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Em ‘Que Fim Levou Juliana Klein?’, Marcos Peres mostra aptidão para compor diálogos

No entanto, segundo romance do vencedor dos prêmios Sesc e São Paulo articula as referências filosóficas de modo apenas ilustrativo

Rodrigo Petronio, Especial para O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 04h00

A palavra investigação tem duas acepções, uma ligada ao conhecimento e outra de natureza policial. Não por acaso, de Poe e Doyle a Borges e Hammett a narrativa policial e a narrativa especulativa quase sempre exploravam esse duplo sentido. 

Depois de ganhar o Prêmio Sesc de Literatura (2012-2013) e o Prêmio São Paulo de 2014 com o romance O Evangelho Segundo Hitler, que une fatos históricos a personagens reais numa história complexa e altamente envolvente, o escritor paranaense Marcos Peres acaba de publicar também pela Record um novo romance, Que Fim Levou Juliana Klein?, no qual se sugere uma filiação a essa tradição ao narrar um longo conflito entre dois clãs numa trama tortuosa. 

O jovem delegado Irineu de Freitas parte do assassinato de Juliana Klein. Acaba descobrindo outros crimes e enigmas ao reconstruir a genealogia das duas famílias mais influentes da vida acadêmica em Curitiba: Klein e Koch. A primeira domina a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a segunda, a PUC do mesmo Estado. Essa reconstrução retroage à origem alemã dos ancestrais de ambas as famílias, e se desenvolve até os momentos da ação, divididos em três anos: 2008, 2011, 2005. 

Uma das chaves para decifrar o assassinato é a filósofa Tereza Koch, que também acaba sendo assassinada, incidindo a suspeita sobre o professor Salvador Scaciotto. O assassinato de Tereza intensifica a animosidade entre as duas famílias e, em consequência, entre as duas universidades, bem como dificulta ainda mais o trabalho de Irineu. 

Uma pesquisa no crematório sobre o destino dos corpos aumenta as pistas sobre os envolvidos na morte de Juliana. Por sua vez, a ligação de Olga com Tereza pode não apenas elucidar a morte desta como revelar elos ocultos entre os Klein e os Koch. Essas revelações conduzem Irineu ao coordenador do curso de filosofia, Franz Koch. Contudo, com essas revelações, o romance também insere novos vestígios e novos enigmas, que oscilam entre um chaveiro de Bob Esponja, trechos de A Divina Comédia e um aforismo de A Gaia Ciência de Nietzsche. Os desdobramentos ulteriores ficam para o leitor. 

Segurança. Peres demonstra uma grande aptidão para compor diálogos e boas cenas, bastante verossímeis. Outro aspecto central é a construção da trama, articulando em anos diferentes os personagens de ambas genealogias, Klein e Koch. A tarefa de unir essas narrativas cruzadas não é fácil e o romance a realiza com segurança. Entretanto, acaba por esbarrar em um obstáculo.

As referências filosóficas são articuladas de modo exterior ou apenas ilustrativo à narrativa. Elas abrem capítulos, mas poucas vezes se encontram materializadas ao leitmotiv dramático ou à definição dos personagens. Além de poucas referências à filosofia, tendo em vista estarmos diante de um romance todo criado em torno de personagens ligados à vida acadêmica, as referências a autores como Sartre, Nietzsche e Dante deságuam em alguns lugares-comuns. 

A investigação policial por isso enfraquece diante da obliteração da premissa inscrita no próprio argumento, ou seja, de que essa investigação terá uma razão filosófica funcionando como uma segunda estória, na acepção de Piglia. Essa razão surge mais bem delineada apenas no final, quando o romance incorpora um jogo com o conceito de tempo cíclico de Nietzsche, aliando filosofia e ação (drama).

De modo geral, o enredo (mythos) não acompanha a ideia (dianoia), na acepção de Northrop Frye. Assim, Peres se mostra um bom romancista policial que fornece falsas pistas sobre o próprio romance. Sugere ao leitor que se trata de uma encenação filosófica da investigação de um crime, quando o que se lê é a investigação de um crime envolvendo professores de filosofia que poderiam desempenhar papéis distintos daqueles que desempenham. 

RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR E FILÓSOFO. PROFESSOR DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARGUMENTO E ROTEIRO, MINISTRA CURSOS LIVRES DE ESCRITA E DE FILOSOFIA NA CASA CONTEMPORÂNEA

QUE FIM LEVOU JULIANA KLEIN?

Autor: Marcos Peres

Editora: Record (352 págs., R$ 40)

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