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Historiador detalha os dois primeiros anos da 2ª Guerra em livro

A obra de Gallo não tem a pretensão de ser uma história militar ou a visão francesa da conflagração

Entrevista com

Max Gallo

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

13 de junho de 2015 | 09h00

Max Gallo é o historiador da crise de uma nação: a França. Esse período começou em 1914 e passou pela grande débâcle de 1940-1941, um momento em que a própria existência do país foi ameaçada. São sobre os dois primeiros anos do maior conflito da humanidade – a 2ª Guerra Mundial – que Gallo se debruçou para escrever 1940 – Do Abismo à Esperança e 1941, o Mundo em Chamas, ambos editados no Brasil pela Objetiva. A obra de Gallo não tem a pretensão de ser uma história militar ou a visão francesa da conflagração. Gallo nos entrega uma obra sobre o ato de resistir. No caso, uma história da resistência mundial ao nazi-fascismo. Aqui sua entrevista.

O senhor diz que a história é feita de símbolos. Quais são os símbolos que o senhor acredita serem importantes para a 2ª Guerra Mundial?

Eu penso que, para a 2ª Guerra, o símbolo mais forte é o campo de concentração Bikernau-Auschwitz, que representa o fim do respeito ao homem. É a destruição em massa, é um ponto verdadeiramente simbólico da evolução da nossa humanidade. Podemos acrescentar à destruição em massa de Auschwitz-Birkenau o bombardeio por armas atômicas sobre o Japão feito pelos Estados Unidos.

E para a França, quais são os símbolos nessa guerra?

Para a França, ela tem um papel menor nesse affair, mas ela está presente. O símbolo para ela é descolonização. Para a França é o reconhecimento de que os povos da Indochina e Argélia se voltam contra a potência colonial. Esse é um símbolo forte. É o fim de um período para a França.

Sua obra mostra o papel importante da parceria entre De Gaulle e Churchill para os eventos de 1940 e 1941. Qual foi a importância da relação entre os dois para a vitória dos aliados e para o destino da França?

Churchill, a respeito da França, teve uma atitude que variou, mas, que no fundo, sempre foi uma atitude de grande amizade. Em um primeiro momento, ele tomou posição a favor da França Livre e isso teve uma importância capital no destino político de Charles De Gaulle à medida que a guerra se desenvolveu, Churchill manteve seu respeito pela França, mas, ao mesmo tempo – e esse foi a segundo momento –, o que conta a partir de 1941 e 1942 é, evidentemente, a aliança absoluta com os Estados Unidos e o respeito à política americana. A política britânica passa a apoiar a americana.

Manter a soberania da França nesse contexto foi o principal desafio para De Gaulle. O caso de Saint Pierre et Miquelon (duas ilhas ao largo do Canadá dominadas pelo regime colaboracionista de Vichy que os franceses libres de De Gaulle tomaram, apesar da oposição americana) é o símbolo disso?

É preciso não exagerar o papel de Saint Pierre et Miquelon, mas simbolicamente é algo que deve ser lembrado, pois o episódio mostrou que a França era capaz de manter a sua independência, sua soberania, era capaz de se separar da política americana. Desse ponto de vista, Saint Pierre et Miquelon é importante, pois é o momento em que as forças franceses se opuseram à força americana que eram capazes de destruir a influência franceses nas ilhas. A política de De Gaulle constantemente foi clara. De uma parte, antes de tudo, defender a soberania francesa e, depois, manter-se fiel aos seus aliados. De Gaulle era contra a submissão à política americana e à transformação da França libertada em uma espécie de nação de segunda categoria.

Churchill e De Gaulle para o senhor simbolizam a libertação e Hitler, a barbárie. E Stalin, o que ele simboliza nessa guerra?

Stalin tem uma situação privilegiada na França. Aqui havia uma forte minoria de comunistas que o colocava acima de todos os homens de Estado. Para a França tradicional, para De Gaulle, era preciso levar em conta esse interesse minoritário por Stalin e pela União Soviética e, ao mesmo tempo, defender em relação à União Soviética a mesma política de soberania com habilidade. Isso quer dizer, tentava-se jogar com a força da União Soviéticas e com seus interesses para conquistar, em relação aos aliados americanos e ingleses, influência e espaço. É uma política complexa que preserva a independência e a soberania francesa. 

E o papel dos comunistas na resistência francesa? Era possível ser comunista e patriota naqueles anos?

Eu creio que fosse possível, mas difícil. É preciso levar em consideração o momento que atravessamos como referência essencial. Por exemplo, até 1941, os comunistas franceses, mesmos se não são favoráveis aos alemães, são, antes de tudo, solidários à política de Stalin (que havia firmado um pacto de não agressão com a Alemanha nazistas). Havia sabotagens feitas por operários comunistas franceses em aviões fabricados em 1939 e 1940 pela indústria francesa. O segundo momento é o em que os comunistas oscilam, mas, sem resistir, às alianças de Stalin e da União Soviética.

O senhor escreveu que a o esquecimento é a ardil do diabo. Por que hoje é tão importante se lembrar da 2ª Guerra. O que nós aprendemos com os homens daquela época?

Eu penso que é muito importante manter viva a memória da 2ª Guerra Mundial porque, primeiramente, a França preservou, apesar de tudo, a sua originalidade. Ele continuou, apesar da perda de influência - graças ao papel da França Livre -, defendendo sua soberania e independência. Segundo porque os franceses foram bons combatentes, contrariamente ao que se diz, eles o foram mesmo em 1939 e em 1940 até o armistício e depois com a mobilização de partes importantes do povo francês. Isso teve um papel em relação ao lugar que a França pôde ocupar entre as nações. Sabemos, ela foi batida em 1940, ela perdeu suas colônias, mas a França está aqui e tem um papel importante international, o que significa que a política gaullista teve sucesso em sua evolução.

Confira trecho de '1941'

"O dia 5 de dezembro de 1941 é um dia negro para o Exército alemão. A Wehrmacht está bloqueada ao longo da linha de frente de 320 km que deveria pegar Moscou como um alicate. Pior, a Wehrmacht recusa. “As tropas atingiram o limite da resistência”, telefona Von Block a Helder. “É a primeira vez”, escreveu Guderian, “que sou obrigado a dar ordem de recuar a meus Panzers, e nada é mais difícil para mim. O ataque a Moscou falhou, a resistência e os sacrifício de nossos bravos soldados foram inúteis. Sofremos uma séria derrota.”

1940 - DO ABISMO À ESPERANÇA

Autor: Max Gallo

Tradução: André Telles

Editora: Objetiva (328 págs., R$ 44,90)

1941 - O MUNDO EM CHAMAS

Autor: Max Gallo

Tradução:Vera Lúcia dos Reis

Editora: Objetiva (288 págs., R$ 34,90)

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