Em duas obras, Alice Munro busca compreender a família e a si mesma

Com 'Fugitiva' e 'A Visita de Castle Rock', a canadense apresenta uma vista ao passado e ao universo de mulher; leia trechos

André de Leones, Especial para O Estado de S. Paulo

12 de julho de 2014 | 02h00

Dois novos livros da contista canadense Alice Munro, premiada com o Nobel em 2013, chegaram às livrarias brasileiras. Fugitiva é, na verdade, um relançamento, com nova tradução, de uma irrepreensível coletânea de contos. A Vista de Castle Rock é, conforme definido pela autora no prefácio, um conjunto de histórias surgidas de pesquisa feita sobre um ramo da família e, em sua segunda parte, inspiradas em acontecimentos de sua própria vida.

Comecemos por A Vista de Castle Rock. Ali, tanto no mergulho na história familiar quanto na reimaginação de sua vivência, Munro externa quanto “o passado está cheio de contradições e complicações, talvez iguais às do presente, embora habitualmente não pensemos assim”.

As histórias da primeira parte, intitulada Sem Proveito (referência ao Vale do Ettrick, na Escócia, onde seus ancestrais foram pastores), trazem não só os antecedentes familiares, mas também a história da passagem ao Novo Mundo, no começo do século 19, e do assentar-se nele. A narrativa título descreve a viagem de navio, contrastando o velho James (tataravô de Munro), afeito aos causos folclóricos da terra natal e da família (logo, afeito ao passado), compartilhados com quem quer que se disponha a ouvir, e um de seus filhos, Walter, que prefere registrar solitariamente e por escrito a viagem (ou seja, o presente, com vistas ao futuro).

Illinois traz outro deslocamento, agora já no interior da América. O trisavô de Munro, William, “em 1839 ou 1840”, morre de cólera no mesmo dia em que sua esposa, Mary, dá à luz uma menina. Seu cunhado Andrew vai, então, buscá-la em Illinois, e tem início a viagem para o Canadá: “Aqui era tudo chão, era tudo o que você podia achar e fazer e entender sobre o mundo real sob seus pés”. A mudança não se dá sem percalços, e é curioso como, outra vez, eles parecem se referir àquele contraste entre passado e futuro, ir e ficar, mudar e não mudar.

Munro segue discorrendo sobre esses e outros parentes, mais ou menos excêntricos (como o casal de irmãos que passam a viver juntos em As Inexploradas Terras de Morris), pinçando trechos de memórias e outros documentos – a cada geração, alguém da família parece se dispor a registrar o que acontece –, até chegar a seus pais em Trabalhando para Viver. Algumas das melhores páginas do livro estão nessa história, sobretudo quando a autora tenta se aproximar dos pais, vistos com um misto de ternura e estranhamento. Eles criavam raposas e outros animais e comercializavam as peles, até o negócio desandar. Depois, a mãe já doente, o pai ganharia a vida como vigia noturno em uma fundição e também se dedicaria a “escrever reminiscências e a converter algumas delas em histórias”, chegando a escrever um romance sobre os pioneiros.

A segunda parte de A Vista de Castle Rock, Lar, traz aquele esforço reimaginativo, em que memória e ficção se embaralham ao máximo, justo quando Munro se dedica à sua própria vida. Sucede-se, assim, a descoberta da sexualidade e, por decorrência, do outro (em Deitada Sob a Macieira), a vida contrastante dos ricos (em Empregadinha), a angústia pré-casamento ilustrada por um desencontro amoroso vivido pela avó (em O Bilhete), a perspectiva da morte do pai (em Lar) e, por fim, da própria morte (em Para Que Você Quer Saber?).

É claro que esses e outros temas retornam (ou, no caso, já se faziam presentes) nos contos de Fugitiva. Família, memória, sexo, amor, escolhas, desencontros, morte. No conto que dá título ao livro, por exemplo, uma mulher ensaia fugir do marido, envolvendo uma compreensiva vizinha; ao final, temos uma epifania e a sua negação. Ocasião, Daqui a Pouco e Silêncio trazem uma mesma personagem em momentos distintos e mais ou menos excruciantes: o encontro (mediado por um suicídio) com seu futuro companheiro; uma visita aos pais, já com a filha pequena (conto que deveria ser lido em conjunto com Lar, do outro livro); e, por fim, apartada da filha, por decisão desta, e de si mesma. Ofensas adentra o seio de uma mentira familiar e da percepção desta por uma criança, atirada ali com violência. Em Paixão, uma garçonete se envolve com um rapaz rico e é muito bem acolhida em sua família, até o momento em que a gratuidade ou desmotivação de seus atos ganha uma reverberação trágica. 

Fugitiva e A Vista de Castle Rock são, portanto, ao mesmo tempo distintos e próximos. São distintos em seus pontos de partida, a base factual de um deles assumida logo de cara para, depois, ser mais bem subvertida. E eles se aproximam por expressar um mesmo esforço compreensivo, por parte da autora, de si mesma e do mundo que a cerca.

ANDRÉ DE LEONES É AUTOR DO ROMANCE TERRA DE CASAS VAZIAS, ENTRE OUTROS.

A VISTA DE CASTLE ROCK

Autora: Alice Munro

Tradução: Cid Knippel

Editora: Globo/Biblioteca Azul (352 págs., R$ 44,90)

A FUGITIVA

Autora: Alice Munro

Tradução: Pedro Sette-Câmara

Editora: Globo/Biblioteca Azul (352 págs., R$ 44,90)

Trecho da nova edição de A Visita de Castle Rock, de Alice Munro:

"O vale do Ettrick se estende cerca de oitenta quilômetros diretamente ao sul de Edimburgo e a uns quarenta e oito quilômetros ao norte da fronteira inglesa, que corre próximo ao muro que Adriano construiu para afastar os povos selvagens do norte. Durante o reinado dos Antoninos, os romanos avançaram mais e construíram uma linha de fortificação entre o estuário do Clyde e o do Forth, mas ela não durou muito. [...] Mesmo assim, o valor me decepcionou da primeira vez que o vi. Isso tende a acontecer quando montamos esses lugares em nossa imaginação. [...] Fui acometida, suponho, por um sentimento familiar a muitos cuja longa história remonta a um país bem distante do local onde cresceram. Eu era uma norte-americana ingênua, a despeito de meu conhecimento armazenado. Passado e presente aqui embolados compunham uma realidade que era lugar-comum e, no entanto, mais perturbadora do que tudo que eu havia imaginado".

Trecho do conto Fugitiva, do livro homônimo de Alice Munro, na nova edição da Biblioteca Azul:

"Essa era a segunda vez que ela deixava tudo para trás. A primeira tinha sido exatamente como naquela velha canção dos Beatles -- colocar o bilhete na mesa e sair furtivamente de casa às cinco da manhã, encontrar Clark no estacionamento da igreja ali na rua. Ela estava efetivamente cantarolando aquela música enquanto o motor os levava para longe. She's leaving home, bye-bye. Naquele momento ela se lembro de como o sol estava se levantando atrás deles, de como ela olhava para as mãos de Clark no volante, os pelos escuros em seus antebraços desenvoltos, e respirava o cheiro de dentro da caminhonete, um cheiro de óleo e de metal, de ferramentas e de estábulos. O ar frio da manhã de outono soprava pelas juntas enferrujadas da caminhonete. Era o tipo de veículo em que ninguém de sua família jamais andava, que praticamente nunca aparecia nas ruas em que eles viviam".

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