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E se Santo Antônio existisse hoje?

Santo Antônio foi o maior culto que segui na vida, junto ao de São José

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 03h00

Cresci com Santo Antônio. Havia uma imagem em minha casa, outra na casa de minha avó Branca, uma na casa da tia Terezinha, uma de minhas ídolas familiares desde a infância, e havia Santo Antônio na Casa dos Tescari, família de músicos de Araraquara, da tia Wanda, mas não havia na casa dos Malkomes, protestantes. No dia 13 de junho, aniversário de meu irmão Luis, íamos a pé até a igreja de Santo Antônio, no alto da Vila Xavier. Dava uns três quilômetros. Além de não ter ônibus para lá na minha infância, caminhar era um sacrifício dedicado ao santinho. Íamos cedo para garantir o pão abençoado. Em casa, o pão ficava numa cristaleira, nos protegendo, era trocado no ano seguinte. Não entendo porque não comíamos. 

Santo Antônio foi o maior culto que segui na vida, junto ao de São José. Por tal razão, sempre recuperei o que perdi, e ainda recupero. A imagem dele em madeira, comprada de um artesão cearense, está na estante atrás de mim. Ao perder objeto, dinheiro, documento, clamava (clamo) pelo santo e logo tudo reaparecia. Se fosse coisa mais difícil, recorríamos à tia Terezinha, que tinha um altar em sua casa. Ela comunicava: “Farei o responso, mas o santo acha se for perdido, se foi roubado, não adianta”. Ele devia ter suas razões, regra era regra. 

Questões de crença e fé não se discutem. Certa vez, fiz uma palestra em Santa Cruz do Rio Pardo e me pagaram em dinheiro vivo. Coloquei o envelope na pasta e voltei a São Paulo. Com receio, escondi o envelope entre livros numa biblioteca de milhares de volumes. Não achei mais. Pedi ao santo, mas ele ficou na dele. Oito meses mais tarde, quando precisava pagar uma dívida, ao puxar o livro Obra Poética de Renata Pallottini, não é que o envelope estava grudado no verniz da contracapa?

Essas pequenas coisas da vida cotidiana me foram reativadas no momento em que dei na livraria com uma biografia do meu santo publicada pela Planeta, escrita por Edison Veiga, jornalista que foi aqui do Estadão e da Veja, e um dia se viu em Pádua, Itália, cidade ao lado de Veneza. Sopa no mel, afinal, naquela cidade, existem 44 igrejas católicas, uma para cada santo, mas a maior é de Santo Antônio. Conta Edison que nem é preciso dizer o nome, basta citar o Santo e se sabe quem é. Conhecido igualmente como o Santo Senza Nome. Afinal, foi em Pádua, há oitocentos anos, que Frade Antônio, um franciscano, tornou-se símbolo de santidade e fé ainda em vida. Antônio – na verdade, Fernando Martins de Bulhões e Taveira de Azevedo – nasceu em Lisboa, em 1195, e seu pai era homem de posses, nobre e prefeito da cidade. Ainda na infância, fez vários milagres. Certa vez, viu um bando de aves comendo as sementes das bagas de trigo, destruindo a colheita, o que causaria enorme prejuízo. Antônio conversou com as aves, elas se reuniram em torno dele, esqueceram o trigo. Histórias como essa, em tempos de Ricardo Salles, o devastador amazônico, me encantam, e de algum modo me restauram certa fé perdida.

Duvido que a biografia passe despercebida em meio a tantos best-sellers e autoajudas. Este é um momento em que necessitamos de exemplos de grandes figuras, seja de que tipo forem. Junto a um Churchill, que manteve a autoestima e a confiança dos ingleses na Segunda Guerra, coloco esse Santo Antônio, jornada de um homem determinado, obsessivo em fazer o bem, amparar o próximo. Sua solidariedade com o ser humano, 800 anos atrás, lembra a disposição que muitos têm demonstrado hoje na batalha contra a peste que nos assola. Os que dão as mãos e o coração, organizam redes de cestas básicas, e os médicos, enfermeiras e infectologistas que vão para a linha de frente, arriscando a própria vida, ante um presidente indiferente, genocida, que diz ‘E Dai?’.

Linda história a contada por Edison Veiga, deliciosa de ler, comovente, traz alegria. Não precisa ser católico, seja lá o que você for, que fé processe, é a história de um homem que se entregou à tarefa de melhorar as condições dos desvalidos, abandonados, dos que não existem, dos invisíveis, dos que não têm voz. Leiam-se pobres, miseráveis, esfomeados, indígenas, negros e periféricos. Não há mais santos no mundo de hoje, talvez nem seja possível, mas há milhares de pessoas anônimas (ou não, e padre Julio Lancellotti é uma) se dedicando ao outro. Agradável, na biografia, são os mitos e lendas, os milagres e principalmente a capacidade que o santo tinha de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Um mistério que dá sabor, porque os mistérios estão além de nossa compreensão, daí seu fascínio. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM' 

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