Alex Silva|Estadão
Alex Silva|Estadão

Em 'Depois da Rua Tutoia', Eduardo Reina trata do sequestro de bebês durante o regime militar

Romance fala sobre uma lacuna da história do Brasil

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2016 | 22h16

Na vasta literatura sobre o período da ditadura militar brasileira, o sequestro de bebês é um capítulo que ainda não foi escrito. As comissões da verdade espalhadas pelo País revelaram que crianças foram torturadas, confrontadas com seus pais nus e feridos e até enquadradas, apesar da pouca idade, como elementos subversivos.

Mas pouco se sabe sobre o roubo de filhos de militantes presas, uma prática abominável recorrente nas ditaduras da Argentina e Chile.

O romance Depois da Rua Tutoia, do jornalista Eduardo Reina, constrói com matéria prima jornalística uma história que certamente conta com paralelos reais. A rua que dá nome ao livro é o primeiro deles. Foi lá que o regime instalou a casa de tortura que virou símbolo do terror militar.

O roteiro é linear (parece um filme) e começa com a prisão de um casal de subversivos em uma célula de resistência ao regime no ABC paulista.

O cenário de fato existiu. Foi um projeto de microcosmo socialista que a Ação Popular tentou criar no bairro Jardim Zaira, em Santo André. O personagem e sua rotina também. Trata-se de Herbert José de Souza, o Betinho, que em 1969 adotou o codinome Francisco Carvalho, arrumou emprego de operário em uma fábrica de porcelana e submergiu na região em nome da causa. Sua participação, porém, é curta. Quem logo assume o protagonismo da narrativa é Margô, companheira de “Betinho” na ficção.

Ela chega grávida aos porões da casa na Tutoia e lá enfrenta uma descida ao inferno que é descrita com detalhes garimpados nos arquivos do regime.

A narrativa que segue é leve e sem afetação, como uma boa reportagem. Depois de 237 páginas, uma pergunta fica no ar: o que fizeram com esse capítulo da história do País?

DEPOIS DA RUA TUTOIA

Autor: Eduardo Reina. Edit.: 11Editora (242 págs., R$ 59,90). Lançamento: Casa da Palavra, Pça. do Carmo, 171, Sto. André, 14h

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