Xavier Gonzalez
Xavier Gonzalez

Em 'Hippie', Paulo Coelho revive histórias de amor e de tortura física

Escritor lança seu romance mais autobiográfico

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2018 | 06h00

Aberto a comentar sobre as diferentes fases de sua vida, o escritor Paulo Coelho mantinha-se reservado apenas sobre determinados assuntos, como os três momentos em que foi preso e torturado, durante a ditadura militar, e a viagem reveladora que fez em 1971, quando lhe aconteceu uma poderosa autodescoberta. Os assuntos permaneceriam intocados se ele não resolvesse enfrentar esses fantasmas incrustados na alma e relatar os assuntos com detalhes no livro Hippie, o vigésimo de sua carreira e certamente o que mais transborda amor.

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“Eu já vinha pensando nesse livro no ano passado, mas não estava decidido ainda a escrevê-lo”, conta ele ao Estado, em conversa por telefone desde Genebra, na Suíça, onde vive há oito anos com artista plástica Christina Oiticica. “Mas, ao acompanhar horrorizado esse fundamentalismo que fomenta a intolerância e a falta de diálogo dos dias atuais, eu me lembrei da minha época de hippie, em que as pessoas aceitavam todas as crenças e as escolhas do outro. Senti necessidade de tocar nesse assunto.”

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De fato, Hippie é o mais autobiográfico dos livros de Paulo Coelho, escritor que se tornou sinônimo de sucesso graças a números astronômicos - já vendeu cerca de 225 milhões de exemplares em todo o mundo e em 81 línguas, tendo ao menos um livro seu comercializado em 170 países. Suas palavras, portanto, têm um raro poder e influenciam centenas de leitores. “Mas não mais na internet, que era um ótimo espaço de convivência e hoje se transformou em algo péssimo. Houve um momento em que as tribos eram amigas, diferente do que acontece atualmente, em que o anonimato permite que as pessoas firam as outras”, comenta ele, outrora um dos pioneiros na utilização das novidades da rede mundial de informação.

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Movido por essa insatisfação, Coelho escreveu o livro a toque de caixa, em poucas semanas. Apesar do cunho biográfico, decidiu criar uma prosa em terceira pessoa, mas não deixou dúvidas sobre o caráter confessional ao nomear de Paulo seu personagem principal. É justamente esse jovem de cabelos longos e com ambição de ser autor que, no início dos anos 1970, viaja pelo mundo em busca da liberdade e do mais profundo significado da existência. “Inicialmente, pensei em uma trama com um tom mais vago, mas, bastou escrever os três primeiros parágrafos do livro, que percebi a necessidade de passar a minha reflexão sobre a época.”

Coelho relembrou com emoção assuntos definitivos, como sua viagem a Machu Picchu e a ida à Europa, especialmente à Holanda onde iniciou a agora famosa jornada no Magic Bus, ônibus que conduzia adeptos da vida em liberdade plena de Amsterdã a Katmandu, no Nepal, percurso de aproximadamente 14 mil quilômetros.

Antes, porém, ainda no Brasil, o personagem Paulo e sua namorada de então (que não recebe nenhum nome) passam pela terrível experiência de prisão por agentes policiais. Na trama, eles estão hospedados no hotel de uma pequena cidade brasileira, depois de um périplo pela Bolívia, Chile e Peru. Enquanto se preparavam para sair para um restaurante, eles são abordados por dois homens que, depois de separá-los, os colocam cada um em um carro, encapuzados e deitados no chão do veículo.

Ao chegar em um lugar, Paulo passou a receber uma sequência de socos e pontapés, durante pelo menos 15 minutos. Em seguida, começou um interrogatório - os policiais queriam saber detalhes do assalto que Paulo e a namorada, agora identificados como terroristas, fizeram em um banco da Bolívia.

“Nós achamos o mapa em seu quarto de hotel. Você e a loura foram vistos no lugar do assalto”, disse o homem que Paulo identifica como o “mau policial”. Imediatamente, o personagem percebe o mal entendido: dias antes, quando ainda estavam no Chile, o casal pediu para que alguns locais desenhassem o caminho de um túnel que atravessa a cordilheira dos Andes. Tal mapa foi confundido como plano de assalto.

“Quando escrevi esses trechos, eu não percebi mas exibia um profundo mal estar”, conta Paulo Coelho. “A ponto de minha mulher me perguntar várias vezes se eu estava bem, algo que não costuma acontecer.”

Sua agonia deve ter atingido um alto grau quando escreveu uma das passagens mais impressionantes de Hippie, quando os torturadores preparam um aparelho chamado “telefone” - na verdade, uma máquina de produzir choques. Ao perceber a terrível situação que se avizinhava, o personagem Paulo “deixou a submissão de lado e levantou a voz: ‘Vocês acham que eu tenho medo de choque? Vocês acham que tenho medo de dor? Pois não se preocupem - eu vou torturar a mim mesmo’”.

Em seguida, ele começou a se unhar, arrancando sangue e pele, ao mesmo tempo em que gritava, vociferando que podiam matá-lo pois acreditava em reencarnação e viria buscá-los. “Todos pareciam assustados com o que ele estava fazendo, embora ninguém tenha dito nada”, escreve.

“Relembrar esse momento foi como sangrar novamente”, conta Coelho, ainda sensibilizado. “Foi preciso para fechar definitivamente a ferida. Senti um alívio ao terminar essa passagem do livro.”

A cena, forte, contrasta com o tom que predomina no restante da obra, uma acalentada história de amor entre pessoas que passam por profundas transformações, abraçando novos valores para suas vidas. Liberado pela polícia, o casal se separa e Paulo segue para Londres, onde o mundo se renova.

Dali, rumou para Amsterdã, onde aparece outro importante personagem: Karla, jovem holandesa que busca companhia para viajar no Magic Bus, até o Nepal. Paulo assume a função mas, em Istambul, na Turquia, ele interrompe a viagem pois lá passa por uma experiência sensorial muito forte, que indicará um novo rumo para sua vida. “Só um hippie poderia contar essa história, na qual a vida vai além”, observa Coelho, que assinou recentemente contrato para uma série na TV americana.

No mês passado, uma associação formada pela FremantleMedia North America, a Random House Studio e a Dancing Ledge Productions firmou um acordo de US$ 1,5 milhão para uma série de 12 episódios e que contará com personagens dos romances Brida, O Demônio e a Srta. Prym e A Bruxa de Portobello. “Não será uma versão das obras, o que me agradou. E poderei vetar uma segunda temporada.”

TRECHO

"Colocou o capuz, escutou a porta sendo aberta e alguém jogando coisas no chão. Vista-se. Cuidado para não mover o capuz.’ Era a voz do ‘bom policial’, ou do ‘bom torturador’, como preferia chamá-lo em seus pensamentos. Continuou aqui enquanto Paulo se vestia e calçava os sapatos (...) Caminhamos uns três minutos." 

HIPPIE

Autor: Paulo Coelho

Editora: Paralela (288 págs.,R$ 39,90) 

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