Hulton Archive Collection
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Em novo momento, obra de J. D. Salinger finalmente chega ao digital

O espólio do autor de 'O Apanhador no Campo de Centeio' era o mais resistente à digitalização e a chegada dos quatro primeiros e-books de Salinger vai preencher um vazio que havia na biblioteca digital

Alexandra Alter, The New York Times

13 de agosto de 2019 | 21h27

Nas cinco décadas desde que J. D. Salinger publicou seu último conto, Hapworth 16,1924, sua pequena obra reverenciada ficou praticamente oculta. Mesmo quando editores e consumidores vêm adotando os e-books e o áudio digital, os livros de Salinger se mantêm desafiadoramente offline, uma consequência da aversão do escritor por computadores e tecnologia. E, embora ele tenha continuado a escrever até sua morte, há quase 10 anos, nenhuma palavra escrita por ele foi publicada desde 1965.

Isso em parte porque seu filho, Matt Salinger, que administra o J. D. Salinger Literary Trust (espólio do escritor) é um guardião vigilante do legado e da privacidade do seu pai. Mas agora, num esforço para manter os livros do pai ao alcance de uma nova geração de leitores, Matt começa a gradativamente desvendar o segredo que obscureceu a vida e a obra de um dos mais influentes e enigmáticos escritores dos EUA.

No primeiro passo de um grande revival que poderá mudar a compreensão do mundo de J. D. Salinger e suas obras, a editora Little, Brown publica edições digitais de quatro livros dele, o que o torna talvez o último ícone literário do século 20 a se render à revolução digital

No último trimestre do ano, com ajuda de Matt Salinger, a New York Public Library terá a primeira exposição dos arquivos pessoais de Salinger, incluindo cartas, fotos de família e o manuscrito datilografado do livro O Apanhador no Campo de Centeio, com as correções feitas à mão pelo autor.

E em breve, escritos de décadas de J.D. Salinger serão liberados, um projeto de Matt Salinger. Revisar os manuscritos e cartas do seu pai foi não só esclarecedor, mas emocionalmente desgastante, disse Matt em entrevista para promover as novas edições digitais.

“Meu pai detestava publicidade e certa vez afirmou: ‘Publicar é uma invasão terrível da minha privacidade’.” O que J. D. Salinger deixou quando morreu em 2010, aos 91 anos, é um dos mais fascinantes mistérios na literatura americana. Matt Salinger, de 59 anos, até certo ponto se tornou o representante improvável de um ícone literário recluso. Hoje, os fãs do autor correm atrás dele em busca de autorização para adaptar histórias do pai para filme, peça de teatro, pôr sua foto em sacolas (Matt se opõe terminantemente a tudo isso). 

Há sinais de que a profunda influência de J. D. Salinger sobre gerações de escritores e leitores americanos está desaparecendo. No Guardian, a autora Dana Czapnik escreveu sobre estudantes e professores que não se mostram enamorados de Holden Caulfield, o protagonista de O Apanhador no Campo de Centeio, como as gerações anteriores.

Só recentemente Matt Salinger se abriu mais sobre seu pai e contestou afirmações feitas em documentário de 2013 e em livro de David Shields e Shane Salerno, que causaram alvoroço com a revelação de que Salinger havia deixado cinco livros inéditos com instruções para publicá-los apenas entre 2015 e 2020. “Muita coisa no livro e no filme são pura ficção e ficção ruim.”

Segundo Salerno, livro e documentário se basearam em quase uma década de pesquisa e foram legalmente aprovados. “Matt Salinger finalmente confirmou que o que escrevi em 2013 era verdade e que obras escritas por seu pai por mais de 40 anos serão publicadas”, garantiu ao New York Times.

No momento o material dos arquivos de J.D. Salinger continua secreto. Sua obra inédita está guardada em local seguro entre a casa do seu filho em Connecticut e a casa da outra administradora do espólio, em New Hampshire, a viúva do escritor Colleen Salinger. 

Matt Salinger se prepara para liberar a obra para publicação desde 2012. Às vezes se sentiu perdido em meio aos arquivos. “Tudo era um labirinto.”

Criar arquivos digitais é algo terrível, disse, porque ele não consegue encontrar software de reconhecimento ótico confiável para converter as páginas escritas à mão em texto eletrônico, de modo que ele manualmente digita o material. O espólio do escritor era o mais resistente à digitalização e a chegada dos seus e-books vai preencher um vazio que havia na biblioteca digital.

“É o último chip em termos de obras clássicas”, disse Terry Adams, vice-presidente e editor digital e da parte impressa da editora Little, Brown. “Todos os outros espólios de grandes escritores do século 20 se inclinaram para os e-books, mas Matt estava muito cauteloso.” Matt resistiu a pedidos para publicar e-books durante anos, sabendo da aversão do pai pela internet.

“Ouço sua voz em minha cabeça e não há dúvida sobre as decisões que devo tomar, porque sei o que ele queria”, acrescentou Matt. “Coisas como e-books e audiolivros são difíceis, porque ele não os desejava.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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