Navah Wolfe/Editora Suma
Navah Wolfe/Editora Suma

'É Assim que se Perde a Guerra do Tempo' mescla literatura epistolar e ficção científica

Obra de Amal El-Mohtar e Max Gladstone retrata a relação entre espiãs inimigas futuristas que descobrem, por meio da troca de correspondências, ter muito mais em comum do que pensavam

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 15h00

Red e Blue são inimigas mortais. É tudo o que elas sabem uma da outra quando se conhecem. Ambas são espiãs que viajam pelo passado e pelo futuro fazendo pequenas intervenções para mudar os rumos da história de acordo com os interesses de suas respectivas organizações. Quando elas começam a se corresponder por meio de “cartas” (que podem ser escritas por meio de códigos entranhados nos anéis de uma árvore ou nos movimentos de uma abelha no ar), passam a perceber que têm mais em comum entre si do que acreditavam. É Assim que se Perde a Guerra do Tempo. Esse é o título, aliás, do livro escrito a quatro mãos pela canadense de origem libanesa Amal El-Mohtar e pelo norte-americano Max Gladstone.

Nesse livro, que venceu os principais prêmios de ficção científica, Hugo, Nebula e Locus, na categoria de novelas, duas facções rivais estão eternamente em guerra pelo controle de uma infinidade de dimensões e linhas cronológicas. A Agência, para a qual Red trabalha, é um regime hipertecnológico em que as pessoas vivem em realidades virtuais com suas mentes em upload na nuvem. Já o Jardim, para o qual Blue trabalha, é uma sociedade que funciona como uma colmeia de jardineiros que cultuam a natureza acima de tudo. Em nenhum, há liberdade ou individualidade. 

O trabalho das protagonistas consiste em viajar pelo tempo, cumprindo missões pra alterar determinados eventos. Por exemplo, influenciar um povo polinésio farto em prata a construir barcos para, no futuro, solucionar a escassez de prata na China imperial. Ou viajar ao futuro e roubar uma placa radioativa que é sagrada para uma seita cyberpunk. Toda vez Red ou Blue está em uma dessas missões, seja no canato mongol de Genghis Khan, seja num templo de uma religião esquecida, a rival sabota sua tarefa e deixa uma missiva. Essa é a estrutura básica do livro, que abre mão de cenas de ação como se vê na maioria das histórias de viagens no tempo, de H.G. Wells a De Volta para o Futuro.

No início, as mensagens são mais provocativas; com o tempo, Red e Blue vão construindo intimidade e suas correspondências ganham tons de intimidade e até de subversão. Apesar de terem sido condicionadas de modo a odiarem uma à outra, começam a desenvolver afeição mútua. “Fico pensando em como somos um microcosmo da guerra como um todo, você e eu”, escreve Blue. “Meu mundo élfico de vinhas-colmeias, como você disse, versus sua distopia tecnomecânica.”

A metáfora central de É Assim que se Perde a Guerra do Tempo é um alerta aos nossos tempos: tiranias sempre tentarão subverter a história de maneira revisionista e de modo a impor sua visão de mundo. Cabe aos indivíduos resistirem por meio do diálogo e da compreensão mútua. E, por vezes, do amor e do afeto.

Embora, com as novas tecnologias de comunicação, a literatura epistolar pareça fadada ao declínio, a obra de El-Mohtar e Gladstone encontra um ponto de convergência inesperado entre esse gênero tão antigo e a ficção científica: “Cartas são um tipo de viagem no tempo, não é?”, indaga Red. De certa forma, livros também. Como escreve o autor argentino Alberto Manguel em Notas Para uma Definição do Leitor Ideal, o advento da escrita “eliminou de repente os dois maiores obstáculos comos quais todo ser humano se depara, o tempo e o espaço”, concedendo “uma espécie de modesta imortalidade”.

Leia a seguir trechos da entrevista que Amal El-Mohtar e Max Gladstone cederam ao Estadão por videoconferência:

A ficção científica tem um histórico de parcerias bem-sucedidas, como William Gibson e Bruce Sterling, os irmãos Strugatsky ou Daniel Abraham e Ty Franck. Como foi o processo de escrita a quatro mãos?

Amal El-Mohtar: Max e eu sabíamos ter diferentes estilos de escrita. Em vez de misturar os estilos, pensamos: por que não usar personagens que tenham nossos estilos? Estávamos em uma residência de escrita em julho de 2016 e escrevíamos um de frente para o outro. Discutíamos alguns pontos primeiro e então, enquanto um escrevia a carta, o outro escrevia a situação que a originou. O único problema é que Max escrevia muito mais rápido. Eu sou relutante em colocar palavras na página se não sinto que elas se encaixam precisamente, mas ele escreve e reescreve muito rapidamente. Com o tempo, passamos a sofrer influência um do outro e no final já estávamos acabando no mesmo tempo. Esse retorno imediato que você não tem quando escreve sozinho foi uma experiência muito positiva e energizante. 

Max Gladstone: É isso mesmo. Nós já nos conhecíamos muito bem, então escolhemos o formato da narrativo de modo a proteger o estilo de cada um, mas fomos nos influenciando mutuamente ao longo do processo.

O livro nos faz refletir sobre as pequenas coisas que poderiam ter mudado o curso da história. Mas há sempre a ideia de que a grande marcha dos acontecimentos é indiferente aos indivíduos. O quanto a ação individual influencia no desenrolar dos eventos históricos?

Max: Não discutimos muito isso, foi algo mais intuitivo. De um lado, quando discutimos a história com H maiúsculo, é fácil ver que as possibilidades de escolha dos humanos são restritas pela realidade socioeconômica. É difícil ver pequenos detalhes que mudem muito a história. Mas ao mesmo tempo, quando olhamos com atenção, encontramos algumas coisas. Se a peste não tivesse deixado Isaac Newton em lockdown, talvez ele tivesse levado mais tempo para chegar aos seus resultados e outra teoria poderia ter surgido nesse meio-tempo para explicar a gravidade. Talvez não faça diferença, talvez faça uma diferença imensa. É muito difícil dizer. Quando se mexe com as variáveis, tudo cai em cascata.

Amal: Algo que nós discutimos foi que tipo de viagem no tempo queríamos. Cada modelo serve a uma história diferente, para abordar angústias diferentes. Memória, trauma, examinar nossas ideias sobre origem, todas essas coisas podem funcionar com determinados modelos. Queríamos um tipo de multiverso onde cada mudança criasse um novo universo, também para reconhecer o papel da interpretação. Temos uma narrativa dominante da história que muda de uma geração para a outra. Às vezes, de uma mesma informação, criamos narrativas que beneficiam um grupo em detrimento do outro. Ao estudar história, nós estamos mudando o passado porque estamos mudando o nosso entendimento do passado. Queríamos explorar isso com nosso multiverso cheio de filamentos onde se criam novas realidades, porque, na vida real, sempre que se descobre algo sobre o passado, isso muda o entendimento da história.

Então de certa forma podemos dizer que o livro trata de revisionismo?

Amal: Escrevemos pouco depois que o Brexit foi aprovado, então tínhamos essa noção em mente. Estávamos preocupados com a ascensão do fascismo e de grupos supremacistas brancos pelo mundo. Mas uma coisa que temos sempre o cuidado de dizer é que o Jardim e a Agência não são alegorias para governos atuais. 

A relação entre Red e Blue sugere a busca por diálogo em um mundo polarizado?

Max: O que as une é esse lento reconhecimento, essa compreensão do que elas compartilham. Em alguns casos, valores em comum; em outros casos, respeito pela opinião alheia. Elas se impressionam uma com a outra. De certa forma é uma história sobre se aproximar vindo de posições diferentes, mas também é sobre perceber que elas não estavam em posições tão diferentes. Eram apenas vítimas de uma estrutura que as colocava uma contra a outra.

Amal: Elas estão em uma relação muito simétrica, são iguais e opostas. Para ter essa relação era importante que um lado não estivesse correto e que os dois estivessem, digamos, igualmente errados por conta de seus aspectos intolerantes. A decisão de não ter nenhum dos futuros como uma alegoria para governos existentes é que nosso mundo é cheio de complexidades e assimetrias. Temos de fato lados que devem ser combatidos. 

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