Diretor lembra as lições de amizade e desapego de Manoel de Barros

Diretor lembra as lições de amizade e desapego de Manoel de Barros

Pedro Cézar, que dirigiu o documentário 'Só Dez por Cento é Mentira', escreve sobre a convivência com o poeta

Pedro Cézar, Especial para O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2014 | 19h11

Manoel de Barros, meu amigo, aceito seu verso “A morte é indestrutível”, mas devo lhe dizer que ela, sua morte, perde de longe para a sua poesia. A morte é colocada em caixão, é enterrada e vira pó; sua poesia ilumina, é colocada no vento e faz nascimentos. A morte voa em noticiários e some, sua poesia “voa fora da asa” e fica.

Que presente de Deus (e do amigo Julio) ter conhecido seus versos e sua alquimia verbal. E que presente da vida (e da Elisa) ter conhecido sua pessoa, seu sorriso e sua resistência a “falar pra máquina” quando tentei lhe entrevistar para o filme. Graças a essa resistência nos conhecemos melhor e tomamos aquele whisky de garrafa abaulada tipo joão bobo. Em meu inventário de coisas preciosas, além de seus livros, terei a lembrança de você me ensinando que essas garrafas de whisky com bases arredondadas são extremamente úteis quando consumidas nos navios em alto-mar: “Elas não caem. Ondulam”.

E por falar em mar, “Por que deixam um menino do mato amar o mar com tanta violência”? Está vendo o que você fez com suas palavras? Elas vão se juntando pelo mel que deixam. E irrecuperavelmente vamos lembrando de seus versos, de sua poesia, de seu sorriso.

Jamais esquecerei os dias em Campo Grande. Aos poucos você cedeu à ideia do filme e me senti o sujeito mais agraciado do mundo. De quebra você me mostrou As Noites de Cabíria, de Fellini, e me confessou que a personagem do filme estava no rol de seus heróis. Aquilo me disse muito. Entendi que você é original e imprevisível até mesmo na escolha das musas e das heroínas.

Assistimos numa terça-feira depois do almoço. Fiquei maravilhado com Fellini e Cabíria, que não conhecia. 

Também lembro da viagem de Campo Grande a Buritizinho que fizemos eu, você e Rafa, seu neto. Você foi na carona do banco da frente, contrariando as recomendações de Dona Pássara, sua esposa, que só ficou sabendo quando o entregamos de volta. E como se não bastasse, você ainda nos deu um baita susto quando engasgou com um osso do delicioso frango ao molho pardo (no Recife chamamos galinha de cabidela). O engraçado foi você nos advertindo que Dona Stella jamais poderia saber daquela comida.

Ao longo da vida aprendi que nem sempre autor e obra combinam no plano da simpatia ou encantamento. Nem sempre pessoa física e pessoa jurídica provocam as mesmas sensações. O mundo anda cheio de artistas arredios, gênios blindados por seguranças e lotado de celebridades de Muribeca. Devo lhe dizer que sempre achei sublime você abrir a porta para qualquer um que descobrisse sua toca em Campo Grande e oferecesse um chá (ou um whisky) para leitores camicazes que apertassem sua campainha apenas para lhe tocar ou confirmar que você era de carne e osso.

Mas a história que jamais esquecerei foi aquela que se passou num hotel em São Paulo durante o lançamento de seu livro Ensaios Fotográficos. Um jornalista atrás de exposição arranjou um jeito de te chamar de “poeta menor” e sua esposa, Dona Stella (Dona Pássara), ficou furiosa cobrando uma atitude, cobrando uma resposta. Você disse pra ela que não faria nada. Ele insistiu no assunto e te botou no canto da parede cobrando um posicionamento. Quando pensei que você finalmente daria uma resposta “justa” ao jornal, você argumentou: “Os jornais vivem publicando que sou o maior poeta do Brasil; acho isso uma tremenda bobagem, mas nunca mandei carta reclamando! Por que faria isso agora?”. 

Foi uma lição de desapego!

PEDRO CÉZAR É CINEASTA E DIRETOR DO DOCUMENTÁRIO SÓ DEZ POR CENTO É MENTIRA

Mais conteúdo sobre:
Manoel de Barros

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.