Elif Shafak mescla ficção com realidade para apontar as atrocidades turcas

Elif Shafak mescla ficção com realidade para apontar as atrocidades turcas

'10 Minutos e 38 Segundos neste Mundo Estranho' é uma ode às mulheres de Istambul

Alessandro Hernandez, Especial para o Estadão

17 de agosto de 2021 | 05h00

A dedicatória do livro 10 Minutos e 38 Segundos neste Mundo Estranho (HarperCollins), da escritora turco-britânica Elif Shafak, é feita “às mulheres de Istambul e à cidade de Istambul, que é, e sempre foi, uma cidade-mulher”.

Nesta obra, a protagonista e grande parte das suas personagens são mulheres. Leila Tequila é uma prostituta que foi assassinada e seu corpo jaz em uma lata de lixo da cidade turca, conhecida por fazer conexão entre os continentes europeu e asiático, por meio da cosmopolita Ponte de Bósforo. 

O título do livro faz referência a uma teoria segundo a qual na morte, após a parada do coração, o cérebro leva em torno de dez minutos para parar de funcionar. Este tempo será vivenciado pela protagonista por meio de lembranças de sua vida, e com elas surgirão as outras cinco personagens principais do livro – amigas vistas como “indesejáveis” pela sociedade turca e apenas um homem.

A escrita é dividida em três partes – Mente, Corpo e Alma. Na primeira, acompanhamos cronologicamente o tempo cerebral que lhe resta, quando as memórias são precedidas por sabores e aromas – como os gostos do sal na pele e na língua, do café com cardamomo, do guisado de bode com especiarias, dos cheiros de um fogão a lenha – que, se a princípio parecem apontar para paisagens afetuosas, direcionam para narrativas de duras realidades, em uma sociedade crivada por preconceitos e violências, principalmente as relacionadas ao gênero. É neste ambiente que ela nos apresenta as cinco personagens, todas na condição de migração e/ou imigração, vivendo em Istambul. 

Na segunda parte, intitulada Corpo, Leila Tequila, já está de fato morta e seguimos o quinteto das personagens no necrotério, onde são impedidas de ver o corpo da amiga que, por sua característica social, é levada ao Cemitério dos Solitários, em Kilyos – um lugar real que, segundo a autora, ultimamente tem recebido um número cada vez maior de corpos de refugiados afogados no Mar Egeu na tentativa de chegar à Europa. Lá, os túmulos não possuem lápides com nomes, apenas números. No livro, é o refúgio dos corpos dos párias, dos indesejáveis, indignos e indigentes, como travestis, prostitutas, aidéticos e viciados em crack.

Lideradas pela transexual Nalan Nostalgia, “uma das cinco” (como Elif se refere a cada uma das personagens quando são apresentadas), elas vão ao cemitério na calada da noite para retirar o corpo de Leila daquele lugar e dar um fim mais digno a ela e sua memória. 

Elif Shafak mescla ficção com realidade para apontar as atrocidades turcas. Neste sentido, a cidade de Istambul está onipresente na narrativa, seja por meio de sua arquitetura ou por passagens de acontecimentos históricos, como quando localiza uma das narrativas na Praça Taksin, no fatídico massacre de 1º de maio de 1977, quando 34 pessoas foram mortas por meio de uma intervenção policial contra uma multidão de 500 mil. Ela utiliza o fato para situar suas personagens em meio à ficção. 

Por sua veemência em apontar as características da vida no Oriente Médio na sua literatura, Elif já foi responsabilizada, em 2006, por insultar a identidade turca com o livro De Volta a Istambul. E, com 10 Minutos e 38 Segundos neste Mundo Estranho, finalista do Booker Prize, ela vem sendo acusada de obscenidade. Elif também escreve para diversos e importantes jornais, nos quais sua voz é uma das mais contundentes contra o governo de Erdogan, o atual líder turco. 

Mesmo com tal natureza tão implacável no discurso, é com muito lirismo que a escritora relata a última parte do livro – Alma – na emblemática ponte, criando poesia diante das injustiças e violações sofridas pelos corpos de seres que não fazem parte do tradicional mundo turco. Entre latas de lixos que recebem prostitutas assassinadas e a ostentosa Ponte de Bósfaro, Elif Shafak nos apresenta uma voz política e uma literatura inquietante.

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