E no início, o teatro

Roberto Faria chama atenção para o fato de que Machado já estava com 31 anos quando escreveu seu primeiros contos. Até então, dedicara-se ao teatro

Beth Néspoli,

26 de setembro de 2008 | 23h59

Foi bem maior do que se pensa o envolvimento de Machado de Assis com o teatro. Com essa idéia na cabeça e jornais do século 19 em mãos, diferentes publicações abrangendo mais de 30 anos, cuidadosamente pesquisados em bibliotecas e arquivos do Rio de Janeiro e cidades como São Luís do Maranhão, o historiador João Roberto Faria iniciou seu trabalho em 2003. O resultado acaba de sair num livro de 679 páginas, editado pela Perspectiva, com o título Machado de Assis do Teatro, que reúne se não tudo, quase tudo o que foi publicado pelo autor de Dom Casmurro sobre a cena dramática - artigos, críticas e pareceres como censor do Conservatório Dramático.  Um romance pelo avesso Corpo de pedra sem nenhum rosto 'As casas de Machado não tinham jardim' Concisão com HQ e cordel Diário da loucura Os críticos versus o enigma O pai da prosa brasileira Um escritor saudosista Do primeiro texto, escrito aos 17 anos, no jornal A Marmota Fluminense, durante anos o interesse de Machado pelo teatro só se amplia. De pequenos periódicos, como O Espelho, passa a publicar em jornais de maior alcance, como Diário do Rio de Janeiro. E ainda colabora na Semana Ilustrada, Gazeta de Notícias e Imprensa Acadêmica, entre outros. Tudo laboriosamente transcrito nesse livro que traz ainda textos inéditos, pelo menos jamais citados por estudiosos, como uma carta a Maria Ribeiro na qual Machado comenta o drama Gabriela. Roberto Faria chama atenção para o fato de que Machado já estava com 31 anos quando escreveu seu primeiros contos. Até então, dedicara-se ao teatro. Num esclarecedor estudo introdutório, de mais de cem páginas, o pesquisador e organizador desse precioso livro disseca não só a evolução de Machado como crítico, mas também possíveis motivos da perda de seu entusiasmo. Depois de ter-se engajado em forte campanha por subsídios ao teatro, ele aos poucos volta seu olhar crítico para a literatura e, mais tarde, já maduro, também seu talento criador. O papel de censor do Conservatório é ato reprovável em Machado?Nossa memória recente da censura na ditadura militar pode causar desconforto quando pensamos que Machado foi censor do Conservatório Dramático. Acho que é preciso separar as coisas. Ele não exerceu uma atividade policial. Uma peça liberada pelo Conservatório podia ser proibida pela Polícia, como aconteceu com As Asas de Um Anjo, de José de Alencar. O papel dos censores era limitado e para Machado qualquer pessoa podia fazer esse trabalho. Por isso, ele defendeu uma reforma do Conservatório, que lhe desse uma finalidade intelectual - algo que nunca ocorreu. Preocupado com o baixo nível de certas peças e espetáculos, Machado queria um corpo de censores formado por pessoas cultas e que os pareceres fossem divulgados para haver transparência e responsabilidade. O mérito literário seria fundamental para a aprovação das peças. Se essa posição hoje parece autoritária, na época era partilhada por muitos intelectuais que acreditavam que o governo devia zelar pelo patrimônio artístico da nação. É pura especulação afirmar que o teatro brasileiro seria melhor hoje se Machado tivesse tido êxito em sua luta por subsídio?Machado de Assis foi incansável defensor do amparo governamental ao teatro. São muitos os textos em que se manifesta sobre a questão, lamentando sempre o abandono do teatro à sua própria sorte. Um dos mais interessantes é uma polêmica travada com Macedo Soares, para quem o teatro devia submeter-se à doutrina liberal da concorrência. Machado subiu o tom e respondeu que o teatro não era uma "indústria", que as peças não eram "mercadorias", e que o governo devia, sim, ter uma responsabilidade em relação à arte. Isso soa muito atual, não? Machado defendia a criação de uma companhia dramática administrada pelo governo, junto da qual funcionaria uma escola de formação de atores. Infelizmente, ele não foi ouvido. Agora, dizer que o teatro seria melhor hoje se sua campanha tivesse dado certo é especular demais. Talvez tivesse tido uma evolução diferente, com espaço para um teatro literário, que foi sufocado nas últimas décadas do século 19 pelo teatro cômico e musicado.

Mais conteúdo sobre:
Machado de Assis

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.