Dida Sampaio|Estadão
Dida Sampaio|Estadão

Em novo romance, Ana Maria Machado transforma história de amor impossível em ficção

'Um Mapa Todo Seu' conta a paixão do abolicionista Joaquim Nabuco e a emancipada Eufrásia

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2015 | 04h00

Nas primeiras cem páginas de Um Mapa Todo Seu, novo romance de Ana Maria Machado, o leitor acredita acompanhar o amor impossível entre Zizinha e Quincas, dois filhos de famílias distintas do final do século 19 - a dela, rica e francamente aristocrática; a dele, com dificuldades financeiras, mas com marcante presença na política.

Uma paixão impedida pelas diferenças sociais e políticas, como uma espécie de Romeu e Julieta nacionais. Somente após uma centena de páginas é que Ana Maria deixa claro não se tratar apenas de um romance histórico ficcional: Zizinha é o apelido de Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930), mulher que marcou época por comandar os negócios da família, tornando-se ainda mais rica; e Quincas é Joaquim Nabuco (1849-1910), escritor e diplomata que se tornou uma das figuras expoentes na luta pela extinção da escravidão no País.

“O início da história é menos fundamentado em documentação, o que me permitiu usar mais a imaginação na criação dos fatos”, conta Ana Maria. “Também no começo do projeto, fui motivada pelo fascínio por Joaquim Nabuco e sua luta contra a escravidão - o abolicionismo é um tema que me atrai muito, algo visceral.”

Assim, ao começar as pesquisas sobre Nabuco, a escritora descobriu a figura hipnotizante de Eufrásia, mulher que, com a morte do pai, assumiu o controle financeiro da família, contrariando o tio, que buscava casá-la com um homem que assumisse as rédeas. E Eufrásia não apenas se posicionou na chefia como também, por precaução, mudou-se para Europa, onde se tornou uma das primeiras mulheres a investirem na bolsa de valores.

“Há pouca documentação sobre Eufrásia - algumas cartas e um livro com fotos de uma época em que ela viveu em Vassouras, no interior do Rio”, conta Ana Maria, que não teve problema, logicamente, em retratar a vida de Nabuco, bem documentada. Assim, o relacionamento entre ambos é descrito de uma forma ficcional.

“Há visões desencontradas sobre eles se conheceram e como se relacionaram”, observa a autora. “Assim, escrevi sobre o início da amizade e a paixão entre eles na forma de mexerico, buscando um tom mais coloquial”, conta a escritora, que, nesse momento do romance, trata os personagens pelos apelidos. “Já os fatos reais impediam qualquer liberdade criativa - obviamente tive que me prender à realidade.”

Ana Maria começou a rascunhar o livro em 2009 quando, eleita para a secretaria-geral da Academia Brasileira de Letras (entidade na qual logo seria aclamada presidente), aproximou-se da figura de Joaquim Nabuco. Com o centenário de morte do abolicionista previsto para janeiro de 2010, a escritora decidiu aprofundar-se nas leituras de seus textos e também de sua biografia. Foi nesse período que descobriu a “dimensão hipnotizante de Eufrásia”.

“O pai dela era um capitalista e tinha uma visão de financista, o que influenciou diretamente sua formação”, conta Ana Maria, que aponta características diversas ao falar de Chica, irmã de Eufrásia, e que, no romance, tem o papel de antagonista. “Ela é o exemplo perfeito da mulher tradicional, aquela que não deve se meter nos negócios. Alguns autores que consultei acreditam que ela foi fundamental no impedimento do casamento entre Eufrásia e Nabuco.”

Sem condições de cravar com certeza por falta de documentação, Ana Maria lança, no entanto, uma hipótese sobre o que teria impedido o casamento entre Eufrásia e Nabuco - ele não aceitava o desejo de emancipação dela e Eufrásia, por sua vez, não suportava o comportamento mulherengo do abolicionista.

“Os dois assumiram atuações até então inéditas: ela, como uma mulher com ideias modernas; ele, como abolicionista. Não havia uma cartografia para cada um seguir. Daí o título do livro, Um Mapa Todo Seu.”

UM MAPA TODO SEU

Autora: Ana Maria Machado

Editora: Alfaguara (224 págs.,R$ 39,90)

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