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Discussão sobre múmia ameríndia em HQ de Tintim provoca polêmica na Bélgica

Um museu e um zoológico afirmam possuir a múmia ameríndia que inspirou Hergé para a capa do álbum 'As 7 Bolas de Cristal'

Matthieu Demeestere, AFP

14 de julho de 2020 | 15h13

Tintim suscita paixões e, nos últimos dias, conflitos na Bélgica. Um museu e um zoológico afirmam possuir a múmia ameríndia que inspirou Hergé para a capa do álbum As 7 Bolas de Cristal.

"Não atraímos visitantes prometendo pandas", disse Alexandra De Poorter, diretora-geral dos Museus Reais de Arte e História, referindo-se às estrelas chinesas do zoológico Pairi Daiza. 

Esse zoológico, localizado na região da Valônia (sul) e um dos pilares do turismo belga, afirmou na semana passada que abrigava a "autêntica múmia chamada Rascar Capac".

Isso representa uma afronta ao Museu de Arte e História (MAH) de Bruxelas, que garante que o criador de Tintim (1907-1983) visitava suas instalações "regularmente" e reproduziu muitos objetos em exposição.

A polêmica não demorou a se instalar, especialmente quando essa instituição cultural pensava ter convencido a todos há dez anos sobre a importância de "sua" múmia ameríndia.

Após acusações veladas de publicidade enganosa, o zoológico lamentou "a controvérsia iniciada pelos Museus Reais" e tentou acalmar os ânimos, garantindo que ninguém realmente sabe qual múmia inspirou Hergé. 

O único ponto de consenso é que a múmia de 2.000 anos de idade, com cabelos e ornamentos, adquirida pelo Pairi Daiza em 2008, fez parte em 1979 de uma exposição em Bruxelas intitulada O Museu Imaginário de Tintim.

O próprio Hergé, cujo nome era Georges Remi, visitou esta exposição, concebida para o 50º aniversário do primeiro álbum (Tintim no País dos Sovietes), baseada em objetos reais que inspiraram seu trabalho.

"Na mente de Pairi Daiza, a visita foi uma espécie de validação pelo criador de que sua múmia é a que o inspirou. Mas não é", assegura Serge Lemaître, curador do MAH.

Segundo ele, encarregado das coleções Américas, um colecionador belga comprou nos anos 1960 a múmia que o zoológico possui, ou seja, anos após a publicação de As 7 Bolas de Cristal em 1948.

"E, em suas primeiras tirinhas publicadas em 1941 no jornal Le Soir, Rascar Capac parece sem cabelo, com os joelhos muito flexionados, como a nossa múmia", acrescenta este arqueólogo à AFP.

O exemplar do museu chegou à Bélgica em 1841 e se trataria de um agricultor e caçador que morreu aos 35 anos no início do século XVI, perto da atual cidade chilena de Arica, explica.

Para justificar sua teoria, Lemaître diz que Hergé frequentou e morou perto deste museu do Parque Cinquentenário e que o personagem do professor Bergamotte é na verdade baseado em seu então conservador Jean Capart.

Nas vitrines, é possível ver objetos que o inspiraram, como bonecos de pano, vasos de retratos mochica ou estátuas pré-colombianas, acrescenta.

Mas em uma reviravolta final digna das aventuras do repórter, Philippe Goddin, um renomado especialista no trabalho de Hergé, garante à AFP que a múmia de As 7 Bolas de Cristal não está na Bélgica.

"Temos que parar de discutir. Hergé olhou para muitas múmias incas, mas suas primeiras representações de Rascar Capac são essencialmente baseadas no dicionário Larousse da época", explica Goddin.

E esse modelo, trazido do Peru nas coleções do explorador francês Charles Wiener (1851-1913), está agora no famoso museu etnológico do Quai Branly, em Paris, afirma.

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