J. L. Castell
J. L. Castell

Elizabeth Bishop não ligava para política, mas homenagem da Flip é inoportuna, diz pesquisadora

Regina Przybycien, autora de 'Feijão Preto e Diamantes - O Brasil na Obra de Elizabeth Bishop', defende a poeta, mas diz que o momento político está 'bastante exacerbado' para uma homenagem agora

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2019 | 10h14

Um assunto mobilizou o meio literário esta semana e dominou o debate: a escolha da poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979) como homenageada da Flip 2020

Bishop é uma poeta reconhecida no mundo todo, premiada e estudada. Em 1951, ela desembarcou no Brasil para passar algumas semanas, mas viveu aqui, com a arquiteta Lota de Macedo Soares (1910-1967), por cerca de 15 anos. Nesse período, escreveu cartas a amigos com opiniões que embora não fossem desconhecidas de alguns leitores interessados também em sua biografia não foram bem recebidas neste momento em que membros do Governo evocam o AI-5.

Elizabeth Bishop chamou o golpe de 1964 de “revolução rápida e bonita” em carta ao colega Robert Lowell nos anos 1960. Disse ainda: "a suspensão dos direitos, a cassação de boa parte do Congresso etc., isso tinha de ser feito por mais sinistro que pareça". Em outro momento, escreve: “Depois de ser de esquerda a minha vida toda, me vejo tomando o partido do EXÉRCITO (sic), vejam só”.

Lota e Bishop eram muito próximas de Carlos Lacerda, e a política dominava o ambiente em que viviam desde antes de suas manifestações pró-ditadura. Ela chegou a tentar escrever um poema sobre o suicídio de Getúlio Vargas, mas não terminou.

A relação de Elizabeth Bishop com o Brasil foi tema da tese de doutorado defendida por Regina Przybycien na Universidade Federal de Minas Gerais em 1993. Foi o primeiro estudo sistemático da obra da poeta no Brasil, num momento em que as cartas que chamam a atenção agora ainda não tinham sido publicadas no Brasil (elas foram editadas em 1995 pela Companhia das Letras com tradução de Paulo Henriques Britto, tradutor também de seus poemas) - mas estão em seu trabalho. Em 2015, quase 20 anos depois de escrita, a tese se transformou no livro Feijão-Preto e Diamantes - O Brasil na Obra de Elizabeth Bishop (Editora UFMG), que ajuda a entender sua história e o contexto em que vivia.

Professora aposentada da Universidade Federal do Paraná e tradutora de poesia polonesa (de Wislawa Szymborska, inclusive), Regina respondeu a algumas perguntas do Estado por e-mail. Para ela, Bishop é uma das grandes poetas do século 20, não se interessava por política, mas a homenagem da Flip, neste momento, é inoportuna. 

Ao longo da semana, escritores se manifestaram contra a homenagem, contra a poeta ou contra a homenagem neste momento – alguns sugeriram boicote à Flip. Outros, com menos barulho, defenderam a obra da autora e a homenagem. A polêmica segue repercutindo – e a Flip está atenta a isso, explica a curadora Fernanda Diamant. Ela conta que a decisão não é só dela e que existe um conselho que está discutindo isso e pode se pronunciar sobre o cancelamento. Por ora, a homenagem está mantida.

Diamant comenta que imaginou que a escolha poderia incomodar, mas mais pelo fato, ela explica, de Bishop ser estrangeira. Até hoje a Flip só tinha celebrado brasileiros. “Mas fico pensando: se tivéssemos anunciado o nome de João Cabral de Melo Neto na segunda passada, ele que foi diplomata durante o governo militar, isso teria sido uma pauta nas redes sociais? Bishop é mulher e é estrangeira, e essa é outra fragilidade.”

 

Regina Przybycien fala sobre Elizabeth Bishop

Quem é Elizabeth Bishop para a senhora?

É uma das grandes poetas do século 20. Perfeccionista ao extremo, levava anos burilando um poema, buscando a palavra exata, a imagem perfeita. Eu a descobri no início dos anos oitenta. Não foi a sua poesia que me atraiu num primeiro momento, mas o fato dela ter vivido no Brasil por longos anos. Queria entender como uma poeta, cujo instrumento de criação é a linguagem, incorpora elementos da língua e da cultura estrangeira na qual está inserida. Esse interesse inicial me fez descobrir e apreciar a qualidade da sua poesia, que é relativamente pouco conhecida no Brasil mesmo com as excelentes traduções de Paulo Henriques Britto.

A senhora escreve que a política foi um aspecto da vida brasileira que Bishop não buscou, mas viveu de perto. Cita um trecho de uma carta dela ('Depois de ser de esquerda a minha vida toda, me vejo tomando o partido do EXÉRCITO, vejam só') e comenta que seu apoio ao golpe de 1964 não foi uma surpresa. Como se dá a construção dessa visão política? Apesar da influência de Lota e das dificuldades com a língua, ela poderia ter tido uma leitura diferente da realidade, ou não ter se envolvido e manifestado.

Creio que é necessário contextualizar esta questão. Durante toda a década de cinquenta, Bishop viveu com sua companheira Lota de Macedo Soares no sítio da Samambaia nos arredores de Petrópolis. Seu  contato com brasileiros se resumia aos empregados do sítio e a alguns amigos de Lota que costumavam aparecer nos fins de semana. Entre esses, um amigo próximo era Carlos Lacerda. Ele arrastou Lota para o torvelinho da política ao nomeá-la supervisora das obras do Parque do Flamengo. Enquanto Lota mergulhava nas disputas e intrigas palacianas de Lacerda, Bishop lutava com seus demônios íntimos: o alcoolismo, o sentimento de inadequação, os bloqueios criativos. Ela não se interessava por política. Na minha percepção, as opiniões que manifestou em cartas para os amigos no exterior refletem o ponto de vista da elite com a qual convivia. 

A senhora diz também, no livro, que Bishop levou algum tempo para reconhecer que seus prognósticos a respeito da “revolução” estavam errados. Ela reconheceu mesmo? Como?

Primeiramente, nunca houve nenhuma declaração dela sobre o assunto, até porque a defesa do golpe foi feita em cartas pessoais, não em publicações. Ela se decepcionou com Carlos Lacerda quando ele se juntou a seus adversários políticos para formar a Frente Ampla que pretendia garantir as eleições em 1966. No início dos anos setenta, residindo em Ouro Preto, ela comenta brevemente sobre o clima sombrio que havia tomado conta do país, com barreiras policiais e prisões arbitrárias.

Sua visão política interfere em sua obra? E sua obra deveria ser posta à prova por suas opiniões - sobretudo antidemocráticas?

Pode-se criticá-la duramente pelas observações preconceituosas e opiniões políticas externadas nas cartas, mas acho injusto fazê-lo com base nos poemas. Ela até tentou fazer poemas políticos como, por exemplo, sobre a morte de Getúlio Vargas, mas eles permaneceram inacabados. 

A escolha de Elizabeth Bishop como homenageada da Flip desagradou muitas pessoas do meio literário por causa de sua visão sobre o golpe de 1964. Outros defendem sua obra, mas dizem que uma homenagem neste momento pode fazer mais mal do que bem a ela. Qual é a opinião da senhora?

A defesa do golpe de 1964 é lamentável, mas é apenas um episódio na relação complexa, ambígua e intensa de Bishop com o Brasil. Desqualificar a sua poesia por causa disso também é lamentável. Muito do que já se falou e escreveu sobre ela no Brasil tem a ver com sua vida pessoal. É sintomático que uma coletânea com tradução de suas cartas tenha sido publicada aqui bem antes dos poemas, um paradoxo porque foi a poesia que a tornou famosa no mundo. Quanto à homenagem, acho que a escolha foi inoportuna, não por causa da poeta, mas do momento político já bastante exacerbado.

Feijão-preto e Diamantes - O Brasil na Obra de Elizabeth Bishop

Autora: Regina Przybycien

Editora: UFMG

(201 págs.; R$ 39,90)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.