Blad Meneghel
Blad Meneghel

Em livro infantil, Xuxa narra história real de garoto que guiou o pai cego por quilômetros

'Foi uma conexão imediata', conta ao 'Estadão' a apresentadora, que conheceu a criança em uma aldeia em Angola

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2021 | 05h00

Aconselhada pela filha Sasha, a apresentadora Xuxa Meneghel visitou a Aldeia Nissi, em Bié, Angola, uma região carente que sofreu com a guerra e onde hoje são cuidadas cerca de 1.200 crianças. E ela viajou com o plano de conhecer um menino em especial, cuja história extraordinária a inspirou a escrever Betinho – O Amor em Forma de Criança, lançado agora pela Globo Livros (32 págs., R$ 52, com ilustrações de Monge Lua).

Trata-se do garoto nascido em uma família pobre. Para completar, seu pai ficou cego quando ele ainda era bebê e a mãe, julgando-se incapaz de cuidar de todos, decidiu tentar a sorte em outra região. Um vizinho passou a cuidar de Betinho e o pai, buscando mantimentos em uma região distante.

A situação piorou quando esse vizinho anunciou que não conseguiria mais trazer comida, pois era obrigado a percorrer um longo caminho e não tinha mais condições. Apesar da pouca idade, Betinho entendeu a gravidade da situação e, como ouviu certa vez o vizinho detalhar a rota que percorria, tomou uma atitude: conduziu o pai, que se movimentava com uma bengala improvisada, até chegar à Aldeia Nissi, onde ambos foram acolhidos.

“Quando fui a Bié, conheci Betinho e seu pai. Betinho é um menino doce, com lindas bochechas e boca que parece um coração. Essa história mostra que, quando você é guiado pelo coração e age com amor, tudo dá certo”, conta Xuxa que, recentemente, lançou outro livro infantil, também inspirado em uma história real: Maya – Bebê Arco-Íris, sobre uma menina que vive com duas mães.

Desde o lançamento de sua autobiografia no ano passado, quando revelou assuntos incômodos de sua vida (como o sofrimento com bullying e assédio sexual), Xuxa vem tomando posições mais firmes sobre temas como política e a guerra estabelecida nas redes sociais entre grupos de pensamentos antagônicos. Sobre o livro e outros assuntos, ela respondeu por e-mail as seguintes questões.

O que é real e o que é ficcional na sua história do Betinho? 

É tudo verdade, só o lance da mãe dele que é ficção. Eu não sei de fato o motivo de ela ter abandonado os dois. O que sei é que ela pediu para o Betinho ficar com ela, mas o pai insistiu em ficar com ele. 

Como você chegou a esse personagem tão envolvente?

Sasha me apresentou o Betinho por meio de fotos, pois já tinha ido três vezes para Angola como missionária. Na quarta vez, fui junto. Eu já sabia que ia conhecê-lo. Assim que cheguei na aldeia, fui recebida com música, mais de 30 crianças cantando e dançando, um cachorro veio dar as boas-vindas e, logo depois, veio Betinho, que pediu colo e não saiu mais de perto de mim, foi uma conexão imediata.

A Aldeia Nissi parece ser repleta de pessoas com histórias tão tocantes como a de Betinho. O que, de fato, mais te impressionou na história dele?

Sim. Têm muitas histórias pesadas e chocantes. A do Betinho me fascinou quando ouvi o pai dizer que acha que ele tem dois anos – pois não sabe ao certo o dia em que nasceu. E, mesmo pequeno desse jeito, ele pegou a bengala (na verdade, um pedaço de madeira) e puxou o pai cego por quilômetros até achar a aldeia. Ninguém sabe direito o que se passou na cabeça dele, nem ninguém vai saber. Mas ele apareceu lá em busca de comida para ele e o pai. Mas como um bebê consegue fazer isso? Ele era um bebezão. Se hoje fala pouco, na época menos ainda. O que me intriga é como ele cuida do pai, é tão responsável e com tanto carinho para dar. O esperado de uma criança seria o contrário, por isso senti vontade de mostrar sua história.

E Betinho vai ter música, como aconteceu com Maia?

Sim, mas essa foi feita e cantada por Betto Essoko, um jovem talento da aldeia, e no dialeto deles. 

Quais outras histórias que você descobriu lá e que mereceriam ser contadas em livro?

Hummmm... São pesadas para livros infantis, mas estão escritas e gravadas na minha alma.

Você se interessaria em escrever a história de alguma criança ou animal que tiveram de enfrentar o isolamento social, provocado pela pandemia?

Não. As pessoas não estão nem acreditando no vírus, como acreditariam na minha história? 

Você já disse que era uma pessoa que não tinha opinião própria, preferindo usar a dos outros.

Preferindo não, me era passado: “Você tem que falar isso”. 

Agora, se sente dona da própria voz. Assim, o que pensa sobre o que acontece no Brasil no combate da covid-19? 

Uma vergonha, que vai fazer parte da nossa história para sempre. Um desgoverno em uma pandemia, uma falta de respeito. 

A internet tem acentuado a criação de bolhas, com as pessoas só recebendo informações que lhe agradam. Isso faz com que muitas acreditem mais no que recebem das redes sociais do que em notícias divulgadas por meios confiáveis. Como uma pessoa com muita presença na internet, como você, lida com isso? 

Lido de uma maneira ruim e estou com medo, pois não vejo melhora nessas desinformações desnecessárias, muitas fake news em um momento no qual deveríamos nos alimentar de informações corretas. E isso pode gerar uma guerra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.