Bob Peterson via The New York Times
Bob Peterson via The New York Times

Em 'Os Fatos', Philip Roth sai da ficção para entender a própria vida

Companhia das Letras publica o livro de 1988 pela primeira vez no Brasil

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

24 de setembro de 2016 | 04h00

Philip Roth escreveu Os Fatos – que a Companhia das Letras põe nas livrarias agora pela primeira vez no Brasil – entre 1987 e 1988, após lançar o seu mais engenhoso livro até então (O Avesso da Vida) e ter o que ele chama de “crack-up” (colapso, na tradução de Jorio Dauster): em 1986, vivendo em Connecticut, sua dor nas costas o travou a ponto de seu irmão, Sandy, ter que se mudar de Chicago para ajudá-lo; no mesmo ano, sofreu uma lesão no joelho em uma piscina, e uma cirurgia errônea para corrigi-la resultou num vício em Halcion, um indutor do sono receitado que lhe causou efeitos colaterais diversos como alucinações, ataques de pânico e uma depressão suicida. Houve então um tratamento para largar o Halcion.

Mas ele não fala nada disso em The Facts, além de um par de menções de raspão. O livro (A Autobiografia de um Romancista, como anuncia o subtítulo), que se encaixa nesse gênero perigoso, transita entre sua infância – largamente explorada em sua ficção, nas ruas de Weequahic, distrito de Newark – e as condições que o fizeram escrever e lançar, para a glória definitiva, O Complexo de Portnoy, em 1969.

O leitor habituado ao estilo satírico d Roth vai estranhar o tom por vezes condescendente que ele emprega aqui – o livro é ensanduichado por duas cartas: uma de Roth para Zuckerman (seu personagem mais célebre), e outra, no fim, de Zuckerman para Roth, e esses dois momentos justificam a obra. No início, o autor, ao comentar sua escolha momentânea pela não ficção, diz que está escrevendo um livro “desidratando-o a fim de restaurar sua experiência original, a realidade pré-ficcional” – e as resenhas, da época e tardias, sugerem que ele passou um pouco do ponto na desidratação. 

A primeira carta é uma consulta: Roth pergunta a Zuckermann se deve publicar Os Fatos. A resposta é previsível, mas a análise da carta final é uma (auto)crítica literária impiedosa, bem-humorada e inteligente, como nos melhores momentos da ficção de Roth – ou seja, a voz de Zuckermann é mais rothiana do que a do próprio Roth, como bem aponta a autora de Roth Libertado (também publicado por aqui), Claudia Roth Pierpont. 

“Ora, é bem possível que, numa autobiografia, despido do senso de inexpugnabilidade que a imaginação narrativa parece conferir a seus instintos de autorrevelação, você não consiga entender com facilidade sua parte no processo”, escreve Zuckermann a Roth. E ele se refere especialmente ao tratamento que o escritor dispensa a Josie – na verdade, Maggie Williams, sua mulher entre 1959 e 1963. O relacionamento entre os dois foi repleto de desencontros e mal-entendidos – que inclui uma gravidez falseada –, e Roth faz questão de externar sua raiva (com longas e, às vezes, irritantes digressões sobre seus motivos), mas para chegar à conclusão decisiva: “Ela foi o maior de todos os meus professores de escrita criativa”. Autoindulgência ou sinceridade?

Na abertura, Roth escreve, com uma dúvida interessante em se tratando de um autor como ele: “Será (que escrevi) para provar que há um abismo significativo entre o escritor autobiográfico que dizem que sou e o escritor autobiográfico que de fato sou? (...) Seja franco”.

OS FATOS

Autor: Philip Roth

Tradutor: Jorio Dauster

Editora: Companhia das Letras (208 págs., R$44,90, R$ 30,90 o e_book)

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