Fábio Motta|Estadão
Fábio Motta|Estadão

Em 'Gigantes', Pedro Neschling retrata uma geração que descobre seu lugar no mundo

Ator, diretor, roteirista e dramaturgo lança seu primeiro trabalho ficcional

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2015 | 17h00

Aos 33 anos, Pedro Neschling já se orgulha de uma carreira consagrada como ator, diretor, roteirista e dramaturgo. Mas, no fundo, ainda havia uma lacuna. “São muitas atividades que, por serem intensas, retardaram minha estreia na arte que realmente desejava exercer, a literatura”, comenta ele, que agora cumpre mais uma etapa com o lançamento de Gigantes (Companhia das Letras), seu primeiro trabalho ficcional, curiosamente assinado pelo seu nome mais completo, Pedro Henrique Neschling.

O tempo de maturação, na verdade, foi útil – no romance, que tem como subtítulo Cinco Amigos. Uma História, Pedro Neschling oferece um carinhoso, mas preciso retrato das desilusões amorosas, dos conflitos profissionais e dos primeiros desencantos verdadeiros que marcam a vida das pessoas, especialmente quando atingem a idade dos 30 anos.

Na trama do livro, cinco jovens de características bem distintas entre si acalentam o sonho de um futuro brilhante, recheado de boas oportunidades. Mas eles, que na festa de formatura do ensino médio sonhavam em se tornar “gigantes” e vitoriosos, percebem, aos poucos, que o futuro não se tornou tão grandioso assim.

O momento é de efervescência criativa pois, além do livro, ele escreveu a temporada da série E Aí, Comeu?, com Bruno Mazzeo, e está no processo de um longa para Augusto Casé, que será rodado em 2016. “Estou vivendo um momento em que escrever tem sido minha prioridade.”

Pedro Neschling aprendeu com o período de exercícios constantes – a prática o ensinou que a literatura exige fôlego, dedicação e muita experimentação. “Meu principal objetivo é encontrar a voz narrativa. Esse é o grande desafio”, diz ele, que busca desvendar o método também na leitura de outros autores. Como Nick Hornby, capaz de “apresentar uma crítica cruel do universo que retrata por meio de um sarcasmo sutil que pontua seu texto”.

Também de David Nicholls, que escreveu best-sellers como Um Dia, no qual brinca com a realidade e com o passar do tempo e seus efeitos, não hesitando em chamar o leitor para presenciar cada momento e pensar na própria existência. “Aos poucos, é possível notar a existência de mais de uma camada em seu texto, que se torna mais e mais profundo”, observa.

É o que se descobre também com a leitura de Gigantes – ao longo de uma década, os cinco amigos passam por transformações que, mesmo que aparentemente inesperadas, são aceitas com um certo conformismo, pois o ritmo da vida, muitas vezes, é implacável.

Desilusões. À medida que os anos passam, os jovens deparam com as complexidades trazidas pelo chamado da vida adulta. Desilusões amorosas, questões familiares, conflitos na carreira, dúvidas e mais dúvidas. “Quis escrever sobre algo que fosse fácil de ler, que não deixasse dúvidas na cabeça do leitor”, comenta.

Apesar de ainda ser um estreante no ofício literário, Pedro conta que o processo não foi tortuoso. “Na primeira versão, a escrita fluiu, as ideias se conectavam, o tema da amizade se impôs”, relata ele que, terminada a tarefa, aguardou um tempo, deixando o manuscrito descansar durante algumas semanas até retomar a história. “Rabisquei algumas coisas, troquei ideias com leitores de confiança e preparei o livro para ser publicado.”

Pedro pode se orgulhar de receber conselhos preciosos de verdadeiros mestres. Como Rubem Fonseca, que lhe indicou especial atenção ao observar detalhes. “Eles podem parecer pequenos, até desnecessários, mas Rubem comentou que é justamente a observação das minúcias é que deixa uma narrativa mais forte.”

Embora ainda saboreie o prazer do lançamento do primeiro livro, Pedro Neschling conta que já coleciona ideias para escrever o próximo. O síndrome da segunda obra, que amedronta e até inibe muitos escritores, por ora não o atormenta. “Claro que a responsabilidade é maior, mas não pode ser levada a sério a ponto de impedir o processo criativo”, acredita.

TRECHO

"Eram duas da tarde do dia seguinte à festa de formatura, e Duda estava terminando a sobremesa na sala de jantar da grande casa, onde morava com os pais e o irmão mais novo, quando o telefone tocou. Levantou-se para atender, mas o moleque foi mais ágil..."

GIGANTES

Autor: Pedro Henrique Neschling

Editora: Companhia das Letras (232 págs.,R$ 34,90 versão impressa, R$ 23,90 e-book)

 

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