Em mesa emocionada, Paraty ouve relatos da ditadura

Marcelo Rubens Paiva, Bernardo Kucinski e Persio Arida dividiram mesa sobre os 50 anos do golpe militar no Brasil

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2014 | 13h22

Atualizada às 15h59.

Emoção e um pouco de esperança e outro de ceticismo marcaram o debate sobre os 50 anos do golpe militar no início da tarde deste sábado, 2, na Flip. No palco, três pessoas que sofreram, de diferentes formas, os efeitos da ditadura no Brasil. Marcelo Rubens Paiva tinha 11 anos em 1971 quando o pai, o deputado Rubens Paiva, foi morto. Bernardo Kucinski perdeu a irmã Ana Rosa. Persio Arida, então militante ala juvenil da VAR-Palmares, foi preso aos 18 anos.

Foi o debate mais longo desta Flip, e ele durou 15 minutos a mais do que o tempo regulamentar para que Marcelo Rubens Paiva comentasse o assassinato do coronel Paulo Malhães, ocorrido pouco depois de ele vir a público para dar seu depoimento sobre o período. “Não sei se foi queima de arquivo. Era uma figura estranha, importante, um agente de dentro”. Ele contou que quando soube que Malhães havia falado sobre a morte de seu pai, ele disse para as irmãs que era mentira. “Aprendi com a minha mãe, em 1971, a filtrar as informações. Há um certo delírio dos agentes da repressão em mostrar poder, em mostrar que eles sabiam tudo, que tinham coisas a esconder e que agora são os donos da carne seca. Essa é mais uma tortura que estamos enfrentando”, contou.

Na sexta-feira, Rubens Paiva sugeriu, em conversa com o Estado, que o público levasse lencinhos de papel à tenda da Flip porque o encontro seria muito “emocional”. E foi assim desde o princípio, quando a plateia e os participantes ouviram a transmissão de um pronunciamento do deputado Rubens Paiva feito no dia 1.º de abril de 1964. Marcelo começou sua fala ainda sob o impacto da voz do pai no Repórter Esso, e leu a crônica Trabalhando o Sal, publicada no Estado em fevereiro deste ano. Ele precisou parar para respirar fundo. Com o apoio e aplausos da plateia, conseguiu prosseguir.

O texto rememorava o desaparecimento do pai e falava sobre a postura da mãe diante da tragédia. “Minha mãe deu o tom: a família Rubens Paiva não chora em frente às câmeras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima. A família Rubens Paiva não é a única vítima da ditadura. Esteve em guerra contra ela desde o primeiro dia. O País é a maior vítima. O crime foi contra a humanidade, não contra Rubens Paiva. Nossa luta não tem fim”, escreveu e leu agora para a plateia. Nesse momento, precisou se interromper, de novo emocionado: “Sou pai agora, meu menino tem cinco meses, estou vendo tudo isso com outros olhos”. Ao final de sua leitura, foi aplaudido de pé. Ele comentou ainda que descobriu, depois, que quem combateu a ditadura foi a mãe, e não o pai. “E foi Clarice Herzog, Zuzu Angel e outras mulheres para honrar o nome de seus maridos, amantes e filhos mortos brutalmente.”

O economista Persio Arida contou um pouco de sua história, lembrada por ele em artigo publicado na revista Piauí muito tempo depois de sua prisão e tortura. Era o começo da sua revisão dessa experiência que remonta a 1970. No momento, ele escreve um livro sobre isso. Arida não remexeu no baú antes por causa da mãe, que o censuraria. Quando ela já não estava mais com suas plenas faculdades mentais, ele achou que ela não seria mais atingida pela lembrança. Ele explicou que quando contou aos pais que estava com problemas, na hora e sem pensar nas consequências, o pai disse que o filho deveria se esconder em sua garçonière e, claro, a mãe ficou surpresa com sua existência.

Seu ponto de vista é de quem ficou desaparecido. Depois de um tempo escondido no apartamento secreto do pai, ele, ainda militante, foi preso. Foram 15 dias até que a família conseguisse a confirmação de que estava preso. “É uma sensação sensação aflitiva de fragilidade. Se sabem que foi preso, há um constrangimento em matar”, comentou.

“O desaparecimento é uma segunda tortura, que acompanha a família a vida inteira. É um entrave, uma coisa que não tem fim. Mesmo que haja revisão da lei, julgamento, respostas, a tortura não tem fim”, disse Rubens Paiva, que está confiante nas investigações do Ministério Público.

Cético em relação à localização dos corpos das vítimas, Bernardo Kucinski, professor aposentado e autor de livros sobre economia, política e jornalismo, tem se aventurado pela ficção para contar sobre o período. Seu primeiro livro publicado, K., é a busca de um pai por sua filha desaparecida. É, de certa forma, a história de sua irmã Ana Rosa, professora de química da USP, presa com o marido aos 34 anos, e morta. “Os primeiros desaparecimentos foram como um acidente de trabalho nas salas de tortura, e o pai do Marcelo poderia se encaixar nisso. No final de 1973, houve uma decisão da cúpula militar de fazer uma retirada estratégica e um dos pontos finais era eliminar fisicamente todos os dirigentes. Matar todos os que sobraram. Minha irmã e meu cunhado foram mortos nesse contexto. Depois houve os desaparecimentos do Araguaia. É um trauma para a família que não consegue enterrar seus mortos e fazer o luto, e também para a sociedade”, disse.

Houve consenso de que pouca gente hoje sabe o que de fato ocorreu naqueles tempos sombrios. “O que percebemos com as manifestações junho e com as opiniões que vimos nas redes sociais é que fomos muito negligentes com as novas gerações. Se até pessoas que participaram da redemocratização estão confusas, imagina os meninos”, comentou Marcelo Rubens Paiva.

E trata-se de um tempo que não acabou, na opinião de Kucinski. “As forças armadas não se reciclaram e não repudiaram as atrocidades cometidas. Não substituíram a doutrina militar por uma doutrina cívica. A coisa está por aí. Tenho informações de que pelo menos um grupo de ex-torturadores ainda está articulado. Aquela história de desinformar, de fazer uma guerra psicológica continua 50 anos depois, embora em escala diminuta”, disse.

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