para o posto de malandra-mor”, diz a autora, que já trabalha num novo romance.

A personagem tem uma formação intelectual e educacional menor que a tua. Não querendo generalizar, mas já fazendo isso: você não acha que geralmente é o contrário na literatura brasileira contemporânea?

Sim, concordo que na literatura contemporânea brasileira as frutas não têm caído muito longe da árvore. E tendemos a imaginar que, quanto mais parecido com o escritor for o personagem, mais vívido ele será.

De onde ela surgiu?

A narradora, que de fato não tem nome, nasceu de algumas motivações. Primeira, o desafio de não fazer um romance de autoficção. Nada contra a autoficção. A única questão é que o meu livro anterior, o volume de contos A Teta Racional, tem grande parte de seus contos narrados por personagens autoficcionais, então eu quis me desafiar a sair disso. Outra motivação foi procurar uma personagem feminina que não fosse óbvia, que fugisse do âmbito doméstico, dos dramas familiares. Sempre gostei dos anti-heróis, dos vigaristas da literatura, mas eles são sempre homens. Então, achei interessante tirar a mulher do lugar de coadjuvante do submundo, promovê-la de mulher de malandro para o posto de malandra-mor. Mas confesso que a principal motivação para escolher uma garçonete-ladra como protagonista foi o imenso universo narrativo que se abriu para mim. A possibilidade de circular com ela pela noite paulistana, de entrar dentro da casa e da intimidade de pessoas e partir desse olhar tão peculiar de uma larápia dada a encontros fugazes, traçar um retrato da nossa geração, da solidão e da dificuldade de se relacionar que parece perseguir a todos. Lamentei, ao terminar o livro, não poder mais excursionar pela casa de tão diversos personagens. Também é interessante mencionar que já trabalhei como garçonete, o que me ajudou bastante na construção dessa narradora

A narradora fala de uma “São Paulo depois do expediente”: “O que sobra é pouco, um emocional talhado pelos excessos, um terreno propício para as patologias se instalarem”. O que você vê em SP que pode fazer da cidade esse terreno das patologias?

Mais do que o tamanho, acho que o que faz de São Paulo uma engendradora de patologias é a importância dada ao trabalho e à produtividade. Ou ao que a nossa sociedade chama de produtividade. Depois do nome, uma das primeiras coisas que as pessoas perguntam umas para as outras em São Paulo é: no que você trabalha? Essa equivalência ilusória entre “o que sou” e “o que faço” fomenta uma ansiedade pelo sucesso profissional e financeiro que, por sua vez, faz todo mundo trabalhar mais. E ansiedade e falta de tempo livre, como todos sabem, não são o melhor elixir para a saúde. Talvez por isso, São Paulo seja a cidade com o maior número de doentes mentais do mundo. Ou, ao menos, com o maior número de doentes mentais diagnosticados e, portanto, medicados. O que também me faz pensar que aqui não temos tempo nem para convalescer e nos reerguer em paz. Apesar de tudo isso, e talvez até por isso, amo São Paulo.

Ainda é raro ver personagens trans na literatura brasileira contemporânea, ou mesmo com sexualidade fluida. Sua narradora tem um pouco disso também (além, claro, da amizade com a personagem Tiana, uma mulher trans). Qual é a importância, para você, de incluir na ficção personagens como essas?

A narradora reflete a minha forma de ver as preferências sexuais: não as considerando, não fazendo delas uma questão. Acho opressiva a necessidade que temos, desde cedo, de nos encaixarmos dentro de algum rótulo baseado nos nossos desejos. Não ganhamos nada com isso e ainda limitamos a nossa liberdade de experimentar coisas novas ao longo da vida, porque obviamente não somos tão simples e previsíveis a ponto de pertencermos a identidades estanques. Por outro lado, ainda vivemos num mundo muito marcado pelos problemas de gênero, então esse é um assunto que precisa ser discutido, até para que um dia a gente evolua a ponto de não ter mais que falar disso. A Tiana, amiga trans da narradora, tenta enriquecer esse diálogo à medida que traz situações inusitadas envolvendo gênero para dentro do romance.

TUDO PODE SER ROUBADO

Autora: Giovana Madalosso

Editora: Todavia (192 páginas, R$ 49,90, R$ 34,90 versão digital)

TRECHO:

“Essa era a São Paulo de que eu gostava, a São Paulo depois do expediente, quando as pessoas afrouxavam a gravata e deixavam entrever, como flores sinistras rebentando pelo corpo, as marcas de viver numa cidade tão obcecada pela produtividade. Porque, no final, a verdade sobre uma cidade é esta: o que sobra de cada um depois que as luzes dos escritórios se apagam. E aqui, como todo mundo sabe, o que sobra é pouco, um emocional talhado pelos excessos, um terreno propício para as patologias se instalarem. Mas eu ainda preferia ver as pessoas assim, na sua face mais combalida, do que projetando virtudes de curriculum vitae à luz do dia.”

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