Walter Craveiro/Divulgação
Walter Craveiro/Divulgação

Discordâncias conceituais marcam a primeira mesa científica da Flip 2015

Sidarta Ribeiro e Eduardo Gianetti discutiram 'as ilusões da mente' e mostraram opiniões divergentes; papo foi amigável

Guilherme Sobota, Enviado Especial - O Estado de S. Paulo

03 Julho 2015 | 17h51

PARATY - Na primeira das mesas científicas da Flip (este ano serão duas), o neurocientista Sidarta Ribeiro e o economista Eduardo Gianetti discutiram o tema proposto pela curadoria: ‘as ilusões da mente’, e em diversos pontos do debate demonstraram opiniões conflitantes - para a alegria da plateia que lotou o espaço e ao final aplaudiu de pé a discussão.

O ponto de partida foi a chamada teoria fisicalista - uma corrente filosófica e científica que, em poucas palavras, pressupõe que todo estado mental é diretamente derivado de um estado fisiológico.

Gianetti lançou em 2010 A Ilusão da Alma, romance em que o personagem principal, após a recuperação de um câncer, adere a essa corrente e vê sua vida transformada pelas pesquisas sobre a relação entre cérebro e mente.

“A pesquisa atual em neurociência sugere dois pontos: 1) não existe estado mental que não corresponda a um estado neurofisiológico e 2) qual é a relação que existe entre o que se passa no mundo objetivo do cérebro com o mundo mental, subjetivo”, comentou Gianetti. Para ele, o fisicalismo não pode ser descartado. Citando o neurocientista americano Benjamin Libet, ele explicou que mesmo um gesto muito simples, como mexer um dedo, sugere toda uma escalada neural, que precede não só a própria ação, mas também precede a própria intenção.

“De onde vem isso?”, questionou Gianetti. “Se for assim mesmo, estaremos todos errados sobre tudo que pensamos sobre nós mesmos até agora”, concluiu, "e o trabalho da neurociência converge para a comprovação".

Para Sidarta, porém, essa hipótese não é um problema tão grande. “Existir uma máquina biológica por trás da consciência não é algo que me angustia”, completou o diretor do Instituto do Cérebro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que se dedica especialmente à pesquisa do comportamento cerebral em diferentes estados de consciência. "Temos completa liberdade mesmo diante do pequeno número de possibilidades que nos são oferecidas - se essas escolhas forem engendradas biologicamente, isso não as torna menos relevantes."

Além da psicanálise (Sidarta: “Freud construiu uma teoria claramente científica, testável; já os freudianos, nem sempre”; Gianetti: “o inconsciente tem neurofisiologia”) e da religião, a questão das drogas foi o tema mais sensível do debate, e onde a maior discordância se criou.

“É uma questão científica - se os nossos estados mentais são estados biológicos, operados por variações químicas, é óbvio que a pesquisa (com drogas) é fundamental e tem que ser livre”, afirmou Sidarta, que também desenvolve pesquisas com substâncias psicoativas, como o chá de ayahuasca. “Os efeitos antidepressivos das pesquisas são positivamente impressionantes”, afirmou.

“Todas as drogas têm que ser legalizadas e regulamentadas para o que elas foram feitas, e não com a cabeça dos legisladores racistas dos anos 1940”, disse Sidarta, para aplausos do público.

Questionado, Gianetti “defletiu” a pergunta, para usar um termo do próprio Sidarta. “Minhas drogas são as ideias”, disse o economista. “Estou interessado no que acontece se você leva as ideias até o fim”, disse, referindo-se ao seu romance.

O debate foi mediado pelo jornalista da revista piauí Bernardo Esteves.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.