MURASAKI SHIKIBU AT ISHIAMA-DERA
MURASAKI SHIKIBU AT ISHIAMA-DERA

Em seu novo livro, Martin Puchner conta a história da escrita na civilização

Autor constrói história da palavra escrita passeando por tecnologias de impressão e textos fundamentais

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2019 | 03h00

A tarefa a que Martin Puchner, professor de literatura comparada da Universidade de Harvard, se propôs era ambiciosa: escrever uma história da escrita que mostrasse como ela transformou a civilização global. Tarefa que ele cumpriu com uma bibliografia enorme e viagens por várias partes do mundo, condensadas agora em O Mundo da Escrita (Companhia das Letras).

O livro vai da Epopeia de Gilgamesh, passa por Alexandre, O Grande, Sócrates, Buda, Jesus Cristo, pela narrativa árabe, dá um contorno pelos Maias e pela tradição oral africana, pela literatura europeia e soviética, passa pelo pós-colonialismo e chega a Hogwarts (o castelo de Harry Potter). Ao mesmo tempo, desenha a história das tecnologias que deram suporte a esses trabalhos, da invenção à popularização da escrita, até a impressão em massa e o papel. Sobre esses assuntos, Puchner respondeu a algumas questões por e-mail.

Você diz no livro que precisamos de uma interpretação sólida para entrar em contato com os textos “fundamentais”. Qual é o lugar para melhor fazer isso?

O “fundamentalismo textual” se tornou cada vez mais importante para mim. Eu estava, no livro, traçando a influência de textos como os primeiros épicos (Homero), religiosos (a Bíblia hebraica) ou políticos (Declaração de Independência dos EUA) e percebi o quanto nossas sociedades ainda dependem deles. Reverenciar textos antigos não é necessariamente ruim, mas as coisas ficam ruins se não nos permitirmos flexibilidade o suficiente para interpretá-los de acordo com nossas necessidades. Isso deve acontecer em todos os lugares, na universidade, na mídia, mas também em igrejas e instituições religiosas, escolas, tribunais. 

Você encontrou na sua pesquisa casos de difusão de desinformação proposital, baseada em novas tecnologias?

Quando se quer que novas tecnologias apareçam e mudem o mundo da escrita, a autoridade de velhas instituições é desafiada. Veja a Reforma Protestante. A imprensa permitiu a Lutero enfrentar a instituição mais poderosa do mundo, a Igreja Católica. Esse desafio também significou que, repentinamente, outras regras para publicações foram criadas e, sim, muita desinformação foi espalhada pelas impressoras. Mas novas instituições emergem e adquirem autoridade e confiança – os jornais, por exemplo. Então, sim, sempre houve desinformação, mas também vejo um padrão na História que leva para a criação de novas instituições.

Você também diz acreditar que “é sempre melhor ter uma perspectiva global” sobre a literatura. Hoje em dia, líderes globais resistem à ideia em muitas áreas. Qual é o papel da literatura nesse contexto?

O termo “literatura universal” foi criado por Goethe em 1827, em meio a um momento nacionalista, mas Goethe resistiu a esse nacionalismo. Ele começou a ler literatura de outras culturas, China, Índia, Pérsia. Agora, estamos de volta num momento intensamente nacionalista em todo o mundo. É por isso que penso que promover a literatura universal é tão importante. Ela nos permite ver o mundo de diferentes perspectivas; e porque a literatura tem tanta importância na formação das sociedades, nos permite um entendimento mais profundo de outras culturas.

O Brasil está numa crise cultural e editorial, com livrarias falindo e investimentos governamentais na cultura caindo. Teoricamente, você pensa que o mundo da escrita precisa passar por novas crises para se reinventar?

Bem, não temos escolha. Estamos atravessando uma enorme transformação e temos que tirar o melhor dela. A mudança tecnológica tem lados bons e ruins. Mais está sendo escrito e lido por mais por mais pessoas do que em qualquer momento da história humana. As barreiras de acesso para pessoas comuns se tornarem autores e publicarem desapareceram. Essa é uma enorme democratização da literatura e da escrita. Por outro lado, há algumas coisas, como as fake news e as crises no mercado editorial. Não há soluções simples. No livro, quis olhar para trás nos momentos iniciais em que imensas transformações mudaram a maneira com que nos comunicamos por escrito. Cada transformação causou enormes ansiedades; as pessoas pensavam que suas sociedades estavam desmoronando. Às vezes, guerras religiosas aconteceram como resultado. A escrita é uma ferramenta poderosa. Mas no fim, sou otimista. No passado, aprendemos a manejar essa ferramenta. Acredito que vamos aprender de novo.

Evolução 

Uma linha do tempo do mundo da escrita segundo Puchner

2100 a.C.

Atual Iraque

Primeiras histórias de Gilgamesh, em escrita cuneiforme

 

1000 a.C.

Jerusalém

Registros da Bíblia Hebraica

 

800 a.C.

Grécia

Homero, em alfabeto grego

 

Século 5 a.C.

Índia, China e Grécia

Buda, Confúcio e Sócrates

 

30

Israel

Jesus vive e ensina

 

868

China

Sutra do Diamante, a mais antiga obra impressa existente

 

1000

Japão

Sra. Murasaki escreve ‘Romance de Genji’, o primeiro romance

 

1550

México

O Popol Vuh, mito fundador dos Maias, em alfabeto latino

 

1827

Alemanha

Goethe e a literatura universal

 

1960

Guiné

‘Epopeia de Sundiata’, mito fundador da África Ocidental, ganha versão escrita

O MUNDO DA ESCRITA Autor: Martin Puchner Trad.: Pedro Maia Soares Editora: Companhia das Letras (472 p., R$ 89, R$ 39)

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