FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Em novela de horror, Luiz Bras põe vivos em convivência com mortos

'Anacrônicos' revisita tradição de Adolfo Bioy Casares e Horacio Quiroga

Wilson Alves-Bezerra, Especial para O Estado de S. Paulo

15 Julho 2017 | 03h00

O fascínio da máquina que pode reter algo de uma pessoa amada tem sido matéria de manifestações artísticas desde a invenção da fotografia e da filmagem: a sedutora ideia de que a gravação possa plasmar algo da alma, na América Latina, foi o disparador de histórias clássicas. O uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937) foi um dos que desenvolveram essa ideia, em contos como El Espectro, no qual um ator morto espia, durante as sessões de exibição de seu filme póstumo, a viúva abraçada no cinema com seu melhor amigo. Ainda no cinema, o argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999), em seu célebre romance La Invención de Morel, mostra uma estranha ilha na qual um exilado vê todos os dias repetir-se uma mesma cena e se apaixona por uma mulher espectral, que comparece sempre para dar um passeio ao entardecer. 

Esse argumento fascinante – ter de volta um morto querido – tem sua contraparte horrenda: o mesmo Horacio Quiroga, no conto La Cámara Oscura, relata a história de um fotógrafo que é obrigado a encarar uma e outra vez a morte de um asmático: primeiro na realidade, logo no retrato do morto no caixão e, ainda outra vez, madrugada adentro, na sala escura em que revela a fotografia. Pois a novela Anacrônicos (que está sendo lançada só em eBook pela Amazon), que o escritor Luiz Bras acaba de lançar, revisita essa tradição, explorando mais uma vez a projeção dos entes queridos, mortos, na chave do grande horror.

Em Anacrônicos, a beleza do encontro inicial com uma pessoa já desaparecida, por sua reiteração diária transforma-se em algo mais que matar saudades: “Quando você percebeu, não havia mais felicidade, apenas um terror sutil”. Além disso, como seria de se esperar do autor de O Ser Humano na Era da Sua Reprodutibilidade Tática (2015), o fenômeno em questão não é individual, não ocorre apenas com uma pessoa atormentada: é de larga escala, são gentes mortas de toda a superfície do planeta que ressurgem, como numa pandemia. Os anacrônicos, pessoas de borracha industrial, com o cheiro e as atitudes que tinham em vida, movem-se repetidamente como autômatos, embaralham o cotidiano, ocupam todos os espaços e inviabilizam a vida social.

Mais do que tomar os anacrônicos como metáfora ou alegoria de algo, atribuindo-lhes outra significação, cabe reter deles a dimensão aterradora, construída pelo narrador de modo convincente, ao menos até resolver, ele mesmo, desmontar sua máquina. Com uma narrativa ágil, em segunda pessoa, colocando o leitor na posição da protagonista – que se depara com a mãe morta, cotidianamente, preparando o mesmo bolo na cozinha de casa – Luiz Bras realiza uma obra que, mais uma vez, funciona como provocação, um romance curto que se lê com gosto, mas também com preocupação. 

O filósofo Giorgio Agambem já disse que o verdadeiramente contemporâneo é o anacrônico; a ficção científica, gênero do qual Bras é conhecedor e praticante, também persegue a anacronia, e tem se servido historicamente de tempos imaginados para criticar as sociedades atuais. O gesto de Bras, porém, é mais radical. Nascido literariamente Nelson de Oliveira, sua carreira pode soar, ela mesma, uma grande provocação ou mesmo uma distopia para muitos escritores jovens: ganhador, por duas vezes, do prêmio Casa de las Américas, em 1995 e 2011, já publicado por grandes editoras, como a Companhia das Letras e a Record, figura de grande destaque no cenário das letras por atrever-se a produzir antologias a cada dez anos com os escritores da década, produzindo ódios e paixões, Nelson de Oliveira suicidou-se.

Dito de outro modo: primeiro substituiu-se por outro nome, com o qual já havia assinado obras infantojuvenis: Luiz Bras e, não satisfeito, assumiu-se múltiplo. Dissipou seu nome e seu prestígio entre Teo Adorno, Luiz Bras, Valerio Oliveira e, vez por outra, Nelson de Oliveira mesmo. Passou, cada vez mais, a publicar as obras dos diversos escritores por editoras artesanais ou mesmo a autopublicar-se em plataformas digitais. Almeja, como já declarou, ser o dono de sua obra, reeditá-la revisada e reunida. Um fenômeno literário como esse, de passar da construção e gestão da carreira em torno à construção do nome célebre e respeitado, premiado e traduzido, para a pulverização em uma série de autores independentes – literariamente autônomos e editorialmente livres – é familiar e inquietante. Inquietante porque parece ser contra-hegemônico, no universo que cultua a celebridade, o nome próprio, a selfie; familiar porque no contexto frequente da balcanização do debate cultural, com o avassalador fechamento dos cadernos de cultura, das livrarias, o encerramento de programas federais de fomento ao livro e à leitura, as práticas artesanais vão se tornando cada vez mais frequentes e pertinentes.

A inquietação produzida pela narrativa horrenda de Anacrônicos – em um mundo globalizado que transcende a noção de espaço e tempo resultando na produção paradoxal da reiteração do mesmo e do isolamento – é atenuada pela leveza com que a história é conduzida pelo narrador. Tal gesto narrativo, a um só tempo bem-humorado e descrente, sintomaticamente encontra sua contraparte nos gestos públicos de um escritor que, diante de um universo editorial em colapso, dá-lhe as costas com um gesto de enfado, seguido de um sorriso nos lábios.

*WILSON ALVES-BEZERRA É ESCRITOR E PROFESSOR DE LITERATURA HISPANO-AMERICANA DA UFSCAR

ANACRÔNICOS

Autor: Luiz Bras

Editora: Amazon(28 págs.; R$ 4, disponível em e-book)

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