Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Dor de Beth Goulart se torna livro sobre afeto e arte em família

'Viver é Uma Arte: Transformando a Dor em Palavras' fala sobre relação da atriz com seus pais, Paulo Goulart e Nicette Bruno, que morreram em 2014 e 2020

Kátia Mello, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2022 | 05h00

É a própria Beth Goulart que vem atender a porta e com delicadeza pede para a repórter se acomodar no apartamento que era de seus pais, os atores Nicette Bruno e Paulo Goulart, no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Ali, tudo remete ao casal que durante tantos anos entrou nas casas brasileiras pelas novelas e encantou plateias no teatro e no cinema. Uma boneca com o vestido da noiva Nicette, um quadro da avó materna, fotos antigas da família em um velho baú. 

A perda de Paulo, levado por um câncer, em março de 2014, fez com que mãe e filha se unissem em 2015 na peça Perdas e Ganhos, baseada no livro de Lya Luft, em um ato de superação da dor. A combinação era que também escreveriam um livro de memórias. Beth seria a narradora e a mãe faria as costuras. Mas a covid-19 levou Nicette, em dezembro de 2020. 

Restou a Beth dar cabo da escrita, agora somando mais uma perda, a da mãe. Viver é Uma Arte: Transformando a Dor em Palavras (Letramento), a ser lançado no dia 28, é o primeiro livro da atriz, dramaturga e diretora. “Duas gerações diferentes, que se uniram para contar a mesma história. Para mim, foi muito forte e transformador”, diz Beth ao Estadão.

O livro Viver é Uma Arte, que nos leva a refletir sobre a finitude e ressignificar a vida, é comovente. Carrega a humanidade de Beth Goulart, como bem aponta a escritora Nélida Piñon no prefácio. “Falamos um pouco sobre a nossa filosofia de vida, a morte, os processos cíclicos de aprendizado que é a própria vida”, explica a atriz.

O ator Paulo Goulart costumava chamar a atenção dos filhos para o tripé família, fé e trabalho, que se tornou a base de vida de Beth. A família é espírita e quando Nicette foi para a UTI em razão da covid-19, a atriz decidiu compartilhar a doença da mãe com o público nas redes sociais, dividindo as dores e esperanças. “Eu vi o momento tão doloroso que você aguentou com tanta esperança e fé cristã... Nunca vi o rosto da Nicette sem estar na luz, com luz, para a luz ”, escreveu a atriz Fernanda Montenegro no posfácio do livro. 

Ancestralidade

Mulheres fortes sempre marcaram a trajetória de Beth, como relata no livro. A atriz é descendente de bisavó e avó que cursaram medicina em uma época em que as mulheres eram desencorajadas a estudar e trabalhar. “Meu avô pediu para minha avó escolher entre ele e a faculdade e ela escolheu a faculdade”, conta ela rindo. A avó ainda cantava em um cassino e Nicette começou a estudar piano cedo, querendo ser concertista. Na fase adulta, ela chegou a ter três companhias de teatro. Ao montar a peça Senhorita, Minha Mãe, em São Paulo, precisou de um ator. Foi quando conheceu Paulo. 

Beth Goulart e a irmã Bárbara cresceram nas coxias do teatro, vendo os pais atuarem. Como ela conta em uma passagem divertida do livro, aos dois anos invadiu o palco atrás do pai, virou-se com a calcinha para o público, já em gargalhadas, e foi capturada pela avó. 

Para a atriz, esse momento na infância se tornou emblemático ao retratar seu destino de seguir os passos dos pais, estreando nos tablados com a peça O Efeito dos Raios Gama Sobre as Margaridas do Campo, sob a direção do dramaturgo Antônio Abujamra, com quem Nicette e Paulo trabalharam durante muitos anos. Foi justamente durante essa peça, como relata Beth, que ela aprendeu uma das lições que a mãe lhe deixou: sempre estimar seu público. Em uma das apresentações de Os Efeitos dos Raios Gama, havia nove espectadores, sendo apenas um pagante. Quando o produtor perguntou se Nicette gostaria de cancelar o espetáculo, ela respondeu que fariam o melhor. Esse único pagante era um empresário que comprou 100 espetáculos para seus funcionários, impulsionando o sucesso da montagem. “Aquilo foi uma lição de generosidade.” 

Beth diz que seus pais lhe ensinaram a nunca se deslumbrar com o sucesso. “Desde a infância já tinha a referência de que éramos operários da arte, pessoas que vivem de seu ofício, dedicando o seu melhor. Enfrentamos todas as dificuldades do caminho, porque fazer arte no Brasil é uma pedreira.” 

Em suas reflexões, a atriz conclui que foram os personagens que lhe trouxeram ensinamentos. E cita a peça a Simplesmente Eu, Clarice Lispector, em que ganhou o Prêmio Shell ao interpretar a escritora. “A Clarice fala muito da força do amor; do processo da salvação. Nós precisamos nesse momento nos salvar pelo amor. É a energia vital”, afirma. 

Clarice estabeleceu para Beth a ponte para a literatura. Entre seus novos projetos está uma peça com a obra da escritora Cora Coralina. “Fui aprendendo como a literatura nos ajuda a sermos melhores, a ampliar o olhar. Porque a gente vive mesmo é para ser uma pessoa melhor.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.