Taba Benedicto/Estadão
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Edilaine Gonçalves, a Naná: ‘Obra de Carolina e as discussões em grupo tocam na minha alma’

Presidente da Coopercata em Mauá, ela diz estar vivendo que nunca imaginou, com o contato com a obra da escritora e com os relatos das colegas de oficina da Flup

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

Quando tinha 13 ou 14 anos, na metade dos anos 1980, Edilaine Gonçalves, hoje conhecida pelos amigos espalhados pelo mundo que sua simpatia conquistou como Naná, frequentava a Biblioteca Municipal de Santo André. No espaço que mais tarde ganhou o nome de Nair Lacerda (intelectual e jornalista que levou o Jabuti por uma tradução de As Mil e Uma Noites), Naná buscava os escritos de pensadores para entender a matemática, ciência pela qual se apaixonou ainda criança e com a qual manteve relação durante toda a vida.

De Sócrates (fundamental para a construção inicial da filosofia da matemática) a Descartes (“nunca esqueço o 'penso, logo existo', tenho isso guardado dentro de mim”, diz Naná, em uma das ligações com a reportagem nas últimas semanas), a garota que estudou em escolas municipais e participou do movimento estudantil numa época em que o Brasil saía das garras da ditadura militar, misturava essas leituras com a de livros da coleção Sabrina — os romances populares que sua mãe trazia para casa e a deixava ler aos fins de semana. As leituras se espraiavam também pelas princesas clássicas do irmãos Grimm, passou por Monteiro Lobato e mais tarde também por atualidades, orientada por professores da escola, que forneciam a ela (sob um sigilo necessário por conta de perseguições políticas) matéria prima para os protestos em favor da democracia.

“Eu estava muito política nessa época, na quinta ou sexta série”, conta Naná. “Já estávamos no final do militarismo. Na escola, eu jurava a bandeira, usávamos o uniforme de meia até o joelho, sainha godê azul marinha, camiseta branca. O cabelo tinha que estar impecável, assim como as unhas, os professores olhavam. Eu me recordo bem. Saíamos e juntamos todos os colégios. Eles queriam que eu entrasse na juventude do PT, mas na época eu resisti um pouco. Já gostava de escrever. Mas percebi também que tínhamos que fazer alguma coisa. Batíamos nos colégios e íamos a pé fazer protestos, em busca de direitos constitucionais, direitos trabalhistas, direitos da mulher, direitos de voto.”

Naná demonstra uma compreensão generosa da vida, apesar — ou mesmo por conta — dos traumas que viveu. Sua família veio da classe trabalhadora, do campo, do interior de São Paulo. A mãe é de Pacaembu (cidade a 617 km de São Paulo), o pai de Tupã (a 435 km da capital). Há 50 anos o pai se mudou para o ABC em busca de trabalho na metrópole, chegou a amassar barro para fazer tijolos e dormiu na Estação de Santo André tendo como cobertor folhas de jornal. A educação, porém, foi uma prioridade em se tratando de seus filhos. “Ele sempre nos ensinou a estudar, crescer com dignidade trabalho e honra. Era o mínimo para ele”, conta Naná.

“Eu não nasci catadora”, diz — com o maior respeito pela profissão que a levou à presidência da Cooperativa de Catadores de Papel, Papelão e Material Reciclável de Mauá, a Coopercata. “Foi no término do meu casamento que iniciei a catança e fui parar na Coopercata. Iniciei como triadora, e foi lá que tive as inspirações para retomar minha formação.”

Antes disso, foi babá, cozinheira, empregada doméstica. Por insistência de um dos antigos patrões, da "aristocracia" de São Bernardo do Campo, foi fazer um curso de secretariado. Foi onde aprendeu a datilografar e operar as facilidades tecnológicas de escritório. “Só que mesmo assim, com as oportunidades, infelizmente o racismo aparece, e poucas portas se abriram. Ainda consegui trabalhar num escritório.” No meio tempo, casou-se. Teve sua história, na qual não entramos em detalhes, mas o divórcio foi muito difícil e Naná foi tomada pela depressão.

“Não consegui voltar a trabalhar por um tempo”, conta. “Depois desse período, fiquei sem nada, nem casa, só tinha um filho pequeno. Tive fome. Aí descobri a catança. Bati na porta da Coopercata, eles me deram a oportunidade de trabalhar. Acabei me apaixonando pelo ambiente. Trabalhava com materiais que desconhecia, isso me trouxe de volta a motivação de estudar.”

O presidente da cooperativa na época era Armando Octaviano Júnior, uma das inspirações que Naná encontrou pela vida. Ele a incentivou a buscar um sonho antigo: estudar engenharia. Com a vida em melhores termos, ela então prestou o vestibular para engenharia ambiental e sanitária, conseguiu uma bolsa de estudos de 85% e agora está no quarto ano do curso na Universidade Estácio, em Santo Amaro, zona sul de São Paulo.

“Continuo catadora e sou feliz”, resume. “É a profissão que abracei. Já fui empregada doméstica, babá, a gente vê na vida muitas diferenças sociais. Quando você é doméstica, você é colocado apenas como um servo da casa. Passa humilhações, come restos debaixo da escada. Como catadora, nunca precisei comer resto de comida.”

As duas histórias de vida de Naná — entre as muitas que a reportagem conseguiu vislumbrar em conversas com a mulher de 49 anos, mãe do Gustavo, ele mesmo prestes a completar a faculdade também — se encontram então com uma emoção singular na sua participação nas oficinas literárias da Festa Literária das Periferias (Flup). Na turma das catadoras, Naná aprende ferramentas não só para colocar suas histórias ricas no papel, mas também contempla um exercício contínuo de alteridade.

“Nas oficinas, não consegui deixar de chorar um dia”, diz. “Todas as catadoras que estão participando têm histórias extremamente marcantes. São histórias de vida, de transformação, histórias que é impossível não chorar. As pessoas passaram por momentos extremos, como morar no lixão. Isso mexe muito. Estou vivendo um momento que nunca imaginei na minha vida. Essa aproximação com a obra de Carolina Maria de Jesus e com as outras mulheres da oficina é uma situação que toca na minha alma. Que toca uma essência que eu nem sabia que existia.”

Ela conta que o processo de colocar as histórias no papel — uma parte da orientação da Flup é se inspirar no método de escrita da própria Carolina — passa por um momento de reviver as experiências, o que muitas vezes não é fácil. “Quando é dado abertura para a gente trabalhar essa história, é a hora de sentar, pegar a caneta, e desabafar. Vai contar tudo que aconteceu, detalhar aquilo. Ali na verdade, é viver a realidade pela segunda vez. É tão real, e por isso que estou dizendo que é impossível não chorar. Mas além de estar revivendo, é também viver histórias que não vivi na minha própria pele. Ouvir as amigas contando é também viver as histórias delas. São experiências que motivam a lutar, a não desistir, a não parar. Não desistir do sonho, não desistir da vida. Tem sido muito marcante.”

Nesse momento da entrevista, quando a reportagem pede para ela ler um texto de sua autoria, ela vai até o quarto ao lado e traz um caderno, no qual uma de suas cartas destinadas a Carolina Maria de Jesus, cujo alcance, porém, transcende as barreiras do tempo. Na leitura, ela chora e faz chorar.

“Tenho escrito coisas sim”, explica, depois. “Ontem mesmo escrevi duas histórias. Hoje não escrevi ainda, mas vou sentar e escrever. Estou inspirada.”

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