Divulgação
Divulgação

Em ‘Faísca’, Skármeta retrata os sonhos do garoto que vive em meio às dificuldades

Escritor Chileno também é autor do livro 'Um Filho de Cinema', que inspirou Selton Mello a dirigir 'O Filme da Minha Vida'

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2015 | 03h00

O escritor chileno Antonio Skármeta é especialista em criar tipos fascinantes, como Faísca, um menino irrequieto como uma labareda e tão brilhante como uma brasa, qualidades que lhe conferiram tal apelido. Faísca é uma nova incursão de Skármeta na literatura juvenil e, mesmo em um território cujo código literário dificilmente foge de um padrão, ele surpreende – filho de uma família humilde (o pai, músico, vive desempregado enquanto a mãe trabalha como professora primária), o garoto amadureceu rapidamente, obrigado a fazer pequenos serviços para conseguir alguns trocados.

Não à toa o pai de Faísca é um músico – Antonio Skármeta já dividiu parcerias com Toquinho e o violonista gaúcho Killy Freitas, que criaram belas melodias para suas letras. Aliás, em Faísca, o pai do garoto apresenta uma canção chamada Obra de Arte, que já foi traduzida e musicada por Toquinho e figura em seu álbum Quem Viver Verá.

A relação com a cultura brasileira não termina aí. Skármeta é autor do livro Um Filho de Cinema, que inspirou Selton Mello a dirigir O Filme da Minha Vida, seu terceiro longa, em fase de montagem. “Ele vem trabalhando intensamente na edição e me disse estar muito feliz”, conta Skármeta ao Estado. Aliás, no longa, o autor chileno coleciona mais uma ponta em sua carreira cinematográfica (já são cinco pequenas participações), agora no papel do dono de um prostíbulo.

Com um livro de contos recém-lançado no Chile, Libertad de Movimiento, Skármeta fala sobre Faísca, menino que, de tão pobre e feliz, vê o mundo como algo rico e triste.

Como foi a experiência de escrever para um público mais jovem? Há um grande cuidado na escolha das palavras?

Quando escrevo um livro para jovens, só penso em contar uma boa história, clara e transparente, mas não me limito a pensar em um público infantil e juvenil. Segundo minha experiência, meus contos “para jovens e crianças” são lidos pelos adultos. Se o texto chega a todos os leitores, é uma prova da sua eficácia e verdade, porque, ao pensar em um público mais jovem, de modo algum vou infantilizar ou embelezar a linguagem.

Faísca é um menino crescido para sua idade – o que normalmente ocorre com garotos que têm de enfrentar a vida dura logo cedo. Você se inspirou em alguém para criar Faísca?

Amigo, neste mundo contemporâneo, todos os meninos são crescidos para sua idade. Não basta falar com eles sobre patinhos, lobinhos, passarinhos, fadinhas. A rua é violenta e a vida é dura; nessas circunstâncias, os meninos têm de mostrar que são dotados de intuição, o que lhes permite se movimentar em um mundo incerto.

O pai de Faísca é um artista desempregado. A arte atualmente é uma atividade que vem sendo deixada em segundo plano?

Ao que parece, as músicas do pai de Faísca não são tocadas na rádio porque ele está em alguma lista negra da ditadura. Mas não tem importância. O que importa é que ele compõe uma música em que fala de girassóis amarelos (Van Gogh), Mozart (Pequena Serenata Noturna) e Cervantes (Don Quixote e Sancho). Quando as meninas e meninos lerem este conto, irão se perguntar muitas vezes quem são esses senhores. E é possível que aprendam que, neste mundo, existe algo mais do que hip-hop e grafites.

Aliás, o pai de Faísca entraria no mesmo grupo de sonhadores como Van Gogh e Cervantes, citados no livro?

Sim, senhor. Junto com o autor de Faísca, os professores e professoras, leitores e leitoras, e até você.

O final surpreende pois é aberto – não temos ali o famoso “e viveram felizes para sempre”. Aliás, nem sabemos se Faísca consegue mais uma guimba de cigarro para o pai. Por que se decidiu por um final aberto?

Enquanto não nos fechamos dentro de muros, continuamos vivos. Um instante de graça em um conto ou em nossas vidas fugazes nos anima a sorrir, amar, trabalhar, embora saibamos que não viveremos felizes para sempre.

 

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    ANTONIO SKÁRMETALiteratura

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.