Divulgação
Divulgação

Em 'A Rainha da Neve', Michael Cunningham cria personagens em busca da transcendência

Romance descreve a luta pelo chamado conforto espiritual

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2015 | 05h00

Ao atravessar o Central Park em um frio dia de novembro, Barrett Meeks vê sua dor de cotovelo interrompida por uma visão: ao olhar para o céu, ele tem a nítida impressão de ser iluminado por uma luz pálida e translúcida. Embora não acredite em visões, Barrett sente-se tocado pelo fato e sua busca pela transcendência marca A Rainha da Neve, romance de Michael Cunningham agora lançado pela Bertrand Brasil.

Cunningham é um escritor sem medo - há mais de 15 anos, ele fez do clássico Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, a base para um livro inteligente e cheio de detalhes e surpresas no cotidiano aparentemente isolado de três mulheres muito especiais, As Horas. A obra, que o tornou internacionalmente conhecido, além de inspirar um delicado filme dirigido por Stephen Daldry em 2002, era fruto também de uma epifania sofrida por ele, quando, ainda jovem, descobriu a história de Woolf. Agora, Cunningham utiliza o mesmo estilo lúcido e elegante para descrever a transcendência de Barrett e outros três personagens: seu irmão Tyler, a noiva dele, Beth, e a amiga dela, Liz. Pessoas que, sufocadas pelos problemas imponentes de uma metrópole, buscam solução para suas mínimas misérias. Sobre o assunto, Cunningham respondeu por e-mail as seguintes questões.

Como essa história começou a se formar na sua cabeça?

A Rainha da Neve começou com duas ideias para dois romances, e então, subitamente, logo no começo, tornaram-se uma só. Queria escrever a respeito de um personagem viciado em drogas. Não sou viciado, mas alguém de quem sou próximo é, e usa drogas de uma maneira bem parecida com Tyler, como tentativa de se abrir mais para a inspiração, e até para a iluminação. Em geral, ouvimos apenas que as drogas são más, aqueles que as usam são fracos, estão fugindo da realidade, e acabam mortos nos becos, com agulhas espetadas nos braços. Mas e quanto a pessoas como Jean Cocteau? E Carlos Castañeda? Quis contar uma história diferente a respeito de um homem e suas drogas; que não fosse como o mesmo retrato exemplar que ouvimos de novo e de novo. Por outro lado, quis escrever sobre um personagem que não tem crenças religiosas, mas um dia vê algo que não pode ser facilmente explicado, e só pode ser uma manifestação sobrenatural. O que ele faria se ficasse aparente que tal ceticismo é um erro, que há… algo, uma entidade, divina ainda que não o Deus tradicional, observando o que fazemos aqui na Terra? Como isso mudaria a vida dele? E, como disse, um dia percebi que os dois personagens pertenciam ao mesmo livro. Tyler, afinal, busca uma visão e não consegue encontrá-la; Barrett recebe uma visão sem tê-la pedido, nem desejá-la em particular.

No final do livro, Barrett diz: “Sigo esperando por algo, mais que buscando amor e pensando onde ir jantar”. O que essa busca representa para você? Por que isso é algo que quis explorar?

Acho que a maioria dos romances - ao menos dos que me interessam - tem a ver com o desejo humano por algo além daquilo que a vida comum tem a oferecer. Não quero entregar muito da história, mas, para a surpresa de Barrett, a revelação que lhe é oferecida não é a conversão a uma vida religiosa, e sim a abertura para o verdadeiro amor, a um homem que não é a pessoa que ele tinha em mente, nem a pessoa que ele estava “procurando”, por assim dizer. O súbito chamado de Barrett à fé, e sua confusão em relação a como atender a esse chamado, o leva ao amor, ao amor verdadeiro, e não com o homem “ideal” que ele buscou durante toda a vida adulta.

Você sempre escreve a respeito de pessoas que desejam desesperadamente fazer mais, ou sentir mais, ou amar mais. Por que gosta desses tipos, que tentam de alguma maneira transcender o caráter mundano da vida?

Ha! Acho que comentei a respeito disso na segunda resposta. Simplesmente não consigo imaginar como alguém gostaria de escrever (ou ler) um romance a respeito de pessoas que não estão tentando transcender o caráter mundano da vida. Se tenho vontade de ler um livro a respeito de pessoas contentes que vivem alegremente suas vidas comuns? Não tenho. Você tem?

Barrett é gay, o que não chega a ser relevante. Vivemos em uma era de ficção “pós-gay”?

Acho que sim, e isso é uma ótima notícia. Houve um período na literatura contemporânea - provavelmente necessário - em que os romances “gays” foram exatamente isso: eram situados em universos gays, e se concentravam quase exclusivamente em personagens gays. Gosto de pensar que já passamos dessa fase, como autores e leitores. Principalmente porque não acredito que a sexualidade de alguém seja sua qualidade mais importante. É claro que a sexualidade do indivíduo é importante, sem dúvida, mas há questões de caráter que vão muito mais fundo. E, sendo gay, sinto-me assim, simplesmente do ponto de vista pessoal, e naturalmente isso se reflete naquilo que escrevo. Minha sexualidade não é a primeira coisa que alguém deveria saber a meu respeito. E, sendo gay, sei que as diferenças são relativamente modestas. A batalha em andamento pela igualdade de direitos para gays tem seus efeitos, é claro. Mas isso decorre de um sistema político e cultural, não está na alma. Além disso, eu não gostaria de escrever um romance inteiramente a respeito de personagens gays, nem que tenha na homossexualidade seu principal tema. Há muitas pessoas no mundo que por acaso não são gays, e quero escrever sobre elas também.

Quais desafios busca enfrentar? E quais os que evita?

Gosto de pensar que não evito desafios. Se escrever ficção não fosse desafiador, não me interessaria em fazê-lo. Como apontou na primeira pergunta, cada romance toma forma de maneira diferente, e nunca sei, de um livro para o outro, qual será o tema ou a população que vai me interessar a seguir. As coisas simplesmente… acontecem. O único princípio que me orienta é não escrever o mesmo romance duas vezes, com pequenas alterações. Por exemplo, meu próximo livro, que será publicado nos EUA em novembro, é uma coletânea de contos de fadas. E aquele que acabo de começar… bem, digamos apenas que é bastante diferente de todos os meus outros livros.

Gore Vidal costumava dizer que a inveja é o sentimento central na vida americana. E essa inveja é também o combustível da produção literária, no sentido que os autores sempre esperam escrever melhor que os demais. O que acha disso?

Gore Vidal era um homem sábio. Sim, a inveja desempenha um grande papel na vida americana, mas não estou convencido que isso seja exclusividade dos EUA. Não somos todos nós, seres humanos, sujeitos a mais inveja do que gostaríamos de admitir? Dito isso, não acho que concordo com a ideia segundo a qual a inveja alimentaria a produção literária. É claro que ela desempenha um papel, mas há também o desejo de contar uma boa história, compartilhar o que o autor sabe com os leitores, tentar e fazer justiça ao mundo e às pessoas. Inveja? Claro. Ambição? Sem dúvida. Mas não sou tão cínico quando Vidal. Acredito que escrever romances também envolve, no seu centro, uma certa generosidade, um verdadeiro desejo de entregar. Pode até me chamar de sentimental…

A RAINHA DA NEVE

Autor: Michael Cunningham

Tradução: Regina Lyra

Editora: Bertrand Brasil (252 págs., R$ 35)

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.