Em novo romance, Simone Campos busca um certo retiro ilimitado

Com 'A Vez de Morrer', escritora carioca fala da fuga inevitável da cidade grande, das igrejas evangélicas e até de 'revenge porn'

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2014 | 02h00

Desde a sua estreia na literatura, em 2000, com o romance No Shopping, publicado pela 7Letras, passaram-se 14 anos: um fato impressionante se você levar em conta que Simone Campos tem apenas 31. Agora, com A Vez de Morrer, seu quinto livro e lançado pela Companhia das Letras, ela mostra o processo de amadurecimento pelo qual passou ao trazer temas atuais – e polêmicos – para a sua ficção.

A morte do avô de Izabel, protagonista de A Vez de Morrer, desencadeia o livro, que passa então a narrar os meses que se seguem e nos quais Izabel alterna sua vida entre a rotina incerta no Rio com a tranquilidade (e outras características mais interessantes) de Araras, cidade que faz divisa com Petrópolis, na região serrana.

Em uma linha paralela, o romance também acompanha Eduardo, espécie de garoto prodígio e microempreendedor, dono de lan house em Araras e, imagina-se, um “partidão”. A imagem do completo bom moço perante a comunidade, porém, começa a perder força quando Eduardo decide deixar de frequentar as igrejas evangélicas que a família tanto adora.

“Eu fui de uma igreja evangélica até os 17 anos”, diz Simone, em uma conversa por e-mail com o Estado. “Acho positivo na presença evangélica no Brasil o poder de cimentar comunidades e aumentar a autoestima das pessoas, motivando-as a largar vícios, a trabalhar e empreender”, diz a escritora, numa fala que talvez desagradasse a seu personagem Eduardo. Por outro lado, ela se diz preocupada com a ingerência da bancada evangélica no Congresso, por exemplo. “Fico admirada ao ouvir discursos e atitudes de ódio, zombaria e segregação de pessoas que se dizem cristãs, mas isso tem sido cada vez mais comum”, lamenta.

Outro assunto atual e recorrente no romance é a especulação imobiliária. Acostumada a fugir dos problemas na medida em que eles aparecem, Izabel também se depara com a dificuldade de encontrar um local justo para morar no Rio, e essa é uma das forças que a mandam para Araras. A fuga da personagem – traço marcante da sua personalidade– é, em parte, resultado direto do ambiente.

“Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Ela não era muito de se preocupar com dinheiro, mas era o tipo da preocupação que vinha e abocanhava seu calcanhar”, diz o narrador, após uma ronda de Izabel pela zona sul do Rio atrás de um lugar para morar. 

“Estou cansada de tanta personagem mulher ser meio piradinha (calculista ou passional), e de fazer tudo por causa de filho ou de homem. Nesse caso, escrevi uma individualista viciada em fugir toda vez que encontra um problema que, pouco a pouco, aprende a enxergar os outros seres humanos”, arrisca.

Um diálogo entre Izabel e sua mãe é simples e sintomático. “Eu não entendo como uma menina linda como você não tem namorado. Só pode ser porque não quer”. “É. Deve ser, né?”

Na outra ponta do romance, Eduardo começa a delinear a própria personalidade num evento bem narrado pela escritora: a Vigília das Grandezas de Deus, no Maracanã, com 200 mil pessoas. Uma vigília que a criança de 10 anos, acompanhada do pai e da mãe, perdida nos próprios pensamentos, transforma em um Fla-Flu para conseguir, no mínimo, ficar ali. 

Pouco tempo depois do evento, o pai morre. “Às vezes, Eduardo responsabilizava os discursos de prosperidade da Vencer em Cristo pela morte do pai. Quer dizer, de ser chefe ele não tinha condição, então se Deus estava 100% do seu lado por que, simplesmente, não abraçar o risco, tomar o mundo nas costas e dar uma banana para o resto? Mas era muita responsabilidade cultivar ódio de Deus”, ironiza o narrador.

Porém, mais presente no livro do que a religião está o sexo: Izabel explora sua própria sexualidade o tempo todo, e por azar isso acaba virando um problema. Em algum momento do livro, um vídeo de “revenge porn” cai nas mãos erradas.

Carreira. Sobre a sua evolução como escritora – vale lembrar, seu primeiro livro foi publicado quando ela tinha apenas 17 anos –, Simone diz estar mais “escolada” sobre o que dá certo. “Sempre gostei de condensar muito sentido em poucas palavras. Fragmentar a narrativa e usar vocabulário difícil já me pareceram os melhores métodos de fazer isso; hoje, acho que a clareza tem um poder inestimável.”.

Depois de No Shopping, Simone publicou A Feia Noite (2006), também pela 7Letras, no qual apresenta uma linguagem propositadamente difícil. Também em 2006, saiu Penados y Rebeldes, ficção científica bilíngue (português e inglês) publicada na internet. Em 2011, talvez sua narrativa mais particular até aqui: OWNED – Um Novo Jogador é um livro-jogo online em que o leitor decide ações dos personagens e, de acordo com cada decisão, a história toma um rumo diferente. Os dois últimos estão disponíveis na internet, gratuitos. Ela também publicou contos em diversas antologias importantes, como Geração 90 – Os Trangressores (org. Nelson de Oliveira, 2003), 25 Mulheres Que Estão Fazendo a Nova Literatura (org. Luiz Ruffato, 2004) e O Livro Branco (org. Henrique Rodrigues, 2012).

Uma presença marcante em todo o trabalho de Simone são os games. Em A Vez de Morrer, eles aparecem no trabalho de Izabel e também de Eduardo (ela designer, ele programador). “Os jogos são multimídia, mas seu verdadeiro diferencial são as regras. Elas espelham a vida e por muitas vezes nos obrigam a escolher entre opções eticamente limitadas, racionar recursos... ou seja, a engolir sapos”, afirma a escritora.

“Mas a literatura é melhor em criar climas e envolver o leitor nos pensamentos íntimos de outra pessoa”, confirma, reconhecendo a vantagem inapelável: “Talvez porque o livro seja um software que roda em nosso cérebro; com ele, nós somos a máquina e o usuário”.

A VEZ DE MORRER

Autora: Simone Campos

Editora: Companhia das Letras (256 págs., R$ 38)

Quem é - Simone Campos - Escritora

Nascida no Rio, em 1983, ela publicou romances pela editora 7Letras e também na internet. Concluiu um mestrado em teoria da literatura e literatura comparada na Uerj, sobre o jogo no romance A Defesa Lujin, de Nabokov. Também fez trabalhos de produção editorial, tradução e crítica literária.

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