Gabriela Herman/The New York Times
Gabriela Herman/The New York Times

Em 'Intimations', Zadie Smith aplica seu gênio a momentos turbulentos

Em sua (pequena) nova coleção de ensaios, a escritora fala de modo claro e contundente sobre a morte de George Floyd e o legado da escravidão e sobre os pecados sistêmicos revelados pela covid-19

John Williams, NYT

24 de julho de 2020 | 10h00

Crianças prodígio, mesmo as que merecidamente continuam presentes por um longo tempo, não parecem crescer normalmente. A presença de Zadie Smith sempre acarretará uma lembrança importante da jovem de 24 anos que publicou o livro White Teeth e foi aclamada internacionalmente. Mas como está sujeita ao contínuo espaço-tempo, Smith tem hoje 40 anos de idade, com o temperamento e a perspectiva de uma pessoa que poderia ter (e neste caso é um cumprimento) 105 anos.

Não há um tempo de crescimento exato para se adquirir sabedoria. Por definição; se houvesse seria altamente valorizado. Mas esta é uma era particularmente árida para isto. Estamos na Era da Certeza, pelo menos é o que muita gente fala. E talvez seja bom, talvez alguns momentos na vida sejam propícios para combater o fogo ideológico com fogo ideológico. Mas “polêmico” é um termo muito generoso para o clima cultural dominante.

Tudo isso faz com que Smith pareça especialmente fora do tempo. No breve prefácio do seu primeiro livro de ensaios, Changing My Mind, ela escreveu: “a inconsistência ideológica, para mim, é praticamente um ato de fé”. Essa fé não vacilou nos 10 anos desde que esse livro foi publicado. Intimations, sua pequena nova coleção (menos de 100 páginas) de ensaios extremamente oportuno (vários escritos nestes últimos meses cruciais), é uma mostra da sensatez que é sua marca registrada.

O que não significa que ela evita tomar posições morais. Em Intimations, ela fala de modo claro e contundente sobre a morte de George Floyd e o legado da escravidão e os pecados sistêmicos revelados pela covid-19. “O mapa do vírus dos bairros de Nova York fica vermelho ao longo exatamente das mesmas linhas como se a mancha vermelha contasse não o número de infecções ou mortes, mas as faixas de renda e a classificação das escolas de ensino médio”, ela escreve. “A morte chega para todos, mas nos EUA há muito tempo tem sido considerado razoável dar mais chances de ela retardar no caso dos que têm condições de dar um lance maior”.

No seu momento mais fulminante sobre a questão racial, ela fala sobre como muitas pessoas, “mesmo nos Estados mais à esquerda no país, estão muito felizes em ‘apagar’ sua rede social por um dia, ler livros sobre negros e “se informar sobre assuntos ligados aos negros - ao passo que essa educação não ocorre quando diz respeito às reais crianças negras frequentarem suas escolas reais”.

Mas apesar dessas pancadas, ela continua não combativa. Seu estado de espírito parece nascer não de um medo do confronto, mas de uma autêntica perplexidade diante do caráter da experiência e das pessoas, incluindo ela mesma. Smith afirma que a arte da escrita, apesar de ser frequentemente promovida como “criativa”, tem a ver realmente com controle. “A área na universidade onde ensino deveria ser chamada, adequadamente, Departamento de Controle de Experiências”.

Como escritora e leitora, o que ela encontra - numa frase perfeitamente adequada à sua sensibilidade - é “um amplo repertório de possíveis atitudes”. Mas no mundo, viver escapa ao controle; ele é “desconcertante, avassalador, consciente, subconsciente e persistente”.

O dom de romancista da autora dá vida aos seus ensaios. Escrevendo sobre o salão de beleza do bairro onde vai regularmente, ela faz o retrato do seu massagista, Ben, que costuma provoca-la porque ela está sempre lendo durante as sessões e lhe pergunta “de onde vem” o seu cabelo? (“Jamaica e Inglaterra - via África”, ela diz a ele. E Ben responde “Oh! Que mistura interessante”).

No final do ensaio, Smith observa Ben de longe, e o seu otimismo muda “para um retrato austero de cálculo e inquietação”, preocupada, diz ela, com o movimento constante e pesado que é necessário para o salão pagar o aluguel.

A inquietação penetra nessas poucas páginas. Esta é uma obra de dimensões menores sobre um período de grande importância (os royalties do livro irão para dois órgãos beneficentes - Equal Justice Initiative a The Covid-19 Emergency Relief Fund for New York.

Smith deixou Nova York no início da pandemia e se sente culpada por isto. Ela lamenta, quando pensa no apocalipse ou algo aproximado. “Um livro como The Road é incompreensível para mim como a mitologia nórdica na língua original”, ela escreve. “O suicídio estenderia sua mão silenciosa para mim no primeiro dia, na primeira hora”.

Num ensaio chamado Suffering Like Mel Gibson (título baseado num meme popular) ela escreve provocativamente sobre o Cristo na Cruz, olhando para os crucificados ao seu lado e se perguntando se “a sua agonia, quando tudo foi dito e feito, seria mais verdadeira do que a dos ladrões e mendigos à sua esquerda e direita cujos sofrimentos existiam bem antes da presente crucificação e não tinham nenhuma esperança (ao contrário de Cristo) de uma situação melhor depois dela”. 

Esta ideia vem de uma passagem em que ela aborda a palavra deste século até o momento, “privilégio”, o que ela faz com seu usual estilo polifacetado. E observa suas próprias vantagens, analisa a tenacidade da desigualdade e delineia as limitações explanatórias (e vividas) desse privilégio, incluindo sua incapacidade de proteger alguém contra o sofrimento, as vezes ao ponto do suicídio. No universo de Zadie Smith - que significa, na minha opinião, aquele no qual todos vivemos - a complexidade reina.

Ela simpatiza com as gerações depois da dela, nascidas em um século atribulado e hoje atravessam as atuais crises preocupadas com um futuro profundamente tênue. Em uma das melhores frases em Intimations, ela escreve: “A infinita promessa de juventude americana - uma promessa articulada intrincadamente pelos filmes e pela propaganda e os prospectos das universidades, - tem sido uma mentira vazia há tanto tempo que observo meus alunos fazendo piada a respeito dela com um humor negro mais apropriado aos velhos, aos veteranos de guerras.  

Deve ser muito interessante ouvir Smith conversar com seus alunos, ver onde suas ideias coincidem e divergem. No final do livro ela aborda a identidade como “uma área de interesse”. Em outros trechos defende a solidariedade entre uma “classe de pessoas exploradas economicamente, seja qual for sua raça”.

Interessada no que chamou certa vez “coalizão pela diferença”, ela emite algumas opiniões que define como comuns, mas sabe que hoje são intensamente debatidas. Ela resiste, por exemplo, à ideia de “crime de ódio” como uma distinção desejável, qualificando-a como “dar muita importância ao que me surpreende como a direção errada”, emprestando um poder não merecido à intolerância que inspira esse termo.

“O ódio de um grupo enquanto grupo é, afinal, o mais degradado e irracional dos ódios, o mais baixo, o mais banal”, ela escreve. “Não deveria ter uma aura especial, sendo levado a uma categoria epistemológica separada. Pois isto é exatamente o que o assassino acha”.

Tradução de Terezinha Martino

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