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Em livro inédito no Brasil, Bukowski está na beira do precipício

Publicado pela primeira vez por aqui, ‘Miscelânea Septuagenária’ é um dos últimos do escritor e reúne contos e poemas

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2014 | 18h27

O fim da vida de Charles Bukowski (1920 - 1994) estava perto quando ele lançou, em 1990, a reunião de contos e poemas Septuagenarian Stew – publicado pela primeira vez no Brasil, agora, pela L&PM, com tradução de Pedro Gonzaga, como Miscelânea Septuagenária. Como adianta o título, ele tinha 70 anos, idade considerável se o leitor levar em conta que a vida – e a literatura – de Bukowski foram sempre empapuçadas pela bebida – embora aqui esse tema esteja presente, mas não de forma dominante.

Em Miscelânea, está o Bukowski de todo dia: profuso, irregular, balançando entre altos e baixos temáticos e estéticos. Há a bebida, as mulheres, os cavalos, mas tudo isso talvez já reflexo do fim de uma vida comprida, permeado por reflexões um pouco mais sérias sobre a vida e a morte e tudo que fica entre as duas.

“Concordo plenamente com essa leitura”, diz Pedro Gonzaga, tradutor da obra e de, pelo menos, outros nove livros lançados no Brasil pela L&PM. “Como muitos autores marginais, Bukowski acabou dirigindo muita energia para uma espécie de afirmação de lugar: primeiro, o velho bêbado e cínico entregue a aventuras inconsequentes com fãs, mulheres da vida; segundo, um lugar literário, autorreferente, marcado pela agressão aos escritores frouxos e a uma escatologia exagerada, que, ao mesmo tempo, o tornava escritor de culto”, contextualiza. 

Para ele, em Miscelânea, pode-se ver “um Bukowski mais completo, um artista que foi capaz como poucos de registrar aquele avesso do American Way of Life, sem falar do aspecto universal da solidão nas metrópoles”.

Por exemplo, no poema Corrida noturna de quarto de milha em Hollywood Park, Bukowski lança seu ceticismo sobre a questão racial, tema que talvez não tenha tanta ressonância no resto de sua obra. Depois de constatar que os brancos têm medo de passar pelo bairro negro, o poeta diz: “para fazer você se dar conta/ de onde o dinheiro ainda está:/ o dinheiro não é verde/ o dinheiro é branco/claro, há/ e sempre haverá/ brancos pobres/mas todos sabemos quem/ são os brancos/ pobres, não há problema/ nisso”.

Outros textos também levam temas que não são lá muito comuns para o universo do “velho safado”. No conto Camus, Larry é um professor universitário sem-vergonha que convida os alunos para a porrada e é adorado e, em Fama, John Marlowe, ator rico e bem-sucedido, e seu agente David Hudson dirigem por estradas do interior dos EUA conversando sobre a irrealidade de tudo: “– Você não consegue nem ter uma namorada de verdade, Dave. Fica achando que ela só está com você porque é famoso. (...) Isso perde a graça muito rápido. Você quer algo real. – Todo mundo quer algo real, mas muito poucos conseguem”.

Outro tema recorrente no livro, mas esse bastante presente por toda a obra de Bukowski, é a infância e as relações familiares, especialmente com o pai. No poema Meu pai, a ironia do poeta é fina. “acho que foi meu pai quem me fez decidir/ ser um vagabundo./ decidi que se um homem como esse quer ser rico/ então quero ser pobre”. A busca pelos escritores tão bons quanto os do passado, outra tecla em que ele batia com frequência, também aparece por aqui. “bem, onde eles estão?/ os Hemingways, os T. S. Eliots, os Pounds, os/ e. e. cummingses, os Jefferses, os William Carlos/ Willamses? (...)/ para mim, a galera atual não passa de um bando de/ farsantes/ frouxos”, diz, em Lugar nenhum.

A poesia de Bukowski – que por aqui não é tão disseminada quanto sua prosa – é justamente o ponto que faz Gonzaga enxergar uma luz mais brilhante. 

“O que de melhor ele escreveu está na poesia”, afirma o tradutor, que recentemente concluiu um doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Literatura Portuguesa. “Mas há o problema da tradução. Desde O Amor é um Cão dos Diabos (livro de poemas), resolvi que era preciso reescrever os poemas ao traduzi-los, não no sentido de grandes liberdades, mas a fim de dar a eles a máxima coloquialidade possível sem barateamentos, tentando fazer dele um poeta seco e, ao mesmo tempo, lírico em português, como ele soa em inglês.”

“Certa vez/ fomos jovens/ nesta/ máquina.../ bebendo/ fumando/ escrevendo// foi o tempo/ mais/ esplêndido e/ miraculoso// ainda/ é//só que agora/ em vez de/ nos movermos em direção ao/ tempo/ ele/ se move em direção a/ nós// faz com que cada palavra/ perfure/ a superfície do/ papel/ clara/ rápida// dura//preenchendo um/ espaço que se/ fecha” – essa é a definição que o poeta propõe para Sorte, seca e lírica.

Bukowski produziu muito – e muita coisa duvidosa, até por questões de sobrevivência, explica o tradutor. Mas um adolescente encontrá-lo depois de ter os clássicos do romantismo enfiados goela abaixo na escola é um fato que tem um potencial enorme para a formação de leitores mais comprometidos. “Foi um alívio”, lembra Gonzaga. “Graças a ele, fui ler Celine, John Fante e outros”, relata, seguindo o caminho de muitos – ele agora trabalha em uma nova tradução de poemas, com título provisório de Queimando Na Água, Afogando-se Em Chamas.

É fácil jogar tudo no mesmo balaio e concluir que seus escritos são ruins e pronto – fácil e errado. “Quando acerta a mão, quando encontra o tom sóbrio para destilar a melancolia dos esquecidos, dos batidos, ele alcança grandes e ontológicos momentos”, diz Gonzaga. 

MISCELÂNEA SEPTUAGENÁRIA: CONTOS E POEMAS

Autor: Charles Bukowski

Tradutor: Pedro Gonzaga

Editora: L&PM (392 págs., R$ 54,90)

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