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W.W. Norton via AP
W.W. Norton via AP

Editora cancela definitivamente biografia de Philip Roth e rompe com autor acusado de abuso sexual

'Philip Roth: The Biography' foi lançada no começo do mês; no Brasil, ela seria publicada pela Companhia das Letras

Hillel Italie, AP

28 de abril de 2021 | 11h11

A editora da aguardada biografia de Philip Roth cancelou definitivamente a publicação do livro e rompeu laços com o autor Blake Bailey, que enfrenta várias acusações de assédio e abuso sexual.

A W.W. Norton and Company lançou anteriormente The Splendid Things We Planned, livro de memórias de Bailey. “A Norton está tirando permanentemente de catálogo as edições de Philip Roth: The Biography e do livro The Splendid Things We Planned, de 2014”, disse a editora nesta terça-feira, 27.

“Blake Bailey é livre para tentar publicar seu livro por outra editora. Além disso, a Norton vai fazer uma doação no valor do adiantamento do livro Philip Roth: The Biography para organizações que lutam contra a agressão ou assédio sexual e que trabalham para proteger as vítimas'', disse. 

A surpreendente decisão vem na esteira da divulgação, na semana passada, pelo The New York Times, The New Orleans Times-Picayune e The Associated Press, entre outros, de que Bailey, que na década de 1990 dava aulas de inglês para alunos da 8ª série em Nova Orleans, se comportou de maneira inadequada com os alunos e posteriormente buscou relações sexuais. Dois ex-estudantes e um editor executivo alegaram que ele os agrediu. 

Imediatamente Bailey foi dispensado por sua agência literária, a Story Factory, e a Norton anunciou, na semana passada, que faria uma pausa na impressão e na divulgação do livro até que avaliasse as acusações. 

A editora reconheceu ter sido procurada, anonimamente, por uma mulher, em 2018, que alegou que Bailey havia abusado dela três anos antes. A empresa nunca respondeu diretamente ao e-mail, enviado pela vice-presidente de vendas e marketing da Bloomsbury, Valentina Rice, e em vez disso o encaminhou para Bailey.

Rice veio a público com suas alegações na semana passada no The New York Times e confirmou seu relato à AP. Bailey, cujo livro sobre Roth foi lançado no início de abril, negou qualquer transgressão.

Seu advogado, Billy Gibbens, condenou o anúncio e ressaltou que o livro está sendo vendido no exterior. “Norton tomou a decisão drástica e unilateral de cancelar os livros com base nas alegações falsas e infundadas contra ele, sem realizar qualquer investigação ou oferecer a Bailey a oportunidade de refutá-las”, disse o advogado em um comunicado enviado à Associated Press. “Os editores europeus de Bailey sabiamente não tomaram uma decisão tão precipitada, e a reação automática de Norton é preocupante e injustificada”, completou.

A biografia de Philip Roth pode continuar disponível nos Estados Unidos, mas no formato de audiolivro, lançado por uma empresa diferente, a Recorded Books Inc. A editora do audiolivro não respondeu à AP sobre o que fará com a biografia.

Poucas biografias foram tão aguardadas quanto a do escritor Philip Roth. Bailey, conhecido pelas aclamadas biografias de John Cheever e Richard Yates, trabalhou no livro do autor de O Complexo de Portnoy desde 2012, teve amplo acesso ao autor, morto em 2018, e aos seus arquivos.

Philip Roth chegou à lista de mais vendidos do New York Times e as resenhas foram, em sua maioria, positivas - embora alguns críticos tenham comentado que ele foi muito tolerante com Philip Roth e sua forma de tratar as mulheres. 

Os debates sobre a relevância do comportamento privado de um autor para sua obra, que Roth também enfrentou em vida, agora se estendem a Bailey. Vários autores foram abandonados por seus editores desde o surgimento do movimento #MeToo, quatro anos atrás, incluindo Mark Halperin e James Dashner. Sherman Alexie devolveu uma medalha da American Library Association em meio a alegações de assédio. Woody Allen, cuja filha Dylan Farrow alegou que ele a molestou quando criança, teve um livro de memórias cancelado em 2020 pelo grupo Hachette, mas que depois foi publicado pela Skyhorse Publishing

Bailey tem sido condenado universalmente, mas nem todos concordam que o livro deva ser retirado. A CEO do PEN America, Suzanne Nossel, disse temer que a decisão da Norton possa se tornar um precedente preocupante. “Se aplicarmos esse padrão em grande escala, haverá milhares de livros de fanáticos, misóginos e malfeitores que poderiam ser retirados de circulação por esse motivo”, ela disse em um comunicado. 

 

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