É difícil achar uma escritora como ela

Flannery O'Connor é lembrada em obra fascinante 44 anos após sua morte

Janet Maslin, THE NEW YORK TIMES

28 de fevereiro de 2009 | 00h00

O fascinante livro Flannery, uma obra que podemos considerar definitiva, é a primeira importante biografia de uma escritora que morreu há 44 anos. Onde está todo o outro abundante material biográfico sobre esta mística escritora sulina, uma personalidade excêntrica, ardentemente admirada? Houve pelo menos outro relato da vida de O'Connor (de autoria de Jean W. Cash que foi considerado apenas "um passo na direção certa" pela revista Publishers Weekly, em 2002).

E também muitas obras críticas, em livro, sobre sua obra, mas há muito tempo a autora merecia a extraordinária biografia escrita por Brad Gooch. Flannery - A Life of Flannery O'Connor (ilustrado, Little, Brown & Company, 448 págs.) revela não apenas por que um tema excepcionalmente repleto de minúcias justifica tanta atenção, mas também o motivo pelo qual demorou tanto para aparecer. Aqui estão alguns dos fatos mais notórios a respeito da autora de Wise Blood (Sangue Sábio), A Good Man Is Hard to Find (É Difícil Encontrar Um Homem Bom) e outros contos.

Ela criava pavões, sofria de lupus, e morreu aos 39 anos por causa da doença, tendo vivido exclusivamente com a mãe em Andalusia, a fazenda da família em Milledgeville, Georgia, no sul dos Estados Unidos. Seus sentimentos a respeito da questão racial eram, na melhor das hipóteses, nada caridosos, e aparecem em sua obra. Ela combinou sua compreensão do sexo de menina de 12 anos na fusão, que já prenunciava a época em que a mulheres assumiriam papéis masculinos, de sensibilidades góticas sulinas, escandalosamente medievais, em sua maneira mordaz de contar histórias, carregadas de inspiração teológica. Nenhuma dessas coisas se presta facilmente à indagação biográfica. Mas Gooch, reafirmando o gosto inteligente que demonstrou em sua biografia do poeta Frank O'Hara, de 1933, é um acólito inusitadamente paciente.

O autor conta que quando manifestou pela primeira vez interesse em escrever uma biografia de Flannery O'Connor (1925-1964), há cerca de 30 anos, foi esnobado por uma amiga da escritora, Sally Fitzgerald, que planejava escrevê-la, mas acabou deixando um manuscrito inacabado ao morrer, em 2000. Gooch, que começou a trabalhar no livro em 2003, viajou pelo mundo na esperança de penetrar na mística de O?Connor.

Flannery talvez transmita uma ideia da artista como um personagem meramente caseiro, entretanto Gooch foi da Georgia ao Iowa e depois para Lourdes, seguindo a trilha de migalhas de pão que ela deixou atrás de si. Além disso, pôde consultar uma correspondência extremamente esclarecedora, recém-revelada, entre O'Connor e sua amiga Betty Hester, que tinha por ela uma paixão arrebatadora. E encontrou ainda cartas não publicadas da escritora e Erik Langkjaer, o raro personagem masculino que, ao que se saiba, se sentiu romanticamente atraído por ela. O livro de Brad Gooch carece da dimensão de uma vigorosa crítica literária.

A obra de Flannery O'Connor não surge vívida nas páginas desta biografia, salvo quando Gooch procura as origens de incidentes e de ideias. Mas a voz áspera, espirituosa e irreverente de O'Connor, imune à vaidade, está muito em evidência. Flannery conquista o espírito da mulher que descreveu a Betty Hester seu talento do seguinte modo: "Pertenço a uma família em que a única emoção respeitável que se podia manifestar era a irritação. Em alguns esta tendência produz urticária, em outros literatura, em mim produziu ambas as coisas".

Como às vezes se agarra a minúcias, o livro começa dando grande importância a um incidente da infância que influiu consideravelmente em sua formação: um pedacinho de noticiário cinematográfico da Pathé, de 1932, intitulado Unique Chicken Goes in Reverse (Galinha peculiar anda para trás), em que aparecia a pequena Mary Flannery O'Connor com uma de suas primeiras amigas com penas. O que isso poderia prenunciar a respeito da escritura adulta? Como foi que a galinha a levou aos pavões? Que ligação se estabeleceu em sua mente devotamente religiosa entre as penas das aves e as asas dos anjos? Gooch não responde a essas perguntas, mas escreveu um livro provocador sobre uma mulher excêntrica que costurava roupas para as suas aves.

Sacrificando seu primeiro nome à carreira literária ("Quem compraria os livros de uma lavadeira irlandesa?", brincava aludindo ao fato de não querer ser Mary O'Connor), trabalhou por algum tempo, mas com resultados memoráveis, como cartunista nos primeiros anos de faculdade. Costumava assinar M.F.O.C. e usava a forma corriqueira, M.F. O'Connor" ao assinar os álbuns de fotos da classe. Entrou com sucesso na Oficina de Escritores de Iowa e na Yaddo, a colônia de artistas de Saratoga Springs, Nova York, numa época em que a vida em ambos os lugares era consideravelmente movimentada, mas conseguiu evitar os problemas.

Quando seu amigo Robert Lowell começou a mostrar um comportamento muito estranho em Yaddo, lembrou mais tarde: "Eu era demasiado inexperiente para perceber que ele estava louco; achava que os poetas se comportavam assim." Era muito amiga de casais, como Lowell e sua resposta Elizabeth Hardwick, e outros, sem ter ela própria um par. Mas parecia mais à vontade em sua reclusão em Andalusia, cercada de pássaros e recebendo a visita de literatos ocasionais. "Mr. Giroux, o sr. não poderia fazer com que Flannery escrevesse sobre pessoas boas?", sua mãe pediu certa vez ao editor Robert Giroux, mas ela as próprias ideias a respeito do significado de boas. "É um maravilhoso livro para crianças", falou do lançamento de To Kill a Mockingbird (O Sol É para Todos), de sua colega sulina Harper Lee.

Quando indagou sobre os filmes "deste Ingmar Berman", quase chegou a identificá-lo como um espírito afim ao seu, imerso no rigor espiritual. "Parecem medievais", disse, analisando o que aproximava suas obras das dele. O?Connor falou a Hester de um cinema de Milledgeville no qual estava sendo exibido Wild in the Country, com Elvis Presley, sobre "o trabalho de reabilitação de um jovem delinquente interiorano". "Então se dedicou com grande prazer a criar o seu jovem personagem do interior, Rufus, requebrando em um corredor vestido com o espartilho da falecida mãe de Norton, berrando Shake, Rattle and Roll, de Elvis Presley", escreve Gooch em The Lame Shall Enter First (O coxo entrará primeiro).

O que torna Flanney uma obra tão valiosa é o grau de intimidade com o qual capta a sensibilidade da escritora nesta história. O que cria um vácuo é o emprego de Gooch da palavra "so" (assim, desse modo, então, tão). Neste "so" há algo que ele não consegue compreender. Há ainda uma parte de O?Connor que realmente não conhecemos. Todos os Contos

VALE A PENA CONHECER:

Todos os 31 contos de Flannery O'Connor foram reunidos no ano passado, num único volume, pela editora Cosac Naify: Contos Completos (tradução de Leonardo Fróes, 720 págs., R$ 79). A autora é um dos maiores nomes da literatura moderna do Sul dos Estados Unidos, representada por ninguém menos do que William Faulkner, William Styron e Truman Capote. Seu repertório temático envolve fanáticos religiosos, racistas irrecuperáveis e tipos grotescos. A atualidade dos contos de Flannery é assustadora o bastante para seduzir tanto acadêmicos como cantores pops: Bruce Springsteen e Tom Waits fizeram versões musicais de seus contos. Ambos, por exemplo, criaram canções baseadas no conto Um Homem Bom É Difícil de Encontrar, que está no volume da Cosac Naify. O escritor Cristóvão Tezza, autor do posfácio desta edição brasileira, ressalta a violência dos contos de Flannery, o que, segundo ele, mostra o quanto a escritora, conservadora e católica, não deixou a crença religiosa influenciar sua arte.

 

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