'É preciso evitar leitura redutora dos textos'

Mary Gordon sustenta que Jesus é um personagem imprevisível e complexo

Lúcia Guimarães,

19 de dezembro de 2009 | 16h51

Na continuação da entrevista, a escritora americana Mary Gordon, autora de Reading Jesus, fala sobre sua leitura dos Evangelhos, o impulso religioso e a relação pessoal com a Igreja Católica.

 

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A sra. disse que estava pronta para encontrar o pior. Foi mais doloroso ler os Evangelhos ou escrever o livro?

 

Ler foi mais doloroso porque me chocou mais. Quando estava pronta para escrever, já havia processado o choque. Eu estava determinada a não piscar diante das coisas horríveis que encontrei. Pensei: se eu chegar ao fim concluindo que este é um grande texto, vou ter de examinar bem as partes que causam horror. Não dava para dizer: "Ah, se a gente adaptar a tradução, tudo se resolve." Não é essa a questão. As pessoas leram o que leram e viveram de acordo com o texto. E, às vezes, com resultados trágicos. Posso imaginar como pessoas simples leram algumas passagens e se sentiram condenadas, amaldiçoadas, confusas ou abandonadas. E também autorizadas a cometer atos terríveis. Então era preciso que eu me horrorizasse com as palavras e com o efeito que as palavras tiveram.

 

Há um capítulo sobre passagens, como a do Evangelho Segundo São João, sobre os judeus não serem filhos de Abraão e sim do Diabo. O que diria hoje a um judeu convencido de que o catolicismo é antissemita?

 

Primeiro, diria que há passagens no Novo Testamento da Bíblia que são antissemitas. Não se pode negar isso. As passagens foram usadas para justificar o massacre de judeus. Não se pode negar isso também. Mas iria sugerir que ele voltasse aos seus próprios textos sagrados e procurasse na bíblia hebraica passagens que dizem coisas como "tome os filhos dos meus inimigos e esmague seus rostos no chão". Nenhum desses textos são contemporâneos. Temos de admitir que há muita coisa nos textos sagrados que sugerem a violência, defendem impulsos sangrentos, e nos incitam à noção de que somos melhores do que outros grupos. Não digo que seja aceitável e não seja horrendo, mas quero dizer, todos os povos que têm fé precisam fazer o confronto com palavras terríveis de seus textos sagrados. Porque os textos representam o que é ser humano e também somos feitos de escuridão. Então a pergunta é: o que é válido supera o que é hediondo? Primeiro, você admite o horror e enfrenta o luto. Seria como se tivesse um parente que cometeu um crime gravíssimo. Você não pode dizer "não é meu parente". Pode até amar a pessoa. Mas se tentar negar a gravidade do crime, aí, sim, estará traindo os seus semelhantes. Temos de enfrentar o luto provocado pelo que amamos.

 

O mais famoso "editor" do Novo Testamento nos EUA foi Thomas Jefferson. Quando li sobre seu hábito de excluir partes, achei que a sua referência à tesoura era metafórica...

 

Não era metáfora, não! A cópia dele da Bíblia tinha páginas cortadas e arrancadas. Não seria fácil se a gente pudesse selecionar o que ler? É a diferença entre ser pós-moderno e pertencer ao Iluminismo. Não posso dizer simplesmente que sei o que o texto quer dizer. De alguma forma, todos nós lemos usando a tesoura psicológica. E psicologicamente esquecemos o que não queremos ler. É importante resistir a esse impulso.

 

Quanto as suas posições sociais progressistas entraram em conflito com o Jesus mais intransigente? O voluntarioso que amaldiçoa a figueira à morte porque tem fome e ela não dá figos?

 

Não me importo com o Jesus intransigente, porque na maioria dos casos a intransigência dele é justificada - é sobre dinheiro e poder. Frequentemente acho que ele está certo. O que me perturba não é a intransigência, é a inconsistência. Quando ele diz que você não pode se divorciar, a não ser que a mulher cometa adultério, eu me pergunto: "O que é isto?" A posição de Jesus sobre o divórcio é terrível. Ele diz "o portão é estreito, o caminho, difícil" e, ao mesmo tempo, afirma que seu "fardo é leve e fácil", qual das duas afirmações é válida? Todo mundo vai passar pelo portão ou você precisa de uma vestimenta especial? Isso foi difícil para mim - faço a paz com a espada ou ofereço o outro lado da face? Ele diz as duas coisas. Então, quem é essa pessoa? No fim das contas, eu concluí, é isso que faz dos Evangelhos um texto que nos compele. Não é simples. Seja ele um personagem ou uma pessoa, possui riqueza humana que toca em tons humanos importantes. Às vezes conhecemos sua ira, às vezes vemos como ele é humano e rompe tradições; às vezes ele é um esnobe. Ele nos engaja, porque não é simples.

 

O Filho Pródigo é a primeira narrativa da sua memória de criança. E é lembrada como exemplo da arbitrariedade e da injustiça. O filho que fica não é exaltado, o que volta é festejado.

 

Jesus definitivamente não é um protestante! (risos) Felizmente tivemos o Iluminismo, mas ele não é uma figura iluminista. É algo diferente de justiça. Bom comportamento não interessa especialmente a Jesus. O tipo de justiça que interessa a ele é o amor além do merecido. É o tipo de coisa que o define e é difícil para nós, porque queremos ser recompensados por bom comportamento. "Trabalhei duro a vida toda, como é que essas pessoas estão passando à minha frente?" Bem, isso não é Jesus.

 

Por que ele é tão interessante como personagem de ficção?

 

Porque ele é tão imprevisível. Ele nos força a pensar em novos termos.

 

A senhora disse que queria ler os Evangelhos de forma a se relacionar com as palavras de Simone Weil: "Acima de tudo, nosso pensamento deveria ser vazio, esperar, não buscar nada, mas estar pronto para receber, em sua verdade nua, o objeto que vai ser penetrado."

 

Eu acredito que esta é a forma de se aproximar do texto, de tentar pensar, isto não é sobre o eu. Não é o meu Jesus, o meu Novo Testamento. É preciso ser porosa para poder ser surpreendida, chocada, emocionada, perturbada. As ideias preconcebidas são como fortalezas.

 

Mas se o impulso religioso contém a tentativa de lidar com o medo da morte, de sentir consolo, como lidar com tanta incerteza?

 

É totalmente compreensível, mas não vejo outra saída. O consolo precisa ser mais vasto, talvez mais vago, menos subordinado à nossa própria imagem. Se o seu consolo é "vai dar tudo certo porque vamos todos ser felizes no paraíso", então que consolo é esse para quem sofreu horrores na Terra? É quando a esperança chega. Sou muito interessada na esperança. Qualquer tentativa de arranjar uma explicação simples para o sofrimento e o mal é grotesca. Acho que temos uma esperança de um amor e uma benevolência que não se reduz aos nossos termos. Se continuarmos reduzindo isso aos nosso termos, vamos continuar nos decepcionando. A realidade que se opõe a isso é dura demais. Então, acho que a consolação é maior, mais vaga e mais estranha do que um presente no céu.

 

Se os Evangelhos contêm tanta contradição humana, a senhora considera que o catolicismo perdeu terreno por causa de suas virtudes?

 

Não. O catolicismo perdeu terreno por causa de seus vícios. Uma causa da emergência das Igrejas Evangélicas na América Latina e no Brasil, especialmente, foi a decisão do Vaticano de acabar com a Teologia da Libertação. Foi uma ação muito deliberada e, suponho, bem-sucedida. Conseguiram o que queriam.

 

A senhora fala do intenso engajamento político de João Paulo II.

 

E o novo papa é pior ainda. Havia um romantismo do público em relação a João Paulo II. Dom Oscar foi pedir ajuda ao papa duas semanas antes de ser assassinado e fez o apelo: "Por favor, use sua voz, me proteja dessa gente, não me sinto seguro." E dom Romero foi morto. João Paulo II apenas lhe desejou boa sorte. Jesuítas foram mortos porque não tiveram proteção da Igreja. Então, o movimento que lidava com a desigualdade e a pobreza foi morto pela fobia antimarxista.

 

Como administra sua relação com a Igreja Católica atualmente?

 

Costumo dizer que não fazemos nada abaixo da cintura(risos). Não acho que a Igreja seja o Vaticano. A Igreja é dos fiéis e da longa história e de sua expressão de pensamento em culturas diferentes. Se achasse que fosse um punhado de caras de bata em Roma, já teria caído fora. Mas a Igreja é muito maior do que isso. Inclui uma tradição bonita, como também derramamento de sangue e riqueza humana. Gosto de me sentir parte de uma religião internacional.

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