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Em livro, a relação de Nixon e Kissinger, os amigos do poder

O historiador Robert Dallek pesquisou por três anos mais de 23 mil páginas de documentos relacionados ao tema

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

09 de maio de 2009 | 22h22

Eles tinham temperamentos distintos - antagônicos mesmo. Mas isso não os impediu de comandar, lado a lado, a nação mais poderosa do planeta em um momento-chave de sua história. Richard Nixon (1913- 1994), presidente da República, e seu braço direito, Henry Kissinger (1923) - cuja enorme influência como assessor de Segurança Nacional e secretário de Estado o transformou em uma espécie de copresidente - ocuparam a Casa Branca entre 1969 e 1974.

 

Até que o escândalo de Watergate forçasse a renúncia de Nixon, ele e Kissinger tomaram, juntos, medidas que tanto mantiveram os Estados Unidos na Guerra do Vietnã - a despeito das forças contrárias a isso -, como emprestaram seu apoio decisivo para a derrubada de Salvador Allende da presidência do Chile. Ao mesmo tempo, promoveram a distensão no relacionamento com a União Soviética e a aproximação com a China. Esta foi a faceta pública da dupla. Na intimidade, porém, ambos alimentaram intrigas mútuas, fruto de ambições iguais - portanto, alvo de disputas, de conflitos.

Instigado pela velada concorrência que marcou tal parceria, o historiador norte-americano Robert Dallek pesquisou durante três anos as mais de 23 mil páginas de documentos disponíveis relacionados ao tema. O resultado está no volumoso Nixon e Kissinger (tradução de Bárbara Duarte, 750 páginas, R$ 89), lançado no Brasil pela Jorge Zahar Editor. “Cada um construiu uma fachada para, conscientemente ou não, disfarçar suas verdadeiras intenções”, comentou Dallek em conversa, por telefone, desde Washington, com o Estado. “Ambos desejavam o poder desde jovem e, depois de avançarem diversos postos, viram-se lado a lado como importantes aliados.”

 

Eleito presidente depois de uma primeira tentativa frustrada (perdeu por uma pequena margem para John Kennedy, em 1960), Nixon vislumbrava estabelecer-se como estadista, um político preparado como nenhum outro para enfrentar as questões prementes da política externa dos EUA, em uma época de tensão contínua para o mundo, marcada pela Guerra Fria com a URSS. Tal objetivo se associava, de algum modo, com os propósitos de Kissinger, judeu refugiado da 2ª Guerra e decidido a impor a qualquer custo o seu valor - reconhecido desde os tempos de estudante na Universidade Harvard, onde era visto como gênio, uma combinação de Kant e Spinoza. Notadamente interessado na natureza do sistema político internacional do século 20, Kissinger sempre acreditou que o destino de um país não era completamente moldado por circunstâncias externas mas sim pelos escopos e escolhas feitos por seus estadistas.

 

O que os uniu foi a amizade comum com Nelson Rockefeller, assessor especial do presidente Dwight Eisenhower (1953-61). Kissinger o conhecia desde 1955 e foi por ele convidado a trabalhar em uma pesquisa sobre as Perspectivas para os Estados Unidos. Começava ali a série de colaborações que despertaram a atenção de Nixon, que decidiu convidar Kissinger para integrar seu governo. Era o início de uma relação que incluiu, para além do trabalho conjunto, intrigas, traições, blasfêmias - e muitos palavrões.

 

As repetidas tentativas de mostrar brilhantismo em cada ato estão entre as características mais marcantes da vida e da arte de exercer o poder praticada por ambos. “Eles cultivaram um casamento político, ainda que Kissinger considerasse Nixon um homem esquisito e desagradável, enquanto o presidente tratasse seu auxiliar pejorativamente de ‘o meu judeu’”, conta Dallek.

 

Leia, abaixo, alguns trechos do livro e assista ao trecho da ópera Nixon in China (aqui)

Um encontro

A vitória de Nixon aumentou a possibilidade de Henry Kissinger conseguir finalmente um alto cargo no governo como assessor de política externa. Por isso, ele não se surpreendeu completamente quando Nixon o chamou em 25 de novembro, em seu posto de comando transitório no trigésimo nono andar do Hotel Pierre, na Quinta Avenida, em Nova York. O constrangimento do presidente eleito surpreendeu Kissinger, que “não conhecia até então a timidez de Nixon. Ele ficava apavorado de se encontrar com desconhecidos, principalmente se temesse ser rejeitado ou refutado por estes... Nixon entrou na sala...aparentando uma autoconfiança que não era suficiente para esconder seu extraordinário nervosismo... Com jeito envergonhado; seus movimentos eram inseguros e sem ligação aparente com o que ele dizia, como se dois impulsos diferentes estivessem por trás do discurso e dos gestos.”

 

Salvador Allende

Nixon e Kissinger tinham agora uma série de reuniões direcionadas a impedir abertamente Salvador Allende de chegar ao governo. Nixon aceitou a advertência de um empresário italiano de que regimes socialistas em Cuba e no Chile transformariam a América Latina em “um sanduíche vermelho”. (...) De forma similar, a Casa Branca ignorou outros no Departamento de Estado que consideravam uma ação drástica algo equivocado. Nixon e Kissinger, contudo, acreditavam que “a eleição de Allende era um desafio ao interesse nacional dos EUA”, escreveu Kissinger posteriormente. (...) Nem Nixon, nem Kissinger, contudo, eram capazes de apontar um perigo direto aos Estados Unidos.

 

A visita à China

Kissinger se entusiasmou com os resultados da reunião na China. Sua presença em todos os encontros importantes deu a ele destaque nas manchetes como o principal artífice no governo, em conjunto com o presidente, das transformações na política externa dos Estados Unidos. Ao voltar de viagem, e ser recebido pela equipe na Casa Branca, que o aplaudiu de pé, Kissinger brincou: “Não esperava que vocês ficassem de pé, mas que pelo menos vocês se ajoelhassem.” Sua apresentação do tema reforçava a imagem dele como alguém com um entendimento excepcional dos desafios internacionais do país. “O que iniciamos na China pode ser um momento decisivo na história diplomática”, disse. (...) Ao mesmo tempo em que Nixon se preocupava com a hostilidade da imprensa, ele se queixava sobre “a tendência de Kissinger de construir sua imagem como a autoridade por trás do trono”. (...) Uma charge de Bill Mauldin resumia a situação: um turista na capital, Washington, aponta para Nixon em sua limusine e diz a seu filho, “Veja! É o sócio do Doutor Kissinger!” Nixon começou a se referir com falsidade a Kissinger como “Sir Henry”. Ele instruiu Haldeman a fornecer a Kissinger pontos para discussão que colocassem o presidente no centro de qualquer novo debate sobre a China.

 

O caso Watergate

Uma advogada em Nova York amiga de Kissinger perguntou: “Como está o presidente hoje?” O secretário respondeu: “Bem.” Ela quis saber se Nixon agia de forma “racional”. Kissinger respondeu somente: “É muito duro.” Quando ela previu que Nixon “seria condenado e iria para a prisão”, Kissinger disse: “É inacreditável.” E acrescentou: “O presidente cometeu alguns erros terríveis, mas não merece isso.” Kissinger foi extremamente ambivalente em relação à situação de Nixon. Por um lado, ele considerava a crise um obstáculo à segurança e ao bem-estar nacional que poderia acabar com a queda de Nixon, e por outro, ele era de fato leal ao presidente por ter possibilitado sua projeção nacional e internacional. (...)

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