Alex Silva|Estadão
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Editoras apostam cada vez mais em livros escritos por padres cantores

Caminho já foi trilhado por Padre Zezinho e Padre Marcelo Rossi

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2015 | 04h00

As editoras estão investindo em jovens padres cantores para lucrar em cima do sucesso de dois supercampeões, Padre Zezinho e Padre Marcelo Rossi, que nas últimas décadas vêm vendendo milhões de exemplares de livros e de discos sobre temas religiosos. Além de ter boa audiência em seus programas de rádio e de televisão, eles enchem as praças de capitais e de cidades do interior ao redor de seus palcos em shows animadíssimos. 

Não são apenas editoras católicas, como a Paulinas, que festeja 51 anos da carreira de Padre Zezinho, mas também e cada vez mais editoras comerciais, como a Globo, selo do livro Ágape de Padre Marcelo, e a Petra, do grupo Ediouro, que em 2015 lançou no mercado nove evangelizadores multimídia. Alguns são ainda estreantes, mas todos já bem conhecidos dos católicos pelo Brasil afora. 

Mineiro da cidade de Machado, onde nasceu em 1941, padre José Fernandes de Oliveira, ou Padre Zezinho, foi criado e vive em Taubaté, no Vale do Paraíba, onde continua a pregar, escrever e compor, depois de ter sofrido um AVC. Só não viaja mais, como fazia no passado. Em seus 51 anos de vida missionária, comemorados em maio, sempre atraiu multidões a seus shows ou, como prefere dizer, a suas missas campais. Compôs cerca de 1500 canções, escreveu 85 livros e sempre participou de programas de rádio e televisão. 

Precursor da moderna canção católica no Brasil, Padre Zezinho é autor de Oração pela Família, composta para o encontro do papa João Paulo II com as famílias, em 1997, no Rio. Sua obra fala de democracia, libertação, solidariedade, ecologia, juventude, terceira idade, filosofia, teologia e, tema recorrente, a família. Letras de algumas de suas músicas foram censuradas durante a ditadura. Seu livro mais recente é Manual do Servo Inútil, com 396 reflexões, em pílulas, sobre a missão do pregador que, do alto de um eventual sucesso, deve pensar que apenas cumpriu o seu dever.

A grande estrela entre os padres cantores, fenômeno nos palcos, estádios e igrejas, é padre Marcelo Rossi, que se ordenou sacerdote aos 27 anos, após se formar em educação física pela Universidade de São Paulo. Começou a fazer sucesso nos anos 1990, primeiro no rádio e, em seguida, na televisão e missas-shows, expressão que ele rejeita, com o argumento de que seu objetivo é a evangelização, embora com os recursos de um artista. Seu livro Ágape, palavra de origem grega que significa amor a Deus, portanto espiritual, já vendeu mais de 10 milhões de exemplares. Os CDs somam mais de 11 milhões de cópias. Suas missas de domingo, transmitidas pela TV Globo no Santuário Mãe Deus, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, atraem multidões de fiéis. 

“Se for vontade do papa, eu obedeço”, disse padre Marcelo ao jornalista Edison Veiga, autor do livro Padre Marcelo Rossi: A Superação Pela Fé, ao ser perguntado se estaria disposto a interromper suas missas celebradas em animados ritos de inspiração carismática. Em maio de 2007, padre Marcelo foi impedido de abrir com um show a cerimônia de canonização de Frei Galvão no Campo de Marte, supostamente para não ofuscar a presença do papa Bento XVI, hoje papa emérito. Ele sofreu com a proibição, assim como sofre, sempre calado, com as críticas de bispos e de teólogos que o consideram um pregador sem a necessária base intelectual. Padre Marcelo sempre contou com o apoio de seu bispo, d. Fernando Figueiredo, que se aposentou no começo de dezembro, presença constante nas missas do santuário. 

Padre Reginaldo Manzotti, outro best-seller da evangelização católica, vendeu mais de 3 milhões de exemplares de seus livros, o último deles Parábolas, da editora Petra, com apresentação de frei Clodovis Boff. “Procuro traduzir a mensagem teológica de forma acessível, tanto nos livros como na música para atrair o povo para a Igreja”. Padre Reginaldo também não gosta da palavra show. “Sou mensageiro do evangelho na escrita, no rádio e na televisão”, disse ao Estado. Pároco de uma igreja no centro de Curitiba, onde celebra missas durante a semana, costuma viajar para outras capitais e cidades do interior aos sábados e domingos. Sua celebração mais concorrida ocorreu em outubro em Fortaleza, com cerca de 1,8 milhão de pessoas. Padre Reginaldo informa que não cobra cachês nem ingressos, “só despesas com viagem, hotel e montagem de palcos”. 

Quatro livros, dois CDs, três programas na Rede Vida de Televisão, bate-papo em 15 emissoras de rádio, a agenda multimídia de padre Juarez de Castro, mineiro de Lavras, está ainda em início de carreira. Já vendeu mais de 1 milhão de exemplares. Um de seus best-sellers, Ensina-me a Rezar, da editora Petra, mostra “como falar com Deus em todos os momentos e em qualquer situação”. O padre faz uma curta oração e abre espaço para o leitor continuar orando com seus próprios sentimentos, numa interação que pretende ser natural e espontânea.

“Oração para minha esposa” é uma das sugestões do padre celibatário, ao lado de orações para o marido, a sogra e a avó. “Todos os meus livros seguem a linha da espiritualidade; falam de esperança, da perseverança e da oração como comunicação com Deus”, observa padre Juarez. Um de seus programas na televisão é Palavra com o Cardeal, às 7h15 da manhã de domingo, no qual conversa com d. Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo. Ele foi secretário do Vicariato da Comunicação da arquidiocese, antes de optar por ser escritor, falar no rádio e pregar na televisão. 

Padre Marcos Roberto Pires, autor de Não Há Mal que Me Possa Vencer, é também conhecido como Padre Elvis, por causa do marcante ritmo de suas músicas que lhe valeu o título de rei do rock. Mantém o jeitão inspirado em sua admiração por Elvis Presley, mas prefere ser chamado de padre Marcos, que é como o povo o conhece. Fã do cantor norte-americano, na fase de 1969 a 1977, entusiasmou-se no Brasil com a Legião Urbana, Guilherme Arantes e Oswaldo Montenegro, que também influenciaram seu estilo. Lançado em janeiro de 2015 pela Petra, Não Há Mal que Me Possa Vencer é seu primeiro livro. 

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