Maria Fernanda Rodrigues/Estadão
Maria Fernanda Rodrigues/Estadão

Editor sírio publica para resistir à barbárie

Marwan Adwan fala sobre o sonho familiar de editar livros

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de São Paulo

18 Outubro 2015 | 17h20

Ter uma editora para publicar obras de jovens escritores era o sonho do sírio Mamdouh Adwan, autor de 85 livros, entre romances, poemas e peças, e também tradutor (de Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, inclusive). Mas ele morreu em 2004, sem conseguir realizá-lo. Coube à sua mulher, dois anos depois, a criação da editora que levaria o nome do marido. E então ela também morreu, em 2013, deixando o negócio para seu filho, o engenheiro de computação Marwan Adwan.

Àquela altura a situação da Síria já era catastrófica. “Estamos sofrendo e vivendo várias guerras ao mesmo tempo. As pessoas estão se matando, as cidades estão destruídas. Não precisamos de ditadores ou de extremistas, e nem da Rússia atacando”, conta o editor, que vive desde 2013, sozinho, em Dubai. Seu irmão está na Alemanha. Os parentes e amigos, ao redor do mundo.

Marwan, 30 anos, participou da Feira do Livro de Frankfurt pelo segundo ano consecutivo como editor convidado. Ele ganhou um mini estande, hospedagem e ajuda de custo e espera vender os direitos de pelo menos 10 títulos que editou para outros países em 2016. A procura existe, ele diz. Por ora, acha que é cedo para tratar sobre a destruição de seu país na forma de não ficção, que ele também publica, mas conta que já estão surgindo obras que têm como pano de fundo o dia a dia na Síria hoje. Um exemplo que ele dá, e tenta vender na feira, é Uma Parte Perdida do Céu de Damasco, de Raed Wahashi. “Todos os escritores estão afetados e falando sobre isso. E as pessoas querem saber o que se passa lá. Essas histórias de vida ajudam a compreender o momento.” 

Para ajudar a precária economia de seu país, ele imprime, quando pode, os livros lá e os distribui para as bibliotecas e livrarias que vão resistindo. As obras – são 80, até agora – também chegam a outros países de língua árabe. Ele comenta que, apesar de o livro ter se tornado objeto de luxo nos orçamentos das famílias que continuam em suas casas, a procura vem aumentando. “Este é um tempo de grandes perguntas e livros são um caminho para os sírios se abrirem para o mundo, além, claro, de um jeito de fugir dessa realidade horrível e encontrar algum prazer.”

No sonho de seu pai, Marwan encontrou a sua forma de resistir e de dar a sua colaboração. Seu sonho é “voltar para casa, para uma casa segura”. Idêntico ao de Samer El Kadri, que também foi editor convidado de Frankfurt em 2011 e 2012. Depois disso, sua vida ficou agitada – mas não porque sua Bright Fingers, de livros infantis, estourou. Começava, ali, sua peregrinação.

Em 2012 mesmo, ao embarcar para a Feira do Livro de Abu Dabi, ele já sabia que não voltaria para casa. Ao desertar, levou a mulher e as filhas, e começou vida nova na Jordânia. Kadri não veio a Frankfurt este ano. Hoje, eles vivem em Istambul, onde criaram uma livraria que empresta, sem custos, livros e que funciona como centro cultural. “Fazemos isso porque precisamos de um lugar de onde podemos dizer ao mundo quem somos, quem são os sírios”, disse ao Estado. Ele segue esperando o dia de voltar a Damasco.

Marwan e Samer são dois refugiados que encontraram em outros países uma chance de tocar a vida adiante. Como eles, há milhares. Ontem, último dia da Feira do Livro de Frankfurt, eram esperadas 650 pessoas vindas tanto da Síria como da Eritreia, Argélia, Afeganistão, entre outros países, e que por perseguição política ou religiosa, pediram asilo à Alemanha.

O afegão Mohammed Navi, 25, era um dos refugiados na primeira visita guiada do dia. A iniciativa é parte de um programa para melhor integrar os novos moradores do país e garantir acesso a livros e educação. Ao saber da visita, Dana Baghery, alemã de origem iraniana, se prontificou a ajudar no tour traduzindo para o persa. “O mundo é um só e devemos ajudar o outro”, diz a garota de 18 anos, cujos pais, perseguidos políticos, trocaram o Irã pela Alemanha há 30 anos. “O que o governo está fazendo é propaganda, mas os cidadãos estão se mostrando prontos a ajudar, e isso é importante.”

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