Julia Rettmann/DIVULGAÇÃO
Julia Rettmann/DIVULGAÇÃO

Em ‘Judas’, Amós Oz mostra como atraiçoar pode não ser ruim

Escritor israelense debate os distintos significados que cercam o nome do traidor de Jesus

Entrevista com

Amós Oz

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

06 Dezembro 2014 | 03h00

Na cultura cristã, Judas Iscariotes é o símbolo da traição, pois entregou Jesus Cristo aos romanos por 30 dinheiros. O mais importante escritor israelense da atualidade, Amós Oz, no entanto, homem habituado a ser tachado de traidor por sua posição favorável à divisão de seu país em um Estado judeu e outro árabe, observa a situação de outra forma. Para ele, Judas foi o mais fervoroso apoiador de Jesus entre os discípulos, aquele que acreditava fielmente na missão do Messias em ressuscitar e instaurar um novo tempo de paz.

“Um traidor é aquele que, por vezes, se atreve a mudar uma situação”, defende Oz, que trata do assunto de uma forma literariamente cativante em Judas, recentemente lançado pela Companhia das Letras. Ao contrário do que sugere o título, o livro não trata da vida do apóstolo, mas utiliza seu ato para apontar o quão dúbio é o conceito de traição.

Judas tem três personagens como principais alicerces – Shmuel Asch é um jovem estudante israelense, atrapalhado e barbudo como seus ídolos, Fidel Castro e Che Guevara. Às voltas com uma tese sobre como Jesus Cristo foi visto pelos judeus ao longo dos séculos, ele vê sua rotina sofrer um abalo ao ser abandonado pela namorada e pelos pais, que deixam de sustentá-lo por enfrentarem sérias dificuldades financeiras.

Resta a Shmuel aceitar a proposta de cuidar de um idoso, Guershom Wald – na verdade, trata-se de um pensador que busca interlocutores para suas longas conversas. Ao se mudar para a casa de Wald, Shmuel, além de se familiarizar com a argumentação do proprietário sobre como todas as crenças e ideologias redentoras são criminosas, conhece outra moradora, Atalia, sensual nora de Wald. Cria-se, portanto, entre os três um elo emotivo e intelectual

A ação se passa em Jerusalém, entre os anos 1959 e 1960, ou seja, quando a cidade ainda estava dividida e uma área era controlada pela Jordânia. Eterno postulante a ganhar o Nobel de literatura (prêmio ao qual se torna cada vez mais merecedor à medida que constrói sua carreira), Amós Oz conversou por telefone com o Estado, desde Tel-Aviv, e, assunto inevitável, falou sobre a atual situação de Israel e sua irredutível posição de não se negociar com o Hamas.

Por que esse interesse pelo tema da traição?

Sempre me interessei pela figura do traidor – não aquele que recebe dinheiro em troca de uma informação, mas pelo homem que, embora visto como traidor pelos que o cercam, é justamente mais leal e mais devotado à alguma causa comum que todos os que o acusam. Creio deixar isso claro em uma passagem do livro em que Shmuel afirma que, às vezes, um traidor é aquele que se transforma aos olhos dos que odeiam e não entendem a mudança. E, também às vezes, a alcunha de traidor pode ser usada como símbolo de honra.

Como assim?

Basta dar uma olhada nos grandes líderes do século 20, homens hoje vistos como heróis, mas que, em um determinado momento, foram apontados como traidores por seus seguidores. Falo de Abraham Lincoln, quando libertou os escravos negros; Winston Churchill, quando iniciou o esfacelamento do Império Britânico; Charles de Gaulle, quando apoiou a independência da Argélia; David Ben-Gurion, quando concordou com o Plano de Partição de território para constituir um Estado judeu e outro árabe; Menachem Begin, quando determinou a entrega da Península do Sinai ao Egito; Anwar Sadat, quando veio a Jerusalém; Yitzhak Rabin, quando assinou os Acordos de Paz de Oslo; Ariel Sharon, quando se retirou de Gaza; Mikhail Gorbachev, quando iniciou o processo de demolição do Império Soviético. Em todos esses casos, foram tachados de traidores, o que, nessa situação, podemos dizer que é um título de respeito.

E quanto a Judas Iscariotes?

Confesso que o enigma de Judas me fascina e me acompanha há muitos anos, desde a juventude, a ponto de iniciar uma pesquisa sobre aqueles fatos. Descobri, por exemplo, que as 30 moedas de prata recebidas por Judas pela traição de Jesus não representavam uma fortuna – na verdade, era o valor que se pagava por um escravo médio, ou seja, insuficiente para deixar alguém com uma vida confortável. Outro fato para mim incompreensível: por que Judas precisou identificar Jesus com um beijo se Ele era uma figura conhecida em Jerusalém? Também não entendo o motivo de alguém, depois de vender seu mestre, se arrepender e se enforcar em uma árvore. São histórias que não se encaixam e que me incomodam há anos.

É por isso que, em um determinado trecho do livro, Guershom Wald afirma que o problema dos judeus é com o cristianismo e não com o islamismo?

Na verdade, esse trecho diz respeito àquele instante da narrativa. Em se tratando do mundo atual, acredito que, mais que dos judeus, o grande problema do mundo é o fundamentalismo. É a maldição deste século 21 e falo de todos os tipos – o fundamentalismo muçulmano aparece em primeiro lugar, mas não posso ignorar o judaico-israelense ou o fundamentalismo cristão que grassa pelos Estados Unidos. Mesmo os grupos que defendem causas humanitárias, como os ambientalistas, se tornam problemáticos quando viram fundamentalistas. 

O senhor afirmou, em outras entrevistas, que esse livro é resultado de longos anos de maturação. Por quê?

Por conta dessa questão do traidor que, como disse antes, me persegue desde a juventude, época em que também fui chamado de traidor. Nos anos 1940, meu bairro era formado por pessoas que apoiavam diversos movimentos, como os pró Irgun (nacionalista extremista) e os favoráveis ao Lehi (que, na época, utilizou meios violentos na esperança de expulsar os ocupantes britânicos da Palestina). Eu me atrevi a fazer amizade com um sargento britânico e, por conta disso, fui acusado de trair. Aliado a isso, há outro detalhe, dessa vez familiar. Judas é, para nós, Yehuda, que é um nome judeu comum e com conotações positivas. Meu pai se chamava Yehuda Aryeh e meu filho é Daniel Yehuda Aryeh. Na cultura cristã, como já comentamos, Judas é sinônimo de traição. Esse dualismo de significados me acompanha há muito tempo, antes até de saber que, um dia, escreveria esse livro.

E o senhor já trabalha em um novo projeto?

Sim, com certeza, mas não posso falar nada ainda. Isso funciona como uma gestação, em que a criação só diz respeito, naquele momento, à mulher.

JUDAS

Autor: Amós Oz

Tradução: Paulo Geiger

Editora: Companhia das Letras (368 págs., R$ 44,90)

Leia um trecho de Judas:

“Eis aí uma história dos dias de inverno no final de 1959 e início de 1960. Nesta história há erro e desejo, há amor frustrado e certa questão religiosa que ficou aqui sem resposta. Em alguns prédios ainda se reconhecem os sinais da guerra que há dez anos dividiu a cidade. Ao fundo dá para ouvir o toque distante de um acordeão ou os sons nostálgicos de uma gaita ao entardecer, por trás de uma persiana cerrada.

Em muitas residências de Jerusalém é possível ver na parede da sala de estar o redemoinho de estrelas de Van Gogh ou a ardência de seus ciprestes, e nos pequenos quartos ainda estão estendidas esteiras de palha, e um exemplar de Iemei Tziklag ou de Doutor Jivago virado e aberto na beirada de um colchão de espuma coberto com um pedaço de tecido de motivo oriental e um monte de almofadas bordadas. Durante a noite inteira um aquecedor a querosene arde com uma chama azul. De dentro de um cartucho de obus no canto da sala cresce uma espécie de ramalhete estilizado feito de ramos de espinheiro.

No início de dezembro Shmuel Asch interrompeu seus estudos na universidade e pretendia ir embora de Jerusalém, por causa de um amor frustrado, devido a uma pesquisa que empacou e principalmente porque a situação econômica de seu pai despencara e Shmuel se via obrigado a procurar algum trabalho”.

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