Susan Wright/The New York Times
Susan Wright/The New York Times

Em 'O Mergulhador', uruguaio Luis dos Santos traz delicado relato sobre busca por afeto

Romance foi escrito nas horas vagas do emprego do autor em um centro comercial na cidade de Salto, no noroeste do Uruguai

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 05h00

As ideias nasceram entre gôndolas de um supermercado – nas horas vagas em seu emprego na Cosalco, centro comercial da cidade de Salto, no noroeste do Uruguai, Luis dos Santos rascunhou um pequeno romance que, se é diminuto no número de páginas (98), é grandioso em sua escrita poderosa. O Mergulhador, lançado agora pela Diadorim Editora, acompanha a rotina de um menino que luta contra a solidão em busca do amor e do reconhecimento do pai.

Narrada em primeira pessoa pelo garoto, a prosa se assemelha a uma confissão, a uma abafada demonstração de afeto, especialmente quando o menino descobre um dom que transforma o pai em uma pessoa especial na vila: encontrar corpos de afogados usando apenas uma flor de jasmim – ao ser colocada na água, a planta flutua até parar no ponto onde está a vítima submersa.

“Levei cerca de quatro anos para escrever o livro”, explica Santos. “Surgiu da mistura de uma crença que existe em minha cidade sobre a capacidade de alguns sacerdotes para encontrar afogados com a ajuda do pão abençoado e o próprio trabalho que meu pai desenvolveu quando eu era pequeno, que consistia em mergulhar profundamente no Rio Uruguai para colocar bombas que levam água às plantações de cana de açúcar.”

Para o escritor de 53 anos, a obra busca mostrar a falta de comunicação e afeto que muitas crianças vivem, especialmente em relação aos pais. “Esse menino apenas tenta contar, por meio de seus atos, a solidão em estar se tornando homem. O livro trata, então, desse vazio que a ausência geralmente nos deixa, do valor curativo da amizade, de quão ruim é quando os sentimentos não são ditos, da bondade que tem em perdoar e aceitar ser perdoado.”

Há mais de 25 anos, Santos trabalha no centro comercial de Salto, no qual passou por diversas áreas – em entrevista a um jornal uruguaio, ele conta, em tom jocoso, que escreveu mais sobre a morte quando atuava na seção de delicatessen. Sem descuidar de suas atividades, seu interesse, no entanto, era criar uma escrita que navegasse ao sabor da correnteza de um rio, cuja passividade habitual é surpreendida, às vezes, por uma estranha violência. Sobre a obra, Santos respondeu, por e-mail, às seguintes questões ao Estadão.

Seria certo dizer que uma das lições do livro nos ensina que, mais que temer pela morte (fato inevitável), deveríamos temer por uma vida sem amor?

Essa é uma das muitas leituras que, neste momento, o próprio livro retornou para mim. Descobrir que a coisa mais terrível nunca será temer esse fim inevitável, mas encará-lo como apenas outro esqueleto, carregado de tempo, mas vazio de momentos inesquecíveis, transformado em uma pilha de ossos sem memória. Embora a morte tenha algo de um cão raivoso (que, quando morde, deixa marcas e, muitas vezes, deixa você doente para sempre), nada será mais insignificante e mais triste do que passar pela vida sem sequer ter sido tocado pelo extraordinário momento de amor.

Os personagens poderiam ser opacos, por conta das obrigações impostas pela vida, mas são complexos. A mãe, por exemplo, aparentemente insensível, é revelada de uma forma até delicada pelo narrador.

Nesta atmosfera de velha solidão, na qual cada um carrega sua própria história e os sentimentos estão ocultos em silêncio, as personagens geralmente são muito parecidas com a terra. São ásperas, às vezes ressecadas, mas basta um pouco de água para se descobrir que a verdadeira vida que se esconde pode emergir. Acredito que a mãe jamais é insensível, amorosa ou indiferente, ela simplesmente não pode, ela não sabe, ela não pode mostrar seu carinho. Talvez isso seja algo comum a quase todos os personagens.

Já o pai se aproxima de um super-herói, pois tem o incrível dom (ou maldição) de encontrar afogados, além de conseguir ficar um incrível tempo submerso. É certo dizer que a figura do pai nos é apresentada de forma “distorcida” por conta da admiração que sente seu filho?

O menino admira seu pai como qualquer criança de sua idade, mas é um sentimento nublado por medo reverente e pelo distanciamento. Há coisas que você não consegue entender. Talvez seja por isso que ele esteja envolvido em mais e mais travessuras, procurando fazer com que aquele super-herói do fundo do mar um dia pare e olhe para ele. O doloroso é que, às vezes, isso pode levar uma vida inteira.

Aliás, qual é seu interesse nessa dificuldade de comunicação entre pais e filhos, que às vezes marca muitas famílias?

Eu me sentiria muito satisfeito se pudesse mostrar neste romance as feridas terríveis que a indiferença tantas vezes nos deixa. Aquela ferida em carne viva que nunca cicatriza, aquele vazio atemporal que nos deixa desamparados diante da aventura da existência. Esse garoto, que, no fundo, exige dos pais apenas um pouco de atenção, carinho, olhar, beijo, se parece com muitas crianças que se tornam homens, cheias de cicatrizes e ausências. Nesse caminho, às vezes desolado, você descobrirá o valor curativo da amizade e encontrará forças para se levantar de novo e de novo. Precisamos olhar para trás para entendermos a nós mesmos. Aceitar nossa própria história e evitar que se repita, para que amanhã outro menino não precise sofrer novamente por esperar por uma carícia.

Como foi o trabalho de transformar o elemento fantástico (o garoto conversando com o avô já falecido) em algo cotidiano, sem mistério?

O elemento fantástico do romance veio naturalmente. Às vezes, a literatura é apenas um disfarce para nos enganarmos. A figura do avô se tornaria o amigo invisível tão comum, com quem muitas crianças brincam. Na minha infância cheia de amigos de verdade, nunca tive essa experiência, mas sem dúvida gostaria de viver. Seria um humilde ingrediente do realismo mágico, um gênero que sempre me fascinou.

De que forma o fato de viver em uma área fronteiriça com Argentina e também próximo ao Brasil interfere em sua escrita? 

Muitas vezes pensei em meu relacionamento com a escrita e na encruzilhada que me levou a escrever. Cheguei à conclusão de que foi decisivo ter raízes nesta terra mágica de montanhas e rios, povoada por pessoas carinhosas, tão cheias de histórias incríveis, que é sem dúvida sempre uma fronteira entre o real e o imaginário, uma espécie de metáfora diária da vida e da morte. Confesso ser um militante da memória. Vislumbro a silhueta da Argentina do outro lado do rio Uruguai e a presença perturbadora do Brasil a alguns quilômetros de distância. Entre eles, meu universo literário foi sendo tecido, tentando ser nem mais nem menos, mas um cálido reflexo da natureza humana e seus mistérios.

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