Reprodução/Twitter
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Douglas Stuart parte de suas lembranças para criar uma ficção

Em seu romance ‘A História de Shuggie Bain’, escocês conta a história de um garoto queer e sua relação com a mãe alcoólatra

Alessandro Hernandez, Especial para o Estadão

19 de janeiro de 2022 | 07h00

Em A História de Shuggie Bain (Intrínseca), o cenário e as personagens poderiam estar facilmente retratados no cinema do britânico Ken Loach, que apresenta geralmente em seus filmes a classe trabalhadora britânica e suas dificuldades financeiras com conflitos emocionais envoltos na relação familiar. 

O romance de estreia do escocês Douglas Stuart, vencedor do Booker Prize 2020, faz um percurso pela cidade de Glasgow, um dos polos industriais mais importantes da Escócia, no período da década de 1980, marcada pelo seu declínio quando milhares de mineiros estão desempregados. 

As quinhentas páginas do livro, que se mantêm com grande fôlego, percorrem a cartografia da cidade para contar a história de um garoto queer e sua relação com a mãe alcoólatra. O autor define o romance como uma saga familiar e, neste sentido, podemos facilmente apontar semelhanças com clássicos da literatura onde acompanhamos o percurso de famílias em torno de um propósito, assoladas por condições precárias de sobrevivência. Vimos isso em As Vinhas da Ira, escrito em 1939 por John Steinbeck; e em Enquanto Agonizo, de 1930, romance de William Faulkner. Já o estadunidense Frank McCourt retratou, em As Cinzas de Ângela, a trajetória de uma família que sai de Nova York e retorna para a Irlanda, em condições de extrema pobreza. Há nesta obra a figura do pai alcoólatra e o livro é resultado das memórias do autor. 

 Douglas Stuart também se vale de suas lembranças para criar uma ficção. Ele viveu a infância em Glasgow, junto à classe operária, marcado pela homofobia e pela pobreza, no convívio com uma mãe alcoólatra. Se o título do livro traz como referência o nome da criança, é a personagem da mãe, Agnes Bain, com sua intensidade e fragilidade, que melhor se materializa em nosso imaginário. Construída como uma heroína trágica moderna, ela por vezes nos faz lembrar de Blanche Dubois, de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, onde todos os percursos a direcionam para a derrocada. Não à toa, na apresentação da personagem, já identificamos toda sua carga poética e dramática numa tentativa imaginária de suicídio: “Agnes Bain afundou os dedos dos pés no carpete e se curvou ao máximo para o ar noturno... Alongando um pouco as panturrilhas, ela apoiou o osso do quadril no caixilho da janela e abandonou a estabilidade dos dedos. Seu corpo se inclinou em direção às luzes amarelas da cidade, e seu rosto ficou ruborizado pelo sangue. Ela esticou os braços para as luzes, e por um breve instante estava voando. Ninguém reparou na mulher voadora”.

Boa parte do romance se passa em Pithead, em um conjunto habitacional onde uma mina de carvão foi desativada e os homens, por conta disso, estão sem emprego. É para lá que Shug, o pai do protagonista, leva a família e os abandona. Agnes passa a viver neste novo povoado com seus dois filhos e uma filha que, ao longo da trama, não aguentam os problemas da mãe por conta do alcoolismo e partem para outras regiões. O caçula Shuggie é o único que persiste em acompanhá-la.

Chama atenção no livro a violência como prática natural das relações neste meio em que estão inseridos. É neste conjunto habitacional, nos núcleos familiares e na escola que acompanhamos a violência incutida nas vidas das personagens. Ela se dá em todas as esferas: entre irmãos, entre mães e filhos, nas crianças, entre a vizinhança que quer o tempo todo degradar Agnes pelo seu vício e principalmente na relação com o garoto Shuggie, por todos verem nele “algo de errado” e identificarem o estranho e o diferente. 

Em uma das cenas mais violentas de bullying sofridas pelo protagonista em uma partida de futebol na escola, na qual até o professor compartilha dessa atitude de ódio, quem acolhe Shuggie é uma garota que, quando ele diz nunca tê-la visto, ela responde: “Eu já tinha visto você. Todo mundo já viu você”. Em seguida, os dois passam uma tarde no trailer onde ela mora brincando com pôneis coloridos e descobrem semelhanças – a garota vive sozinha com seu pai alcoólatra que perdeu o emprego na mina de carvão. 

Douglas Stuart apresenta essa violência sofrida principalmente pelo protagonista do romance, mas também em outras relações, como fruto desse meio onde os homens se sentem desqualificados por seus empregos perdidos. Quando Shug dirige seu táxi, uma vez que já não trabalha mais na mina, olha para a cidade e faz um prenúncio: “Todos os rapazes de conjuntos habitacionais que herdariam o ofício dos pais agora não tinham futuro. Homens perdiam a própria virilidade”. 

Virilidade tão determinante para a violência que mata as diferenças e não permite que corpos possam ser livres. Afinal de contas, Agnes Bain incomoda não por ser alcoólatra, mas por ser uma mulher alcoólatra, assim como Shuggie Bain é visto por grande parte da comunidade em que está inserido como o menino que precisa se normalizar. 

Trecho: O início do capítulo ‘1992 South Side'

O dia estava monótono. Naquela manhã a mente o abandonara e deixara seu corpo vagando lá embaixo. O corpo vazio cumpriu sua rotina com apatia, pálido e de olhar inexpressivo sob as luzes fluorescentes, enquanto a alma pairava sobre os corredores e só pensava no dia seguinte. O dia seguinte era algo pelo que ansiar.

Shuggie era metódico ao se preparar para o expediente. Todos os potes de pastas e molhos gordurosos eram despejados em bandejas limpas. Enxugava das bordas quaisquer gotículas que fi cariam amarronzadas e arruinariam a ilusão de frescor. Os presuntos fatiados eram engenhosamente arrumados com ramos de salsinha fajutos, e as azeitonas eram viradas para que o sumo viscoso escorresse feito muco sobre a casca verde. 

Ann McGee tivera a cara de pau de ligar de manhã para avisar que estava doente, deixando-o com a missão ingrata de gerenciar seu balcão de delicatessen e a rotisseria dela sozinho. Dia nenhum começava bem com seis dúzias de frangos crus e, logo hoje, eles roubavam a doçura de seus devaneios. 

Ele furava com espetos industriais cada uma das aves mortas, frias, e as alinhava impecavelmente em uma fileira


Serviço

Título: A História de Shuggie Ben 

Autor: Douglas Stuart 

Editora: Intrínseca 

Ano de Edição: 2021

R$ 79,90

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