Ayrton Vignola|Estadão
Ayrton Vignola|Estadão

Editoras discutem sistema de consignação

Usada há 20 anos, prática de compra ainda carece de regras definidas

Amilton Pinheiro, ESPECIAL PARA O ESTADO

30 de abril de 2016 | 04h00

Quando Charles Cosac, sócio-fundador da Cosac Naify, decidiu fechar sua editora, em novembro, alegou que um dos motivos era o problema da consignação (procedimento em que o fornecedor, as editoras, deixa seu produto, os livros, para ser comercializado pelo varejo, as livrarias, com previsão de acerto em data acordada do que foi vendido). “A nossa editora não aguentava mais os prazos cada vez mais esticados da consignação. Isso impactava nosso capital de giro. As informações que as livrarias nos davam sobre o consignado vendido demoravam ou não eram precisas. A consignação, em muitos casos, é uma perversidade para o editor”, desabafa Cosac com exclusividade ao Estado.

O sistema de compra do mercado livreiro foi disseminado em larga escala em 1996, quando Ivo Camargo Júnior era gerente de vendas da Companhia das Letras. Na ocasião, a editora viu que havia possibilidade de ganhar mais espaço no mercado, consignando seus títulos mais vendidos. “Tornamos usual a consignação no mercado livreiro. Na época, estávamos preocupados com o fechamento de livrarias que reclamavam do investimento do seu capital de giro em livros que ficavam encalhados nas prateleiras”, revela Camargo Júnior. Procurada, a Companhia das Letras não quis falar sobre o assunto.

O problema da consignação é que ela nasceu sem um conjunto de regras definidas, atesta Luís Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL). “Mais cedo ou mais tarde, essa falta de regras iria levar a essa animosidade que encontramos hoje entre editoras, distribuidores e livrarias.”

Marcos da Veiga Pereira, que é sócio-diretor da Sextante e presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), revela que a consignação nunca foi empecilho. “Não acho que a consignação por si só seja um modelo errado. A consignação sem um mecanismo de transparência e controle é um modelo errado.”

Essa transparência e esse controle dependem de Tecnologia da Informação e algumas livrarias, segundo Sônia Jardim, vice-presidente do Grupo Record, não investem o suficiente nessa área, o que dificulta a prestação de contas do consignado. “Por causa da falha nas informações do consignado, as editoras não sabem o que foi vendido. Não tendo essa informação não têm como cobrar. Algumas vezes, somos obrigados a pedir a devolução dos livros consignados para saber o que de fato foi vendido e é comum os números não baterem.”

Tanto a Livraria Cultura, quanto a Travessa e Curitiba alegam que investiram em sistemas de informação mais eficazes que ajudam na prestação de contas mais rápida e precisa. Desde que o livro é consignado até o pagamento do que foi vendido, o prazo de acertos (pagamentos) não passa de 90 dias. Mensalmente, as editoras recebem relatórios dos livros vendidos para que possam faturar e receber no máximo em 60 dias. Quando acontecem falhas, afirmam essas livrarias, é por falta de controle das editoras. Pode haver um eventual extravio de livro por causa de roubo ou de estoque em lugar errado.

As editoras dizem que investem nos seus sistemas de informações. Sabem que a consignação é “um mal necessário”, até porque o mercado livreiro não voltará à compra direta (à vista). Mariana Zahar, diretora executiva da Zahar, mesmo achando que a consignação ajuda as editoras a colocar mais títulos nas livrarias, também reconhece que “as livrarias, de fato, demoram para fazer o acerto da consignação”. “Esse acerto pode se estender para 120, 150 dias. Isso é uma loucura.”

O financiamento da cadeia de livro inverte a lógica de acesso ao capital, entende Ivana Jinkins, diretora editorial da Boitempo, e acrescenta que esse sistema de compra é um investimento alto para as editoras. “As grandes redes, que poderiam pagar baixas taxas de juros para manter o seu negócio, colocam inteiramente esse risco para as editoras.” Em se tratando de editora pequena e com pouco tempo no mercado, como a Nós, a sócia-proprietária da editora, Simone Paulino, diz que as dificuldades são ainda maiores. “Além da demora no acerto, primeiro temos que implorar para que as livrarias aceitem alguns dos nossos títulos.”

Flávio Seibel, diretor comercial da Livraria da Vila, reconhece que “é preciso melhorar o sistema de informação”. “Sei que esse sistema ineficiente pode gerar problemas de controle e, consequentemente, de pagamento do consignado.” Já o presidente da Livraria Leitura, Marcus Teles, argumenta que as livrarias investiram mais nos sistemas de informação do que as editoras, o que causa esses problemas de acertos. “As editores têm sistemas de controle das vendas dos consignados mais antigos do que as livrarias o que gera esses desacertos e atrasos no pagamento dos consignados”. A Saraiva, uma das maiores redes, respondeu que a política da empresa é não comentar assuntos comerciais.

Recém-empossado como presidente da Associação Nacional dos Livreiros (ANL), e com 50 anos de experiência no mercado, Bernardo Gurvanov diz que a cadeia do livro tem que se comunicar e se reorganizar. “Os problemas são inúmeros e um deles é que o varejista não pode ter no seu fornecedor um concorrente, pois sabemos que muitas editoras vendem seus livros no comércio online.”

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