Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Don DeLillo esmiúça, em 'Zero K', o desejo de se estender a vida

Potente voz da América, o autor de 80 anos situa parte do seu romance, que traz em seu cerne o interesse pela vida após a morte, no Quirguistão

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

16 de setembro de 2017 | 06h00

O escritor americano Don DeLillo ainda cultiva hábitos enraizados. Prefere redigir seus romances, por exemplo, em uma máquina de escrever. E, para se comunicar a longa distância, se não usa o telefone, prefere o fax. Mas nada disso impede que, em uma carreira que já soma 50 anos e 17 romances, DeLillo revele um pensamento esclarecedor, justamente por fazer questão de falar a língua compreendida pela América. Trocando em miúdos, o conjunto de sua obra vem provocando estranhas reverberações entre a vida intensa de seus personagens e o universo da cultura pop no qual eles estão inseridos. Visionário? “De forma alguma”, responde taxativamente durante uma entrevista ao Estado. “Não sou um crítico, apenas tenho uma visão pessoal da sociedade que nos cerca.”

Tal aparente descaso já fora revelado durante sua passagem por Paraty em 2003, quando participou da primeira edição da Flip, a Festa Literária Internacional da cidade portuária. Não provoca, porém, efeito negativo. “O que me agrada é a visão crítica de seu país e a maneira muito hábil com que narra uma história, de forma cinematográfica, substituindo uma câmera estática por palavras”, já elogiou, certa vez, o também autor Bret Easton Ellis, conhecido por revelar as fraturas de uma esfacelada sociedade americana.

De fato, se conservador no hábito de realizar seu trabalho, DeLillo ainda exibe, aos 80 anos, uma visão apurada do meio que o cerca. Um olhar tão certeiro que deixa a alma a sangrar. Em Ruído Branco (1985), por exemplo, seu oitavo romance e vencedor do prêmio National Book, ele parte de um acidente industrial para revelar o grotesco e o absurdo que rodeiam a vida moderna americana. Já no extremamente bem escrito Os Nomes (1982), DeLillo costura uma bem tramada colcha cujos retalhos tão díspares como casamento, terrorismo e fanatismo religioso no Oriente Médio se entrelaçam habilmente para apresentar a busca de sentido em um mundo desintegrado pela ausência de valores.

“Como está o tempo aí em São Paulo?”, ele repentinamente pergunta ao repórter, durante a conversa telefônica. Ao ouvir que a tarde daquela terça-feira, dia 12, estava quente e seca, um clima quase desértico, DeLillo esboçou um sorriso e comentou, mais para si que para seu interlocutor: “Isso me faz lembrar do Quirguistão”. Pois é justamente esse país da Ásia Central, ex-integrante da antiga União Soviética, que abriga o principal cenário do novo romance do americano, Zero K, agora lançado em português pela Companhia das Letras.

Obra elegíaca, traz em seu cerne o interesse da vida após a morte. Jeffrey Lockhart é um jovem que viaja até aquela remota região do planeta, próxima de uma antiga região de testes nucleares soviéticos, para se despedir da madrasta, Artis, debilitada por uma doença degenerativa. Lá, Jeffrey descobre que o pai, Ross, criou um empreendimento denominado Convergência, um imenso complexo médico e tecnológico projetado para armazenar corpos humanos por tempo indeterminado. Assim, Artis está, na verdade, prestes a ser depositada em uma cápsula criogênica. A criogenia é o congelamento de cadáveres a baixas temperaturas para que sejam ressuscitados em algum dia do futuro, quando a ciência, espera-se, tenha descoberto a melhor maneira de retorná-los à vida.

Apesar do tema espinhoso, DeLillo conta ter feito pouca pesquisa. “No passado, quando escrevi outros romances, tentei me aprofundar mais que o necessário. Agora, deixei a imaginação mais solta. Pesquisei mais sobre pessoas interessadas em criogenia e os motivos que as levam a buscar esse assunto. Enfim, o que me interessou foi o futuro após a morte.”

DeLillo conta ter ficado fascinado com a chamada área “Zero K”, na qual pessoas se voluntariam para se submeter ao processo criogênico mesmo desfrutando de uma vida saudável e sem correr ainda o risco de morrer. “Essa, acredito, é a essência do romance”, diz. O que provoca a questão: no livro, as pessoas buscam evitar a morte ou a vida? “Boa pergunta. Alguns buscam retomar sua existência em 20 ou 30 anos, outros são como heróis que se oferecem para testes que servirão para orientar o futuro”, responde. “Mas a dúvida – e, de um certo ponto, também o fascínio – é: que tipo de sociedade, de mentalidade vai encontrar um indivíduo depois de passar 20 anos em uma cápsula criogênica? A maioria espera por algo semelhante ao que deixou para trás, mas não sabemos.”

Quanto mais a conversa se dirige para uma área nebulosa da ciência, mais interrogações vão surgindo, o que também parece interessar o escritor, que se esforça para impor um timbre em uma voz marcada por falhas. A humanidade está preparada para um empreendimento como a Convergência? “Há várias entidades buscando mais facilidades para a vida depois da morte. Veja a Alcor Foundation, organização sem fins lucrativos instalada no Arizona. Lá, repousam mais de 100 corpos congelados, incluindo Ted Williams (astro do beisebol dos anos 1940, morto em 2002). O que quero dizer é que ciência e tecnologia fazem um percurso em paralelo e espero que isso continue de uma forma refinada, sem apenas responder a interesses econômicos.”

Como todo artista, Don DeLillo sabe que sua imortalidade está garantida em sua obra – e, no caso dele, a intensidade aumenta especialmente nos títulos que vêm carregados de uma função premonitória, principalmente quando relacionados com os fatos. Cosmópolis, por exemplo, lançado em 2003, narra um dia na vida de Eric Parker, jovem empresário que percorre as ruas de Nova York dentro de uma limusine. Ao propor uma meditação sobre o tempo e a domínio do dinheiro em uma sociedade que se esfacela, a obra de DeLillo foi aclamada depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001.

DeLillo se incomoda quando é apontada a qualidade premonitória de suas histórias. Volta a repetir que tem apenas uma visão muito pessoal da sociedade. O que torna inevitável a pergunta: como vive hoje a América sob a administração Trump? “Não gosto de falar sobre política. Digo apenas que vivemos além da realidade. Trump é um tipo de comédia que se torna desastrosa a cada dia”, afirma.

A conversa com o escritor termina com assuntos mais amenos. Como sua passagem por Paraty, em 2003 (“guardo ótimas recordações daqueles dias”) e da opção por incluir, no final de Zero K, um fenômeno climático típico de Nova York, conhecido como Manhattanhenge: duas vezes por ano, em cada solstício do verão, o sol se alinha perfeitamente com a grade de ruas da cidade. No livro, surge em um momento poético. “Neste ano, não houve poesia, pois o dia estava nublado”, contou DeLillo, sem esconder seu desaponto. 

ZERO K

Autor: Don DeLillo

Tradução: Paulo Henriques Britto

Editora: Companhia das Letras (272 págs., R$ 49,90 impresso, R$ 34,90 e-book)

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