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Editora portuguesa Assírio & Alvim chega ao Brasil com coletânea inédita de Fernando Pessoa

Ao 'Estadão', casa editorial revela que pretende lançar dez livros no País até julho, incluindo 'Sobre a Arte Literária', com textos do autor português

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2022 | 05h00

Desde 1999, o 21 de março é lembrado como o Dia Mundial da Poesia, após uma decisão da Unesco. Mas, a partir desta segunda, 21, a data vai marcar também o anúncio oficial da chegada ao Brasil da Assírio & Alvim, uma das mais respeitadas editoras portuguesas, que comemora 50 anos em novembro. E, para marcar o nascimento da Assírio & Alvim Brasil, serão lançados dois livros no início de abril.

O primeiro é motivo de muita festa: Sobre a Arte Literária, coletânea de textos de Fernando Pessoa sobre o ato da escrita, inédita no Brasil. Na sequência, será lançado Inferno, de Pedro Eiras, inspirado na obra de Dante Alighieri.

“Pessoa era um escritor de fato, transitando por vários gêneros, inclusive o ensaio, como é o caso deste livro que reflete suas ideias sobre o próprio ofício. Há textos inclusive dos seus diferentes heterônimos sobre o mesmo tema, o que torna a obra ainda mais fascinante”, observa o autor e editor brasileiro Thales Guaracy, que acertou com a casa portuguesa sua vinda ao País. “Já Inferno é uma obra primorosa, de um autor jovem, muito respeitado em Portugal. Com esses dois livros, queremos deixar sinalizada a nossa proposta, que é a de lançar obras clássicas e de grandes autores e, ao mesmo tempo, trabalhos contemporâneos, sobretudo poesia, da mais alta qualidade.”

Guaracy teve a ideia de trazer a Assírio & Alvim para o Brasil no final do ano passado, quando esteve na Feira do Livro em Lisboa. Ele finalizava um livro de poesia, gênero no qual a editora portuguesa é referência. Assim, além de cogitar a publicação de sua obra por aquele selo, Guaracy imaginou um passo mais ousado: trazê-lo para o Brasil.

“Conversei com Vasco Teixeira, um dos administradores do Grupo Porto, do qual a Assírio & Alvim faz parte, e meu interesse coincidiu com o deles, ligado a uma série de eventos, como a comemoração dos 50 anos da editora, além da homenagem a Portugal que vai acontecer na Bienal do Livro de São Paulo, em julho.”

Guaracy foi diretor editorial da Saraiva, passagem em que obteve sucesso, especialmente com a criação do selo Benvirá, que apostou em nomes hoje consagrados, como o escritor Raphael Montes. Agora, à frente da Autores e Ideias Editora, ele vai comandar os lançamentos da Assírio & Alvim Brasil, com distribuição da Círculo. “Temos prevista a edição de dez livros até a Bienal do Livro, em julho. E alguns nacionais já estão contratados ou apalavrados.” 

 

Leitor brasileiro

Um outro detalhe fundamental na conclusão do acordo foi o interesse do leitor brasileiro. “São Paulo é a segunda cidade de onde chegam mais visitantes ao nosso site, recebemos todos os meses muitas propostas de publicação enviadas por autores brasileiros e todos os dias e-mails a perguntar onde adquirir este ou aquele livro no Brasil”, comenta o editor português Vasco David. “A poesia é o fio condutor e o princípio unificador.”

De fato, apesar de reunir autores e obras de referência, da ficção ao ensaio, da literatura infantil às artes plásticas, a Assírio & Alvim é conhecida como a maior e mais importante publicadora de poesia em Portugal – em especial, a de Fernando Pessoa. Daí a decisão de ser dele a primeira obra a ser lançada no Brasil.

“Sobre a Arte Literária reúne vários textos que, em conjunto, apresentam ao leitor aquilo que Pessoa pensava acerca da literatura”, observa David. “São fundamentalmente reflexões sobre a essência, a história e o futuro da literatura. Neste livro, surgem publicados pela primeira vez três textos de Pessoa.”

O poeta

A obra traz desde considerações estéticas (como nos artigos A Poesia É uma Imitação da Natureza e A Arte É a Notação Nítida) até observações sobre James Joyce, Goethe, Edgar Allan Poe e outros. Há também textos assinados por heterônimos como Ricardo Reis (Milton Maior do que Shakespeare), Alberto Caeiro (Sobre a Prosa e o Verso) e Álvaro de Campos (A Incompreensão do Ritmo Paragráfico).

“A teoria, em Pessoa, é um diálogo entre teorias e uma permanente experimentação dos seus limites”, escrevem no prefácio os organizadores do volume, Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. “A literatura e a arte são para Pessoa uma matéria de reflexão, para além de um tópico de intervenção pública, e a sua variação é de regra, nunca cristalizando na defesa de qualquer decálogo.”

Segundo eles, ao pensar a arte literária como um conjunto de valores e de práticas, notadamente quando em diálogo com os seus contemporâneos, saudosistas ou não, Pessoa não procura nada parecido com a polêmica ou a persuasão. “Talvez se deva convocar, mais uma vez, a figura da síntese. Como se fosse possível a um escritor reivindicar para si toda a tradição e, ao mesmo tempo, a ruptura com ela.”

O próprio Pessoa expõe sua profissão de fé artística no texto que abre o volume, Um Poeta Animado Pela Filosofia: “Eu era um poeta animado pela filosofia, não um filósofo com faculdades poéticas”, escreve. “Há poesia em tudo – na terra e no mar, nos lagos e margens dos rios. Também na cidade – não o neguem – como é evidente para mim, aqui onde me sento: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia na trepidação dos carros nas ruas, em cada movimento ínfimo, trivial, ridículo de um operário que, do outro lado da rua, pinta a tabuleta de um talho.”

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