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Ecos da França ocupada estão em seis livros de Modiano publicados no Brasil

Premiado com o Nobel no ano passado, o escritor francês tem sua obra relançada pelas editoras Rocco e Record

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

10 Janeiro 2015 | 03h00

O ano literário começa com um ajuste de contas com o anterior: nada menos que seis livros do ganhador do Nobel de literatura de 2014, o escritor francês Patrick Modiano, chegam às livrarias entre este mês e abril, para compensar a ausência de títulos seus nas estantes brasileiras quando ele recebeu o prêmio, em outubro passado (na ocasião, havia apenas um título disponível no mercado, o infanto-juvenil Filomena Firmeza, publicado pela Cosac Naify com ilustrações de Sempé). Os três primeiros relançamentos foram publicados nos anos 1980 e 1990 pela Rocco, editora que primeiro traduziu o autor no Brasil: Ronda da Noite (La Ronde de Nuit, 1969), Uma Rua de Roma (Rue des Boutiques Obscures, 1978) e Dora Bruder (1997). A Editora Record lança mais três títulos de Modiano, o primeiro em fevereiro, Remissão de Pena (Remise de Peine, 1988), o segundo em março, Flores da Ruína (Fleurs de Ruine, 1991) e o terceiro em abril, Primavera de Cão (Chien de Printemps, 1993).

De todos esses títulos, o que resume de modo exemplar a obra e a temática de Modiano é Uma Rua de Roma, cujo protagonista, Guy Roland, é um detetive que sofre de amnésia há 15 anos e viaja até a capital italiana em busca de uma reconexão com o passado, uma pista para decifrar sua identidade. Há, de fato, algo de proustiano na literatura do francês, como apontam os críticos estrangeiros, mas menos do que alardeiam. As narrativas de Modiano são breves, suas sentenças enxutas e sua madeleine não tem o doce sabor da infância, mas o gosto amargo da maturidade.

Apenas a questão da inconsolável memória o aproxima um pouco de Proust – e muito mais de Céline, especialmente no livro de estreia, La Place de l’ Étoile (1968), em razão da ambiguidade do narrador do romance, Raphaël Schlemilovitch, apátrida e filho de imigrantes, como Modiano. Seu pai, Alberto Modiano (1912-1977), judeu de ascendência italiana, tinha como traço dominante a amoralidade de seu protagonista Schlemilovitch. Tanto que brigou com o filho por causa do livro, que marcou Modiano como um escritor judeu antissemita. O pai, também citado em Remissão de Pena, sobreviveu à Ocupação alemã, transitando livremente (sem a estrela de Davi colada à roupa) graças aos contatos na Gestapo e suas ligações com o mercado negro.

Mais tarde, Modiano retomaria o tema ao escrever o roteiro do filme Lacombe Lucien (1973), dirigido por Louis Malle. O protagonista é um garoto que, recusado pela Resistência Francesa, se envolve com a Gestapo por puro ressentimento. Obcecado pela vergonhosa história de colaboracionistas franceses durante a Ocupação nazista, Modiano escreveria ainda outros livros sobre o período, entre eles Ronda da Noite, seu segundo romance, em que o narrador protagonista, personagem baseado num colaboracionista real, trabalha simultaneamente para a Resistência e a Gestapo.

De modo geral, Modiano não se coloca à parte, apenas como espectador, nessa história sórdida. Muitas vezes assume o ponto de vista de seu narrador, tentando entender suas estranhas motivações. Em Dora Bruder, por exemplo, o cruzamento híbrido entre romance e biografia começa na pesquisa histórica empreendida por Modiano em busca de pessoas desaparecidas durante a Ocupação em Paris.

Modiano escreve Dora Bruder como uma espécie de collage cubista, contrapondo recortes de jornais a relatos de testemunhas, tudo para compreender o que teria levado ao desaparecimento, em 1941, de sua Dora Bruder, uma jovem judia de 15 anos. Por meio da investigação dessa história pessoal, ele escancara a experiência coletiva de milhares de cidadãos judeus no período. O que interessa a Modiano, sobretudo, é a personalidade rebelde de Dora, que resiste à disciplina do pensionato onde vive e busca sua independência numa fuga trágica. Dora e seus pais, que um ano antes haviam colocado um anúncio num jornal, solicitando informações sobre a filha desaparecida, foram deportados para Auschwitz em 1942.

Também esse tema do desaparecimento surge com frequência na obra de Modiano, como no recente L’Horizon (2011), em que o narrador se apaixona por uma enigmática mulher que, certo dia, some misteriosamente. Quarenta anos depois, ele busca esse amor entre fantasmas, à maneira resnaisiana. Aliás, Modiano deve mais a Alain Resnais que a Marcel Proust – o cinema é sua fonte de inspiração permanente, pois sua mãe, a atriz belga Louisa Colpeyn, trabalhou com Godard (em Bande à Part) e ele atuou ao lado de Catherine Deneuve sob as ordens de Raoul Ruiz (em Genealogia de um Crime).

Como nos filmes de Ruiz, mundo real e fictício se fundem na literatura de Modiano, que jamais tentou substituir historiadores na tarefa de reconstituir o passado. No território histórico, a ficção não tem acesso, parece dizer Modiano, especialmente em Ronda da Noite, a despeito das semelhanças entre o protagonista amoral e seu próprio pai. A ambivalência moral de seus personagens, que nunca são o que aparentam ser, desfigura essas figuras a tal ponto que Modiano não tem alternativa além de optar por uma representação paródica da realidade ordinária.

UMA RUA DE ROMA

Tradução: Herbert Daniel e Cláudio Mesquita

Editora: Rocco (224 págs., R$ 24,50)

RONDA DA NOITE

Tradução: Herbert Daniel

Editora: Rocco (128 págs., R$ 19,50)

DORA BRUDER

Tradução: Márcia Cavalcanti Ribas Vieira

Editora: Rocco (144 págs., R$ 19,50)

REMISSÃO DE PENA

Trad.: Maria de Fátima Oliva do Coutto

Editora: Record (128 págs., R$ 25; sai em fevereiro)

FLORES DA RUÍNA

Trad.: Maria de Fátima Oliva do Coutto

Editora: Record (144 págs., R$ 25; sai em março) 

PRIMAVERA DE CÃO

Trad.: Maria de Fátima Oliva do Coutto

Editora: Record (128 págs., R$ 25; sai em abril)

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