Sotheby's/AFP
Sotheby's/AFP

Edição à prova de fogo de 'O conto da aia' vai a leilão

Margaret Atwood imaginou um desastre apocalíptico, um governo distópico e uma autora fingindo sua própria morte

Hillel Italie, Ap

25 de maio de 2022 | 20h00

Margaret Atwood imaginou um desastre apocalíptico, um governo distópico e uma autora fingindo sua própria morte. Mas até recentemente ela havia se poupado do pesadelo de tentar queimar um de seus próprios livros. Com nada mais, nada menos, que um lança-chamas. Ela não conseguiu, e esse era o ponto.

Na noite de segunda-feira, na festa de gala anual da PEN America, Atwood e a Penguin Random House anunciaram que uma edição única e à prova de fogo de “O conto da aia” seria leiloada pela Sotheby’s New York. Eles lançaram a iniciativa com um breve vídeo que mostra Atwood tentando em vão incinerar seu romance clássico sobre um patriarcado totalitário, a República de Gilead. A renda será doada à PEN, que defende a liberdade de expressão em todo o mundo.

“Na categoria de coisas que você nunca esperou ver, esta é uma delas”, ela disse em entrevista por telefone. “Ver seu romance clássico sobre os perigos da opressão renascer nesta edição inovadora e à prova de fogo é um lembrete oportuno do que está em jogo na batalha contra a censura”, disse Markus Dohle, CEO da Penguin Random House, em um comunicado.

A narrativa à prova de fogo é um projeto conjunto entre a PEN, Atwood, a Penguin Random House e duas empresas sediadas em Toronto, onde Atwood mora há muito tempo: a agência de criação Rethink e a The Gas Company Inc., um estúdio especializado em artes gráficas e encadernação.

Robbie Percy, da Rethink, disse que ele e sua colega diretora de criação Caroline Friesen tiveram a ideia. No final do ano passado, eles ouviram falar de um legislador do Texas que listou centenas de obras para possível banimento das bibliotecas escolares: Percy e Friesen se perguntaram se seria possível fazer um livro protegido da censura mais dura. Eles logo concordaram sobre “O conto da aia”, que saiu na década de 1980 e teve sua atenção renovada nos últimos anos, começando com a ascensão política e a inesperada presidência de Donald Trump e continuando com a atual onda de proibições de livros.

“Achamos que uma cópia à prova de fogo de ‘O conto da aia’ poderia servir como um símbolo”, ele disse. Percy e Friesen conversaram com os editores de Atwood no Canadá e nos EUA - ambas as divisões da Penguin Random House - e entraram em contato com a autora. Eles então entraram em contato com a Gaslight, que trabalhou em vários textos encomendados, incluindo alguns para a PEN.

O principal proprietário da Gas Company, Doug Laxdal, disse à AP que, em vez de papel, ele e seus colegas usaram Cinefoil, um produto especial de alumínio. O texto de 384 páginas, que pode ser lido como um romance comum, levou mais de dois meses para ser concluído.

A Gas Company precisou de dias apenas para imprimir o manuscrito; as folhas de Cinefoil eram tão finas que algumas poderiam se desmanchar na hora da impressão e ficar muito danificadas. O manuscrito foi então costurado à mão, usando fio de cobre de níquel.

“A única maneira de destruir esse livro é com um triturador”, diz Laxdal. “Caso contrário, vai durar muito tempo.” Atwood disse à AP que ficou imediatamente interessada na edição especial e em fazer o vídeo. Ela era uma adolescente na década de 1950, quando “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, foi publicado, e guarda lembranças vívidas do cenário futurista do romance, no qual os livros são reduzidos a cinzas.

“O conto da aia” nunca foi queimado, até onde Atwood sabe, mas muitas vezes foi sujeito a banimentos ou tentativas de banimentos. Atwood se lembra de um esforço de 2006 em um distrito escolar do Texas, quando o superintendente chamou seu livro de “sexualmente explícito e ofensivo aos cristãos”, mas isso acabou quando os alunos reagiram com sucesso. Em 2021, “O conto da aia” foi retirado de escolas no Texas e Kansas.

O romance vendeu milhões de cópias e seu impacto não é apenas por conta das palavras, mas também pelas imagens, amplificadas pela premiada adaptação da Hulu estrelada por Elisabeth Moss. Defensores dos direitos das mulheres em todo o mundo se vestiram com os figurinos puritanos que Atwood criou para sua história. Mais recentemente, algumas mulheres em trajes de aia marcharam para protestar contra a esperada anulação da Suprema Corte neste ano de Roe v. Wade, a decisão de 1973 que legalizou o aborto em todo o país.

“É uma metáfora visual inesquecível”, disse Atwood. “É por isso que as pessoas na Idade Média colocavam brasões em suas armaduras e tinham bandeiras reconhecíveis. Dessa forma, você pode visualizá-las e saber quem está defendendo o quê.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.