Fabio Seixo/Editora CEPE
Fabio Seixo/Editora CEPE

Na Flip, Eliane Robert de Moraes fala sobre Hilda Hirst e contos eróticos do Brasil

Professora de literatura brasileira da USP está na programação oficial da Festa para explorar o profano na obra hilstiana

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2018 | 10h38

PARATY - Quando o assunto é literatura erótica no Brasil, é difícil fazer uma lista de especialistas e não incluir o nome de Eliane Robert de Moraes. A professora do Departamento de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP) é uma das convidadas da programação oficial da 16.ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, e divide nesta sexta, 27, às 20h, uma mesa com a atriz Iara Jamra, intérprete de várias das encenações mais célebres dos textos de Hilda Hilst nos palcos.

Eliane Moraes deve dar uma palestra sobre como a obra de Hilda Hilst, homenageada desta Flip, é vista tanto na sua dimensão corpórea quanto mística, e a atriz fará leituras de textos da escritora.

“A obra da Hilda tem uma demanda pelo absoluto”, explica Moraes, em Paraty. “Por Deus, por recompor a experiência humana por inteiro, o que é estar sendo e ter sido nesse mundo. A pornografia é então constitutiva desse projeto literário. Ela precisa passar por aí também, porque já tinha passado por Deus, pela morte, desamparo, amor, e não dá para interrogar o sexo sem ‘rebaixar’, no melhor sentido da palavra. Ela diz: vamos visitar esse baixo linguístico.”

Ela se refere aos livros “propositalmente” eróticos de Hilda, lançados na década de 1990, a começar por O Caderno Rosa de Lori Lamby, de 1990. “Ela começou com esse projeto em 1990 e, em 1997, publicou seu último livro. Já havia dentro dela a ideia de estar no final do seu percurso literário”, aponta.

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A professora também está lançando na Flip uma coletânea de contos eróticos brasileiros datados de 1852 a 1922, O Corpo Descoberto (Cepe Editora, 472 págs., R$ 50). São 53 ficções curtas de autores como Machado de Assis, Lima Barreto, Olavo Bilac, e menos conhecidos como Afonso Arinos, Valentim Magalhães e Júlia Lopes de Almeida.

No prefácio de abertura, ela fala num “império da alusão” na literatura erótica da época, ou seja, autores trabalhavam o erotismo de forma mais ou menos indireta em seus textos.

“Receber uma imagem erotizada é muito fácil hoje. No livro, é um outro mundo. Os contos nos obrigam a ver o erotismo onde não estamos treinados para vê-lo. Os autores ali eram obrigados a dizer de outro jeito. Com isso, eles conseguiam driblar a censura, mas faziam mais do que isso, e isso é a literatura”, explica Moraes. “A literatura sempre fala de outro modo.”

A seleção termina em 1922, não por acaso o ano da Semana de Arte Moderna. “O modernismo é um movimento em que, em todos os níveis, vai existir um projeto de rebaixamento, também no melhor sentido. É o negócio do Manuel Bandeira, o que interessa é o português ‘errado’, do povo. Nesse processo, o modernismo vai encontrar produções literárias populares que já são muito eróticas”, diz, como a literatura de cordel. Segundo a pesquisadora, a alusão deixa de ser a ferramenta mais usada a partir de 22. Um novo livro sobre o período, afirma, é caminho natural a partir daqui.

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