Stefano Volp/ Acervo pessoal
Stefano Volp/ Acervo pessoal

Editoras independentes apostam no financiamento coletivo para publicar novos livros para o Brasil

Crowdfunding já era um antigo conhecido de projetos autorais independentes e, agora, passa a fazer parte do modelo de negócio de microeditoras

Natália Santos, Especial para o Estadão

04 de agosto de 2021 | 20h00

O jeito mais tradicional de comprar um livro pela internet passa por 5 passos: abrir o e-commerce preferido, buscar pela obra, colocar no carrinho, pagar e esperar a entrega. Em menos de 48h, a compra já está finalizada com o livro nas mãos do leitor. Esse, entretanto, não é o único caminho para consumir literatura atualmente. Outra forma tem chamado atenção: o financiamento coletivo



Conhecido também como crowdfunding, terminologia em inglês, o financiamento coletivo é quando várias pessoas apoiam financeiramente um projeto para que ele saia do papel. Essa forma de mobilização baseia-se na economia colaborativa, que tem como premissa a ideia de que ao unir esforços e compartilhar recursos, tanto as empresas quanto os consumidores, atingem negócios mais sustentáveis e com custos mais acessíveis.

No Brasil, esse modelo começou em 2011 com o surgimento de plataformas digitais, como Catarse, Queremos! e Benfeitoria, que impulsionou o desenvolvimento de projetos autorais. Esse modelo de negócio parece estranho em um cenário instantâneo de compras virtuais, mas tem ganhado adeptos além de favorecer o nascimento de novas editoras no País com projetos ambiciosos e propostas focadas na experiência do leitor.

Para Marina Avila, CEO, editora-chefe e designer editorial da editora Wish, o crowdfunding contribui com a bibliodiversidade do mercado editorial brasileiro ao expandir as possibilidades de publicação. “Conseguimos apostar em títulos de nicho que as editoras grandes não olham e publicar livros diferentes que, provavelmente, nunca seriam publicados no Brasil”, disse. 



 

Backstage da produção

A primeira diferença que chama atenção no trabalho dessas novas editoras é o detalhamento do orçamento na publicação por financiamento coletivo: os cálculos e os números são abertos para o público como uma forma de transparência. Além dos valores, também é divulgado quanto tempo demorará cada etapa do projeto, assim o apoiador consegue já ter em mente uma previsão de quanto o livro estará em suas mãos. 

Valquíria Vlad, gerente de comunicação da editora Wish afirma que o financiamento coletivo quebra o misticismo sobre o que acontece por trás das portas das editoras: “com o crowdfunding, nós conseguimos ser transparentes nas metas e abrimos o jogo de como é feito um livro do jeito que as pessoas querem, com o papel preferido, capa dura, além de também quebrar essa questão sobre esse tabu de que livro é algo fácil e barato de ser feito”, disse.

Com o projeto traçado, chega a hora de falar diretamente com o consumidor para divulgação. Esse estreitar laços com o apoiador faz parte do processo de experiência com o produto, afinal o que essas editoras querem vender não é apenas um livro, mas a experiência sensorial de unir uma comunidade em torno de uma história. Para Paulo Lannes, co-fundador e co-criador da editora Pinard, o segredo é vender a história do livro todo dia. “Nós queremos os leitores conosco, conversando e acompanhando todo o processo de publicação do livro. Essa é a grande diferença ao comparar o que fazemos com uma compra na Amazon, onde a ideia é: ‘livro novo, vamos vender, vamos comprar’.”


 

Engajamento do leitor

A experiência também conta com a participação ativa dos leitores, mas, sem necessariamente, precisar colocar as mãos no projeto. Foi assim que a jornalista teresinense Eliz Oliveira, 25 anos, participou pela primeira vez do projeto de crowdfunding. “Com as editoras independentes menores, nos sentimos parte da equipe porque ajudamos a lapidar a ideia. Por causa dessa ajuda, a ansiedade aumenta mais para o recebimento do livro, afinal nós sentimos parte do processo e queremos ver logo o resultado.”

Os apoiadores também ajudam na divulgação dos projetos. Valquíria relata que os leitores usam as próprias redes sociais e grupos de amigos para começar a divulgar a campanha. “Com esse processo, criamos um efeito de rede orgânica porque não estamos investindo em anúncio. Eles estão fazendo a comunicação por mim porque eles acreditam nesse projeto.” Essa movimentação é a essência do financiamento coletivo. 

A comunidade, entretanto, não é só importante para publicar a obra, mas para barateá-la. Quanto mais apoiadores, maior a quantidade de livros que são impressos e melhor o valor unitário de cada obra. Com o barateio das obras, as editoras conseguem incorporar novos adereços como capa dura, fitilho, corte colorido e brindes. 

Toda a participação do apoiador é lembrada na página de agradecimento, onde as editoras imprimem os nomes daqueles que ajudaram a financiar o projeto. Essa é a forma de eternizar a união dos agentes dessa comunidade literária. “Eu percebo que ter o nome no livro faz sentido para as pessoas. Elas se sentem um pedacinho daquilo e, no final das contas, elas realmente são, afinal a publicação da obra não aconteceria se não tivesse o apoio delas”, disse Stefano Volp, fundador da editora Escureceu, que publica obras escritas por pessoas negras.



 

Pequenas doses de endorfina

A obra publicada por financiamento coletivo pode demorar meses até chegar na casa do apoiador. Marina conta que, diariamente, a editora oferece pequenas doses de endorfina, contendo informações sobre a história. “Quando você compra um livro e já recebe direto, você tem um prazer imediato. No crowndfunding, você vai recebendo novidades a todo momento, de pouquinho em pouquinho, até chegar o grande dia: a entrega final do livro.” Essa espera também faz parte da experiência, uma vez que o leitor sente na pele o tempo real de uma produção literária. 

Transparência também é a palavra-chave desse pós-venda. “A partir do financiado aprovado, nos comprometemos a informar o fim de uma etapa e o começo de outra. Nada mais justo do que dar uma satisfação para o apoiador. É uma forma de dizermos: ‘seu apoio tá valendo, estamos trabalhando no livro e vai sair daqui a pouco'', disse Volp.

A apoiadora Eliz espera que o movimento de publicações independentes por meio de financiamento coletivo cresça nos próximos anos: “Ter um grande poder editorial concentrado na mão de duas ou três editoras não me parece o melhor cenário para nós, leitores, que terminaríamos tendo que ler somente o que essas linhas editoriais considerarem economicamente viável. Hoje em dia eu priorizo a compra em editoras independentes, pois sinto que a revolução está sendo feita por elas”, conta.

Tudo o que sabemos sobre:
Wishliteraturalivromercado editorial

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.