Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Editoras investem em livros sobre ciências para conquistar público mais amplo

Assuntos do momento como a pandemia do novo coronavírus e a crise climática despertaram mais interesse das pessoas; veja dicas de obras

Amanda Calazans, Especial Para o Estadão

24 de dezembro de 2021 | 20h30

Há algum tempo, o brasileiro lê todos os dias pelo menos uma notícia sobre pandemia da covid-19, negacionismo científico, desmatamento e queimadas, crise climática ou volta da fome. A pauta de ciências está em alta nos meios de comunicação, e agora cada vez mais nos artísticos. “Eu tenho a sensação de que cada vez que vou em uma livraria tem um livro novo falando sobre animais ou plantas”, diz a podcaster Sofia Nestrovski, que reencontrou o antigo sonho de ser cientista na literatura. 

Ao lado de Leda Cartum, ela apresenta o Vinte Mil Léguas, podcast que propõe a leitura de cientistas criado pela livraria Megafauna com apoio do Instituto Serrapilheira. A primeira temporada, iniciada em agosto de 2020, tratou de Charles Darwin, enquanto a segunda tem lançado episódios semanais sobre Alexander von Humboldt. “Os interesses estão se voltando cada vez mais para as ciências, e a ciência está crescendo por causa disso também”, afirma Leda.

A percepção de mais livros de divulgação científica faz sentido. Em 2021, pelo menos um quarto do catálogo da editora Ubu, tradicionalmente voltado a reflexões sobre política e arte, foi dedicado ao gênero. Para o ano que vem, a casa espera incluir ciências em pelo menos um terço dos lançamentos. A editora decidiu investir mais depois de o botânico italiano Stefano Mancuso se tornar um de seus autores mais lidos.

À época do lançamento de Revolução das Plantas (2019), a Ubu sabia que estava diante de uma abordagem diferente para as questões centrais que discutia. Essa mistura de saberes também motiva a editora Fósforo, criada em maio de 2021 com um ramo dedicado às ciências. Uma das fundadoras, Fernanda Diamant, foi também a idealizadora do Vinte Mil Léguas e editora de divulgação científica na revista literária Quatro Cinco Um. Com as experiências, ela quis dar mais visibilidade às publicações, principalmente nacionais.

“Tem muita coisa traduzida, direito comprado, e menos produção brasileira, que é uma coisa que eu tenho vontade de fazer”, informa Fernanda.

Ano que vem

Dos 24 livros publicados no primeiro ano de existência da Fósforo, dois eram sobre ciências, proporção que deve se manter no ano que vem. O primeiro deles, Psiconautas: Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira, do jornalista Marcelo Leite, figura entre os mais vendidos da casa e foi para reimpressão após seis meses e 3 mil cópias.

Já a editora carioca Dantes começou a desbravar o mundo das ciências em 2006, a partir do projeto Gabinete de Curiosidades de Domenico Vandelli, que deu origem a uma coleção de obras de divulgação científica sob a perspectiva das letras e artes. Esse diálogo atraiu um público não familiarizado com os temas.

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Os interesses estão se voltando cada vez mais para as ciências, e a ciência está crescendo por causa disso também
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Leda Cartum, Apresentadora do podcast Vinte Mil Léguas

A diretora Anna Dantes informa que a casa edita um ou dois livros por ano com tiragem de 2 mil exemplares e reimpressões anuais. “O assunto da ciência deixou de ser uma área só de cientistas. Acho que ele diz respeito à vida, portanto diz respeito a qualquer um de nós.”

A invasão das ciências ao mundo das artes pode ser um sinal de que a sociedade está antenada e sensível ao assunto, opina a diretora editorial da Ubu, Florencia Ferrari. “A arte é um bom lugar para captar as discussões e angústias que estão circulando.”

Só este ano, os objetos de estudo das ciências biológicas estiveram na mostra do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) de curadoria do artista macuxi Jaider Esbell, na mesa sobre biodiversidade da Bienal do Livro do Rio e no tema da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que abordou a relação da literatura com as plantas.

Para o escritor Evando Nascimento, um dos curadores da Flip 2021, dificilmente o tema teria sido escolhido em outras edições. Há cinco anos, quando ele começou a pesquisa para a obra O Pensamento Vegetal: A Literatura e as Plantas (Civilização Brasileira, 2021), havia poucos livros em português sobre botânica voltados a um público mais amplo. 

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Eu tenho a sensação de que cada vez que vou em uma livraria tem um livro novo falando sobre animais ou plantas
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Sofia Nestrovski, Apresentadora do podcast Vinte Mil Léguas

Hoje, há mais cientistas com desejo de compartilhar conhecimentos e escritores interessados em ciências. “Está longe de ser uma moda”, afirma Nascimento. “O interesse botânico, mas por uma botânica renovada, veio para ficar, e as artes plásticas e a literatura estão abertas a isso.”

Passada a covid-19, as editoras esperam que a divulgação científica se consolide no Brasil, a exemplo do que ocorre em outros países. Primeiro porque questões climáticas e de alimentação continuarão presentes nas discussões e pandemias podem voltar a acontecer, mas também pela necessidade de beleza.

Para Sofia, do Vinte Mil Léguas, a leitura de livros sobre ciências pode ser feita “não só para se informar dos fatos científicos, mas também para satisfazer o desejo por mistério e deslumbramento”. Além disso, complementa Leda, assim como o leitor encontra ciência na ficção, a exemplo das descrições anatômicas de Moby Dick, de Herman Melville, ele pode descobrir literatura nas analogias poéticas dos cientistas. 

Dicas de livros

A Planta do Mundo, de Stefano Mancuso (Ubu, 2021)

Narrativas com curiosidades históricas sobre plantas, como as sementes enviadas à Lua, as árvores da liberdade plantadas na Revolução Francesa e os troncos que fazem os violinos Stradivarius.

O Manifesto das Espécies Companheiras, de Donna Haraway (Bazar do Tempo, 2021)

Análise sobre a implosão da natureza e da cultura gerada a partir da estreita relação entre pessoas e cachorros, ligados pelo que a autora chama de alteridade significativa. 

A Trama da Vida, de Merlin Sheldrake (Fósforo e Ubu, 2021)

Resultado de um mergulho do autor na vida dos fungos, seres essenciais na criação do mundo e na evolução de outras espécies que ainda falam sobre a atual sociedade humana.

Metamorfoses, de Emanuele Coccia (Dantes, 2020)

Com uma filosofia da metamorfose, o autor defende que todos os seres vivos passam pelo ato metamórfico, do nascimento à alimentação.

Cartas ao Morcego, de Nurit Bensusan (Mil Folhas, 2021)

O morcego é a espécie considerada por muitos culpada pelo novo coronavírus. A partir disso, a autora faz reflexões sobre as relações da humanidade com os seres com que compartilha o planeta.

Um Sabiá Sujo, de Marcos Rodrigues (Unicamp, 2021)

Retrata a vida de um ornitólogo, na América do Sul, durante o processo de identificação de uma espécie de ave nova.

Psiconautas, de Marcelo Leite (Fósforo, 2021)

O jornalista recupera a história das principais drogas psicodélicas, desde a descoberta no século 20 até o recente uso medicinal.

 

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