Andrea Comas/Reuters
Andrea Comas/Reuters

Em 'Assim Começa o Mal', Javier Marías retrata a Madri dos anos 1980

A arbitrariedade do perdão inspira escritor espanhol

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

03 Outubro 2015 | 03h00

Na Madri pós-ditadura franquista do início dos anos 1980, a resposta ao sufoco se traduziu em uma mistura de drogas, boemia e liberalidade sexual. É nesse ambiente marcado pelos ares da democracia que começa a história do jovem Juan de Vere, um recém-formado que vai trabalhar como secretário pessoal de um famoso cineasta. Ao se envolver com esse meio, ele se transforma em espectador (depois, em personagem) de um ambiente cujas iniciativas são questionáveis.

Esse é o fio da meada de Assim Começa o Mal, romance de Javier Marías, lançado agora pela Companhia das Letras. É um verso de Hamlet, de Shakespeare, que inspira o título e também anuncia a intenção da escrita do autor, um dos mais importantes da moderna literatura espanhola. Do desejo sexual à arbitrariedade do perdão, a obra de Marías apresenta a vida privada de pessoas em um momento de relaxamento. Sobre o livro, ele respondeu por e-mail. 

Assim Começa o Mal não é uma continuação de Os Enamoramentos, mas complementa de maneira individual sua obra. Como qualificaria este livro em seu trabalho?

Não saberia dizer. Não tenho um “plano” para o conjunto da minha obra. Toda vez que termino um romance, sequer sei se haverá algum outro, nem quando. Costumo escrever quando algo me inquieta ou me interessa o bastante, na minha própria vida, para ocupar-me dele de forma romanceada. A esta altura, é normal que haja alguns temas ou assuntos que me importam, e que frequentemente reaparecem nos diferentes romances - espero que não como uma mera repetição, mas como aprofundamentos nessas questões. É evidente que existem pontos em comum entre Assim Começa o Mal e Os Enamoramentos, mas também entre aquele e Coração Tão Branco ou Seu Rosto Amanhã. Em todos eles, aparecem temas como a impossibilidade de saber com certeza o que quer que seja, ou a possível conveniência de não saber algo; ou o engano e a traição e o segredo. Vou escrevendo o que me vem à mente e, se um dia eu me repetir excessivamente, os leitores, cansados, me avisarão. Eles se cansarão dos meus romances e saberei que não devo fazer mais isso.

O perdão é um dos temas principais do livro. Acredita que hoje o ato de perdoar é menos constante? Quero dizer, o perdão parece mais um ato egoísta do que humanitário?

Atualmente, há uma grande confusão a respeito do perdão. Para os que não são religiosos, o perdão tem algum sentido se o ofensor o pede antes e deseja ser perdoado. Não vejo hoje muitos ofensores assim, realmente, sinceramente arrependidos. Às vezes, “exige-se” o perdão para “seguir adiante, para outra coisa”, para “avançar”, sem que os ofensores acreditem que o devem pedir ou solicitar. Cada vez é mais frequente que se “exija” das vítimas (novamente) o esquecimento, “para o bem da sociedade”. O que leva a um aumento da impunidade. Também é certo que a represália contínua, ou a vingança contínua, pode ser algo paralisante para um país. Nunca sei com certeza se o melhor é avançar e esquecer ou manter-se fixo no passado e recordar permanentemente os agravos e os crimes. Creio que é um dilema que nunca conseguirei resolver: eu mesmo encontro frequentes contradições em minha posição a este respeito.

O próprio desejo sexual se converteu, para algumas pessoas, no motocondutor social, principalmente quando se trata da promoção social ou profissional. As pessoas se definem mais por aquilo que não são?

É difícil saber o que uma pessoa é e o que não é, não acha? Em todo caso, sim, indubitavelmente muitas pessoas veem suas relações sentimentais ou sexuais como um “ativo”, como um benefício que lhe é acrescentado. Não só como antigamente, quando alguém com recursos escassos casava com uma herdeira ou com um homem endinheirado. Agora, também existe o fenômeno de pessoas que alcançam a fama e o dinheiro pelo simples fato de terem sido casadas ou amantes de uma celebridade. Ou de alguém bem situado em qualquer campo, talvez profissional, na maioria das vezes. Ter amantes que chamam a atenção tornou-se uma forma de promoção, sem dúvida. É a utilização das pessoas quase sem fingimento nem dissimulação.

Mais uma vez, Shakespeare inspirou o título do livro. Que lições o bardo inglês nos ensina hoje? Acredita que “o pior fica para trás”?

Veja bem, é uma coisa curiosa: meus personagens entendem a citação de Shakespeare como “Assim começa o mal e o pior espreita atrás”. Entretanto, muitos tradutores (em diferentes línguas) e exegetas entendem a frase justamente ao contrário: “Assim começa o mal e o pior espreita por trás”, ou seja, “ainda está por vir”. Shakespeare é ambíguo até em frases que parecem simples, numa primeira instância, como esta. E este é um dos seus ensinamentos: quase tudo é misterioso e obscuro, por muito que hoje se acredite que há grande transparência e que se conhece mais do que nunca. Quase tudo é complexo, ambivalente, indeciso. É uma grande lição em um mundo regido cada vez mais pelas simplificações e pela falta de nuances e de claros-escuros. Ao contrário, seu mundo e sua obra estão repletos de claros-escuros e de penumbras. E, na minha opinião, o mundo de hoje, apesar de todas as aparências, continua sendo assim, em essência. Eu procuro refleti-lo no que escrevo.

Este não é um romance sobre cinema, mas há muitas referências cinematográficas conectadas à realidade dos personagens. Por que os filmes são tão importantes em seu trabalho?

Bom, meu primeiro trabalho, quando tinha 17 anos, foi para meu tio Jesus Franco ou Jess Frank, diretor de cinema que trabalhou com atores como George Sanders, Klaus Kinski, Christopher Lee, Jack Palance e Herbert Lom. Os dois últimos aparecem no romance, e eu os conheci brevemente durante as filmagens do meu tio. Por outro lado, sempre fui um grande apreciador de cinema, um gênero eminentemente narrativo como o romance, e vejo os dois muito unidos. Creio que John Ford, Alfred Hitchcock ou Orson Welles me influenciaram tanto quanto Conrad, Proust ou Faulkner. Meus romances não são muito fáceis de adaptar para o cinema; por outro lado, acredito que neles há cenas que o leitor “visualiza” muito bem. E devo isto ao cinema, seguramente, mais do que à literatura. Mas, é claro que meus romances também estão repletos de reflexões e digressões, e, sem dúvida, devo estas mais a Sterne, Proust ou Henry James, à literatura em geral.

O romance está ambientado na década de 1980, quando Pedro Almodóvar começou sua carreira com filmes de grande conteúdo libertário. O senhor diria que estas películas e seu romance se complementam entre si?

Não. Tenho certa amizade por Almodóvar e aprecio muito alguns dos seus filmes (não todos). Mas sua visão e seu estilo pouco têm a ver com os meus. Meu romance se passa em 1980, mas justamente não quis fazer uma “ambientação” da época, além do que exigia a verossimilhança. Não me interessa “recriar” uma época. Minhas lembranças de 1980 são nítidas, e são parte da minha vida, e, como todo mundo, uma pessoa vê sua própria vida como um ‘continuum’, não percebe que há tantas diferenças entre o vivido aos 25, aos 45 ou aos 60 anos. Para mim, 1980 é parte do “presente’. Almodóvar tratou destes anos justamente quando eram presente absoluto, não podia ter um olhar retrospectivo, como o que tem o narrador do meu romance, Juan de Vere, que escreve sua história quando já é um homem maduro, até o ano 2010 ou por aí. Ele lembra de si mesmo aos 23 anos, e o protagonista é este jovem. Mas o que narra é este mesmo jovem quando já, de modo algum, ainda o é. E isto lhe permite fazer considerações como esta: “Os jovens têm a alma e a consciência atrasadas”. O que um jovem jamais diria, nem seguramente o próprio Almodóvar.

Qual é sua opinião a respeito da monarquia espanhola? Que papel ela deveria ter? A monarquia ainda ajuda para encobrir atitudes políticas corruptas?

Não. A monarquia não tem nada a ver com as atuações corruptas dos políticos. A monarquia espanhola está muito limitada. Dizem que o rei reina, mas não governa, e é isto mesmo. Não sou monarquista, mas devo reconhecer que, sob Juan Carlos I, a Espanha viveu seu mais longo período de liberdades e democracia, o mais longo de toda a sua história. E, sendo o meu país como é (vingativo, invejoso, sectário), ninguém teria o menor respeito por um hipotético presidente da República: ele seria um permanente objeto de ataques. Não que o Rei não seja atacado, mas é importante uma figura fora de qualquer partido, que não está manchada pela luta pelo poder, que não intervém nas decisões injustas e arbitrárias de muitos políticos. Não me parece ruim que haja uma figura - embora mais simbólica do que outra coisa - que não manda nem ordena, nem intervém nos assuntos do país, mas está presente. Creio que esta presença é, em conjunto, mais benéfica do que prejudicial. E não quero nem imaginar como presidente da República algum dos personagens nefastos que poderiam ser eleitos se este cargo fosse submetido a votação.

ASSIM COMEÇA O MAL

Autor: Javier Marías

Tradução: Eduardo Brandão

Editora: Companhia das Letras (512 págs., R$ 49,90 impresso, R$ 34,90 e-book)

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.