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Em 'O Regresso', Lúcia Bettencourt recria os últimos momentos da vida de Rimbaud

História relata trajetória do poeta após voltar de viagem misteriosa à África

Mauricio Salles Vasconcelos, ESPECIAL PARA O ESTADO

30 Outubro 2015 | 19h15

O romance de Lúcia Bettencourt, centrado no retorno de Rimbaud à França depois da linha de fuga traçada para fora do domínio eurocêntrico (rumo à Arábia e à África) em culminação com sua recusa da escrita poética, não fica sem revisitar os entrechos mais pulsantes da obra-vida (como bem definiu Alain Borer, o percurso do autor entre literatura e caminhada, livro e experiência). Curioso se revela acompanhar o modo como a narrativa se constrói a partir de fragmentos da biografia do autor, sempre passível de especulação (em todos os sentidos que encerra, na pulsação daquele que propunha o desregramento de todos os sentidos como programa da criação moderna de poesia).

Montada em um jogo nada linear de associações entre diferentes dimensões de tempo e dos lugares cruzados pelo escritor de Iluminações, a versão romanesca dos últimos dias de Rimbaud apresenta um lastro de pesquisa consistente. Visível se mostra, ao mesmo tempo, a capacidade da escritora intercalar o dado documental com a pauta lírica tomada no espaço narrativo.

Mobilizantes, muito criativos são esses momentos de liberdade no romance de Bettencourt – liberdade livre, poder-se-ia citar o poeta em sua voluntária redundância na busca do movimento como arte de ser/escrever, numa radicação inseparável em fatores extremos, em experimentação sempre. Iteração paradoxal intensificada até o fim por parte de Rimbaud (o Rimbaud do fim). Justo no ponto em que O Regresso acaba por se deter com minudência de detalhes: o ritual cirúrgico de sua mutilação, seguido da agonia por mais uma estação infernal de uma vida deambulante, contraditoriamente encerrada sobre cotos de corpo.

Tendo-se em conta a disposição da autora em seguir os investimentos de corpo e linguagem no texto de Rimbaud é que se revela limitador o encaminhamento da narrativa para um modelo tão sedimentado como aquele que constitui o saturado “filão” das vidas recriadas de autores/artistas/personagens da cultura (consonante com uma já exaurida “metaficção historiográfica” em acionamento incessante por obra dos nichos acadêmicos e mercadológicos). Por outro lado, um traço classicizante na releitura rimbaudiana muitas vezes se impõe. Algo bem contrário à dinâmica heterodoxa de sua recepção na contemporaneidade, de que pode ser um exemplo inventivo, à altura do potencial poemático do autor, o livro de Kathy Acker (espantosamente não traduzida no Brasil), In Memoriam to Identity (1990). Vibra, no romance de Acker, um compósito de testemunho (provindo de uma autora decisiva do pós-modernismo literário, numa releitura audaciosa de sua história de vida, pontuada pela experiência como stripper) e reescrita do autor sempre adolescente (observando-se seu legado em interrupção, no auge da juventude e da produção).

Rimbaud não é passível de ser reconduzido a uma acepção una de ser e linguagem. Seu visionarismo, sempre presentificado em homenagens e citações, se embasa numa configuração alterna de identidade e projeto escritural. Nesse ponto, o romance em pauta corre o risco de enfeixá-lo em uma perspectiva demarcada pelos fatos de uma vida e de uma época, segregada em uma datação, dentro de um emolduramento passadista.

Qualquer regresso à sua poética se apresenta indissociável dos rastros que lança ao vitalismo da própria literatura no tempo. Cada contato com Rimbaud significa seguir, de modo sempre desterritorializante, a repercussão de suas linhas de força em diferentes culturas e autorias, ao longo do século 20 e no correr do atual milênio, sob o signo de uma intervenção em tópicos essenciais. Tudo o que se dá no pulsar de uma indagação intermitente acerca da vida material, da ideia de progresso despontada na modernidade do Ocidente, com a potência de investigar a sexualidade no mesmo veio de uma busca espiritual, nada distante do enfrentamento do mundo da técnica e da ciência.

Tal voltagem inexiste em O Regresso, por conta de um descompasso com um autor que não se abstém da relação entre poesia e corpo, entre atividade literária e (geo) política. São esses os polos captados pelo poeta-cartógrafo até o fim, até seu regresso à Europa sob o talhe do sol africano em um rosto já irreconhecível. Justamente, pelo dado de uma alteridade essencial, sua autoria se dissemina com uma força crescente de interferência nos rumos da escrita, nas esferas do saber, sempre apontados para um incansavelmente formulado, jamais imobilizado – absolutamente moderno – agora.

* MAURICIO SALLES VASCONCELOS É ESCRITOR, ENSAÍSTA E AUTOR DE EXTERIOR. NOITE – FILOSOFIA/LITERATURA (LUMME)

O REGRESSO

Autora: Lúcia Bettencourt

Editora: Rocco (192 págs.;R$ 29,50; R$ 19 o e-book)

Mais conteúdo sobre:
Arthur Rimbaud Literatura

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